segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Lista das cinco melhores músicas para se ouvir de madrugada durante a insônia

Para aproveitar a insônia, resolvi colocar aqui a lista comentada das cinco melhores músicas (em minha opinião) para se ouvir de madrugada enquanto o sono não chega.

Elderly woman behind the counter in a small town
Pearl Jam

Uma canção linda e simples. A maioria das pessoas acham que é uma música sobre alguém que não consegue se lembrar de um rosto conhecido. Eu, particularmante, acredito que tem mais a ver com as escolhas que fazemos na vida e aquelas que são determinadas pelo comodismo do cotidiano ou sobre envelhecer sem tem a liberdade para escolher o próprio caminho. De qualquer forma, Pearl Jam detona e merece sempre um espaço durante a vigília da madruga.

I swear I recognize your breath
Memories like fingerprints are slowly raising
Me you wouldn’t recall, for I’m not my former
It’s hard when you’re stuck upon the shelf
I changed by not changing at all,
small town predicts my fate
Perhaps that’s what no one wants to see
I just want to scream... Hello...
My God it’s been so long,
Never dreamed you’d return
But now here you are, and here I am
Heartsand thoughts they fade...
Away...

Eu juro que reconheço a tua respiração
Memórias como se fossem impressões digitais
estão lentamente aparecendo
De mim você não deve se lembrar, pois
Não estou como costumava ser
É difícil quando você fica como que atolado na areia
Eu mudei, mas não por completo,
A cidade pequena vaticinou meu destino.
Talvez seja isso o que ninguém quer ver
Eu só quero gritar... Olá!
Meu Deus, há quanto tempo...
Nunca sonhei que você voltaria...
Mas aí está você, e aqui eu estou.
Corações e pensamentos, eles se esvaem
E desaparecem...



Confortably numb
Pink Floyd

Além de representar um desejo que não se cumpriu hoje à noite (o de estar confortavelmente paralisado - pelo sono), a música Confortably numb, do Pink Floyd, é a síntese perfeita da ópera rock idealizada pelo grupo para o disco The Wall. É a figura cruel e depressiva da vida de um rock star e a letra sempre me deixa grilado com a saúde mental do Roger Waters. Fico sempre em dúvida se ele escreveu como uma forma de catarse; para tentar exorcizar algum fantasma do passado, ou como exercício extremo de caracterização do mito do rock star sem perspectiva de vida, como exemplificam os versos abaixo:

When I was a child I caught a fleeting glimpse
Out of the corner of my eye
I turned to look but it was gone
I cannot put my finger on it now
The child is grown, the dream is gone
I have become comfortably numb

Quando eu era criança percebi um reflexo de relance
Com o canto do meu olho
Eu virei para olhar mas já tinha ido
Não consigo colocar meu dedo lá agora
A criança cresceu, o sonho se foi
Eu me tornei confortavelmente paralisado
Down in a hole
Alice in Chains
O Alice in Chains foi um dos grupos que eu tive a oportunidade de acompanhar ansiosamente o lançamento de cada álbum. O segundo disco, Dirt, é um dos melhores registros não apenas da estética grunge, como também do heavy metal como um todo. O disco inteiro pode ser interpretado como uma metáfora para o inferno da depressão causada pela dependência química, daí o nome do disco: Dirt (sujo). O amor pela heroína. A dor causada pela heroína. A atormentadora tentativa de se livrar da heroína. Tudo isso não deixa espaço para dúvida, este é o mais profundo e cru relato de auto-destruição causada pelo vício já gravado num disco. A música em questão resume perfeitamente tudo o que é tratado em Dirt (além do profético destino do vocalista da banda), a começar pela introdução, lenta e agradável, que rapidamente fica fria e sombria, passando pela letra em que Layne Stanley se lamenta: "I have been guilty / Of kicking myself in the teeth" (Eu fui o culpado por chutar meus próprios dentes).
Último romance
Los Hermanos
Sempre fui meio desconfiado com o Los Hermanos. Acho que esse preconceito era por causa da Ana Júlia, que ainda hoje cisma em aparecer em regravações de cantores e grupos que nem vale a pena listar. Ainda bem que consegui vencer isso, pois atualmente, Los Hermanos é a minha banda brasileira preferida. E o disco Ventura, o terceiro deles, traz uma sonoridade única, misturando MPB, samba, rock, pop num amalgama capaz de deixar na indecisão os críticos musicais mais sistemáticos. Último Romance é uma das mais belas canções que já ouvi e combina perfeitamente não apenas com o clima depressivo da madrugada insone, mas com qualquer outra situação.
That’s life
Frank Sinatra
Uma das coisas legais de se escutar música de madrugada durante a insônia é que, com isso, você consegue uma forma de focalizar seus pensamentos. Geralmente funciona assim: você começa a ouvir a música e, de repente, idéias, muitas vezes desconexas, começam a brigar por espaço na mente desorientada. Por isso, depois de umas trinta e tantas músicas que fazem pensar, sempre é bom dar um descanso para o cérebro com algo que você possa simplesmente ignorar. E é aí que chega a vez de escutar o Mr. Ol’ Blue Eyes. Não que a letra seja de todo insipiente (o que pode ser comprovado que não é, pelo trecho abaixo) o fato é que, depois das três da madruga, qualquer tentativa de raciocínio, assim como os reflexos para digitar, é nula.
That's life
That's life (that's life), that's what all the people say
You're ridin' high in April, shot down in May
But I know I'm gonna change that tune
When I'm back on top, back on top in June
I said that's life (that's life), and as funny as it may seem
Some people get their kicks stompin' on a dream
But I don't let it, let it get me down
'cause this fine old world, it keeps spinnin' around
I've been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and a king
I've been up and down and over and out and I know one thing
Each time I find myself flat on my face
I pick myself up and get back in the race
That's life (that's life), I tell you I can't deny it
I thought of quitting, baby, but my heart just ain't gonna buy it
And if I didn't think it was worth one single try
I'd jump right on a big bird and then I'd fly

I've been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and a king
I've been up and down and over and out and I know one thing
Each time I find myself layin' flat on my face
I just pick myself up and get back in the race
That's life (that's life), that's life and I can't deny it
Many times I thought of cuttin' out but my heart won't buy it
But if there's nothin' shakin' come this here July
I'm gonna roll myself up in a big ball a-and die

My, my!
Até a próxima.
Marcos

domingo, 19 de fevereiro de 2006

De calças curtas

Eleominilson escutou a porta sendo aberta e rapidamente tratou de fechar a janela do navegador. Na pressa, apertou mais teclas do que devia e o computador travou com o browser aberto, mostrando uma fotografia hardcore de uma loura numa pose tirada diretamente do Kama Sutra. A saída seria desligar o computador de vez, mas, para fazer isso, ele teria de se enfiar embaixo da mesa, deixando o monitor totalmente desprotegido. Era tarde demais, Irisdelfane estava parada na frente dele, de braços cruzados e com a testa franzida. Era melhor disfarçar.

– Oi amor. Tudo bem?

– Não.

Mau começo. Era preciso pensar rápido.

– Você cortou o cabelo? Sua franja está lindíssima.

– Você bebeu, Eleominilson? Eu não tenho franja. E faz mais de um mês que não vou ao cabeleireiro.

– Ah, mas que coisa. Eu achava que esse corte seu chamava “franja”. Vamos lá na sala para você me explicar melhor os nomes dos penteados femininos?

Eleominilson começou a levantar, jogando o corpo na frente do monitor, mas Irisdelfane não se moveu. Ele se sentou de novo.

– Você está na Internet outra vez, não é?

– Na verdade, não. Veja só, o computador travou, e, por falar nisso, você não quer me fazer o favor de desligar a CPU? É só apertar aquele botãozinho ali.

Mas ao invés de apertar o botãozinho, Irisdelfane empurrou a cadeira de Eleominilson e encarou o monitor.

– Não acredito!

Era preciso agir rápido. Partir para o ataque. Mostrar quem usava as calças naquele casamento. E aproveitar para reiniciar o computador.

– Não acredita no quê, Irisdelfane? Você está presumindo que eu fui atrás dessa foto? Está? Mas e se na verdade eu tiver recebido pelo e-mail? E se ela tiver chegado numa mensagem em branco, anônima? Ou pior, numa mensagem do Marcunguduvaldo? Como é que eu não ia abrir um arquivo mandado pelo meu melhor amigo? Ela não significa nada. Essa desconfiança é a morte da nossa relação! Eu posso achar essa loira horrível! Eu posso ter ficado ofendidíssimo com essa imagem. E se você reparar, ela está sem roupas, mas não dá para ver nada, pois tem um rapaz cobrindo os seios dela com as mãos! Tecnicamente, é como se ela estivesse vestida, porque tem um outro rapaz cobrindo a genitália dela com a cabeça. Se ela estivesse vestida você não faria essa cara, não é? Isso é preconceito, Irisdelfane. É a mesma coisa que não gostar de alguém por causa da religião. Por que uma foto da moça vestida é permitido e uma dela sem roupa, mas deitada sobre um rapaz e apoiada sobre outro, num ângulo que só mostra o rosto e os ombros, é o fim dos tempos? Tudo bem, dá para ver essa curvinha das costas, mas isso não conta. Você não esta sendo justa. Se você refletir bem verá que não há problema algum.

– É claro que há problema.

– Putz, não funcionou... (pensou Eleominilson).

Eleominilson tentou fingir um ataque de SCI (Síndrome do Cólon Irritado) e começou a rolar no chão com as mãos na barriga. Porém, Irisdelfane não parecia impressionada.

– Não seja ridículo, Eleominilson. O problema é que você está na Internet há mais de trinta minutos e eu quero usar o telefone. Se ainda fosse para alguma coisa útil, vá lá. Mas se o que você quer é ver foto de mulher pelada, faça-me o favor de ir comprar uma revista, porque eu quero conversar com a Usnavy antes da novela começar.

E com isso ela saiu do quarto. Eleominilson sentou novamente e esperou o computador reiniciar. Por um momento ele até quis ir à banca. Mas, pensando bem, ele estava de bermuda. A Irisdelfane é que estava de calças. Era melhor ficar jogando “Paciência” até o fim do Jornal Nacional.

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Instruções para chorar

Julio Cortázar

Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem que insulte o sorriso com sua paralela e torpe semelhança. O pranto médio ou ordinário consiste em uma contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e mucos, estes últimos ao final, pois o pranto se acaba no momento em que se assoa o nariz energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto he resulta impossível por haver contraído o hábito de crer no mundo exterior, pense em um pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães em que não entra ninguém, nunca. Chegado o pranto, se tapará com decoro o rosto usando ambas as mãos com a palma voltada para dentro. As crianças chorarão com a manga da camisa contra a cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.

Instrucciones para llorar
Julio Cortázar

Dejando de lado los motivos, atengámonos a la manera correcta de llorar, entendiendo por esto un llanto que no ingrese en el escándalo, ni que insulte a la sonrisa con su paralela y torpe semejanza. El llanto medio u ordinario consiste en una contracción general del rostro y un sonido espasmódico acompañado de lágrimas y mocos, estos últimos al final, pues el llanto se acaba en el momento en que uno se suena enérgicamente. Para llorar, dirija la imaginación hacia usted mismo, y si esto le resulta imposible por haber contraído el hábito de creer en el mundo exterior, piense en un pato cubierto de hormigas o en esos golfos del estrecho de Magallanes en los que no entra nadie, nunca. Llegado el llanto, se tapará con decoro el rostro usando ambas manos con la palma hacia adentro. Los niños llorarán con la manga del saco contra la cara, y de preferencia en un rincón del cuarto. Duración media del
llanto, tres minutos.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

MSN

Quarta-feira, 22h e 50 min, num bar desses da Asa Norte. Rapaz Pré-Balzaquiano com gel no cabelo (RPBCGC) encontra com Garota Pós-Adolescente Estudante de Letras (GPAEL) enquanto esperam suas respectivas oportunidades de usar o mictório do estabelecimento.

RPBCGC (visivelmente tímido, tenta uma aproximação verbal com GPAEL): Você vem sempre aqui?

GPAEL (deslumbrada com a autenticidade do argumento de RPBCGC): No banheiro, sim. E você?

RPBCGC (sentindo-se vitorioso por ter conseguido derrubar a primeira barreira rumo ao estabelecimento do diálogo): Eu também! Só que no masculino.

GPAEL (dando sinais de entrosamento): É...

RPBCGC (captando o significado implícito daquela vogal): É.

GPAEL: É... Mas essa é a primeira vez que venho a este bar.

RPBCGC: Que coincidência! Eu também!

GPAEL (mudando de assunto): Já são 22h:51min!

RPBCGC (rápido como uma bala): É isso aí, 22 horas e 51 minutos da quarta-feira!

GPAEL (raciocinando): Nossa já é quase quinta-feira!

RPBCGC (dois minutos depois): Putz! É mesmo!

GPAEL (...): Será que vai chover?

RPBCGC (metafísico): Acho que já está chovendo. (Olha para fora e, três minutos depois) Sim, já está chovendo!

GPAEL (mística) É...

RPBCGC: Não há muito espaço aqui, digo, nesses corredores, né?

GPAEL: É... Não há muito.

RPBCGC (tentando reatar o interesse): Que horas são?

GPAEL: 22h e 55 min.

RPBCGC: É... Chegou a tua vez de usar o banheiro.

GPAEL: É...

RPBCGC: Foi legal conversar com você...

GPAEL: É... Até mais...

RPBCGC: Até.

GPAEL entra no mictório e desaparece da vida de RPBCGC. Enquanto esvazia sua bexiga, RPBCGC, pensa que poderia ao menos ter perguntado o nome de GPAEL...

Ah, essas conversas da era do MSN...

sábado, 11 de fevereiro de 2006

O filme cósmico

“Bom, todos nós estamos no filme cósmico, sacou?
Isso quer dizer que no dia que você morre, você
tem que assistir toda a sua vida em reprise eterna,
em Cinemascope e 3D. Então, é melhor que haja
alguns bons incidentes acontecendo lá...
e um final bem apropriado!”
-- Jim Morrison
[1]



A morte prematura de um astro de rock não é mais novidade atualmente. A história da música está cheia de exemplos de jovens cantores que abandonaram a vida no auge da fama e acabaram se tornando mártires: Janis Joplin, Renato Russo, Jimmy Hendrix, Cazuza, Kurt Kobain, Laine Stanley, Rita Lee... A lista poderia se estender por páginas e exemplifica o quanto a filosofia do “e melhor queimar de uma vez que ir apagando aos poucos” tornou-se popular.

Isso hoje. Em julho de 1971, entrar nessa lista era uma atitude muito destemida para um rock star. E é aí que entra em cena Jim Morrison, o líder do The Doors. Pode-se dizer que o Lizard-man – como Morrison gostava de ser chamado – foi o precursor dessa onda de mártires do rock, pois, logo após sua morte, ele foi beatificado pela poética beat (sacou o trocadilho?!) e pelo couro preto. Tanto que para os fãs-órfãos que até hoje peregrinam anualmente para o Perè Lachaise[2], ele é o próprio Che Guevara do trinômio sexo_drogas_e_rock’n’roll.

Escrevo este texto enquanto escuto o disco L.A. Woman, e fico pensando comigo: “O que será que ele diria de tudo isso? Será que ele levaria a sério essa história de mártir do rock?”. Acho que ele provavelmente tiraria um sarro. Morrison não se considerava roqueiro, mas um poeta. Além disso, ele não era tão sentimental em relação à “revolução do rock”, como ele próprio demonstrou em alto e bom som na música “Rock is dead”:

O rock está morto,
Deve haver algo mais em seu lugar.
Morra, morra, morra,
morra...
Está tudo acabado baby

Isso pode parecer cinismo, mas, para mim, ele não era apenas mais um suicida_do_rock como muitos dizem. Acredito a maior lição que podemos tirar de sua morte é que ele escolheu intensidade ao invés de duração. Acho bem mais plausível que ele tenha feito de sua vida um exemplo para todos aqueles que refreiam os próprios desejos e se acomodam diante da mesmice do cotidiano. Ao invés de se conformar, ele preferiu viver a vida em toda a sua potencialidade.

Daí a citação do começo desse texto. Segundo Morrison, não é só porque temos problemas que devemos desistir de viver. Problemas todos têm. O importante é fazer com que o filme cósmico, a nossa vida, nunca caia na monotonia, e que haja sempre algum lance interessante acontecendo, pois, além de sermos os atores principais, após a morte, seremos os expectadores perpétuos.

Fico por aqui, e só para terminar segue mais um pensamento:

"Dizer sim à vida até diante de seus problemas,
mais estranhos e difíceis; o desejo de viver acima
de exaustão mesmo diante dos maiores sacrifícios
- isso é o que chamo de Dionísio, o que entendo
como a passagem para a psicologia do poeta trágico.
Não para se dispor do trágico e da compaixão, mas
para transformar-se na alegria eterna de
transformação, acima de qualquer terror ou piedade".
-- Jim Morrison

Até mais.

Marcos

---------
Notas:

[1]"Well, we’re all in the cosmic movie, you know that! That means the day you die, you gotta watch your whole life recurring eternally forever, in Cinemascope, 3-D. So you better have some good incidents happenin’ in there… and a fitting climax!"
— Jim Morrison, na introdução da música ‘Been down so long’ durante o show realizado no Cobo Arena, Detroit Michigan, em 8 de maio de 1970.

[2] Um famoso cemitério, em Paris, que carrega a reputação de ser o cemitério mais famoso do mundo. Entre seus "hóspedes" estão os escritores Molière (1622-1673), Honoré de Balzac (1799-1850) e Oscar Wilde (1854-1900), o músico Frédéric Chopin (1810-1849) e o espírita Allan Kardec (1804-1869), além do roqueiro em questão.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

O problema de se pensar

Penso na vida.
Penso no que será da vida.
Penso no que vou fazer da vida.
Penso no que fiz até aqui com a vida.
Penso no que os outros fazem com a vida.

Penso em como poderia ser a vida se...
E sempre há um se...
Se fosse assim...
Mas e se fosse assado...
Talvez isso...
ou talvez aquilo...

E o problema é esse,
perco muito tempo pensando.
Quando se pensa demais na vida,
e se esquece de viver,
a vida passa...

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Pensar é Transgredir

Lya Luft

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

LUFT, Lya. Pensar é Transgredir, Ed Record, São Paulo.

Noite inesquecível

Um casal está calmamente assistindo televisão à noite. O marido pergunta para a mulher:

- Posso saber por que você está emburrada desde que eu cheguei?

A mulher (toda chorosa) responde:

- Hoje faz 18 anos que nós somos casados e estamos aqui, parados em frente a essa televisão...

- MEU DEUS! Eu estave tão atarefado que esqueci completamente! Perdoe-me, minha querida. Coloque seu melhor vestido de noite que vamos sair. Você terá uma noite inesquecível...

- Ah, querido, eu sabia que você não era um monstro...

À entrada do restaurante, aproxima-se o maitre todo solicito:

- Boa noite senhor! – e fala em seguida para o garçom:

- Preparem a mesa do senhor Fagundes.

A mulher:

- Eles parecem te conhecer bem aqui, querido...

- Ah é!... Acho que eu vim aqui para almoçar com alguns clientes...

Eles acabam de jantar e o marido propõe de irem a uma boate. Na entrada tinha uma fila enorme. O marido diz a mulher que vai arranjar tudo e se dirige ao porteiro:

- Salve Macalé! Como vai essa força?

Macalé:

- Tá muito bem seu Fagundes. Pode ir entrando...

Dentro da boate o dono vem falar com o casal:

- Boa noite Fagundes! - e diz logo em seguida:

- Liberem a mesa do senhor Fagundes...

A mulher desconfiada, pergunta:

- Você vem sempre aqui?

- Ah não! O dono que é um cliente da firma...

Uma vez na mesa, a garçonete vem e diz:

- O de sempre, Senhor Fagundes?

Enquanto isso, uma mulher que começava a cantar em cima do palco, interrompe a música e diz:

- ESTA MÚSICA EU OFEREÇO PARA QUEM?! – e a boate em peso:

- Fagundes! Fagundes!

Depois disto a mulher não agüenta mais e, chorando, sai correndo. O marido vai atrás e eles entram juntos num táxi. O marido tentando apaziguar as coisas:

- Querida, não vamos estragar esta noite maravilhosa, com certeza eles me confundiram com outro Fagundes...

- Você tá pensando que eu sou alguma idiota, seu canalha? Não me toque mais, por favor...

Nisto o motorista de táxi se vira e diz:

- Seu Fagundes, faz 10 anos que a gente se conhece. Vai por mim, vagabundas nós já pegamos às dezenas, mas chata como essa aí, é a primeira vez...

sábado, 28 de janeiro de 2006

O Sono

Álvaro de Campos

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono. Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?, Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!

Sala de Espera

Luis Fernando Verríssimo

Sala de espera de dentista. Homem dos seus quarenta anos. Mulher jovem e bonita. Ela folheia uma Cruzeiro de 1950. Ele finge que lê uma Vida dentária.

Ele pensa: que mulherão. Que pernas. Coisa rara, ver pernas hoje em dia. Anda todo mundo de jeans. Voltamos à época em que o máximo era espiar um tornozelo. Sempre fui um homem de pernas. Pernas com meias. Meias de náilon. Como eu sou antigo. Bom era o barulhinho. Suish-suish. Elas cruzavam as pernas e fazia suish-suish. Eu era doido por um suish-suish.

Ela pensa: cara engraçado. Lendo a revista de cabeça para baixo.

Ele: te arranco a roupa e te beijo toda. Começando pelo pé. Que cena. A enfermeira abre a porta e nos encontra nus sobre o carpete, eu beijando o pé. O que é isso?! Não é o que a senhora está pensando. É que entrou um cisco no olho desta moça e eu estou tentando tirar. Mas o olho é na outra ponta! Eu ia chegar lá. Eu ia chegar lá.

Ela: ele está olhando as minhas pernas por baixo da revista. Vou descruzar as pernas e cruzar de novo. Só para ele aprender.

Ele: ela descruzou e cruzou de novo! Ai meu Deus. Foi pra me matar. Ela sabe que eu estou olhando. Também, a revista está de cabeça pra baixo. E agora? Vou ter que dizer alguma coisa.

Ela: ele até que é simpático, coitado. Grisalho. Distinto. Vai dizer alguma coisa...

Ele: o que é que eu digo? Tenho que fazer alguma referência à revista virada. Não posso deixar que ela me considere um bobo. Não sou um adolescente. Finjo que examino a revista mais de perto, depois digo "Sabe que só agora me dei conta de que estava lendo essa revista de cabeça para baixo? Pensei que fosse em russo." Aí ela ri e eu digo "E essa sua Cruzeiro? Tão antiga que deve estar impressa em pergaminho, é ou não é? Deve ter desenhos infantis do Millôr." Aí riremos os dois, civilizadamente. Falaremos nas eleições e na vida em geral. Afinal, somos duas pessoas normais, reunidas por circunstância numa sala de espera. Conversaremos cordialmente. Aí eu dou um pulo e arranco toda a roupa dela.

Ela: ele vai falar ou não? É do tipo tímido. Vai dizer que tempo, né? A senhora não acha? É do tipo que pergunta "Senhora ou senhorita?" Até que seria diferente. Hoje em dia a maioria já entra rachando... Vamos variar de posição, boneca? Mas espere, nós ainda nem nos conhecemos, não fizemos amor em posição nenhuma! É que eu odeio as preliminares. Esse é diferente. Distinto. Respeitador.

Ele: digo o quê? Tem um assunto óbvio. Estamos os dois esperando a vez num dentista. Já temos alguma coisa em comum. Primeira consulta? Não, não. Sou cliente antiga. Estou no meio do tratamento. Canal? É. E o senhor? Fazendo meu check-up anual. Acho que estou com uma cárie aqui atrás. Quer ver? Com esta luz não sei se... Vamos para o meu apartamento. Lá a luz é melhor. Ou então ela diz pobrezinho, como você deve estar sofrendo. Vem aqui e encosta a cabecinha no meu ombro, vem. Eu dou um beijinho e passa. Olhe, acho que um beijo por fora não adianta. Está doendo muito. Quem sabe com a sua língua...

Ela: ele desistiu de falar. Gosto de homens tímidos. Maduros e tímidos. Ele está se abanando com a revista. Vai falar do tempo. Calor, né? Aí eu digo "É verão". E ele: "É exatamente isso! Como você é perspicaz. Estou com vontade de sair daqui e tomar um chope". "Nem me fale em chope." "Você não gosta de chope?" "Não, é que qualquer coisa gelada me dói a obturação". "Ah, então você está aqui para consultar o dentista, como eu. Que coincidência espantosa! Os dois estamos com calor e concordamos que a causa é o verão. Os dois temos o mesmo dentista. É o destino. Você é a mulher que eu esperava todos estes anos. Posso pedir sua mão em noivado?"

Ele: ela está chegando ao fim da revista. Já passou o crime do Sacopã, as fotos de discos voadores... Acabou! Olhou para mim. Tem que ser agora. Digo: "Você está aqui para limpeza de pernas? Digo, de dentes? Ou para algo mais profundo como uma paixão arrebatadora por pobre de mim?"

Ela: e se eu disser alguma coisa? Estou precisando de alguém estável na minha vida. Alguém grisalho. Esta pode ser a minha grande oportunidade. Se ele disser qualquer coisa, eu dou o bote. "Calor, né?" "Eu também te amo!"

Ele: melhor não dizer nada. Um mulherão desses. Quem sou eu? É muita perna pra mim. Se fosse uma só, mas duas! Esquece, rapaz. Pensa na tua cárie que é melhor. Claro que não faz mal dizer qualquer coisinha. Você vem sempre aqui? Gosto do Roberto Carlos? O que serão os buracos negros? Meu Deus, ela vai falar!

- O senhor podia...

- Não! Quero dizer, sim?

- Me alcançar outra revista?

- Ahn... Cigarra ou Revista dda Semana?

- Cigarra.

Aqui está.

- Obrigada.

Aí a enfermeira abre a porta e diz:

- O próximo.

E eles nunca mais se vêem.

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Escuta!

Escuta!
Mayakovsky

Escuta,
se as estrelas estão acesas
significa – que há alguém precisando delas.
Significa – que alguém quer sê-las,
que alguém considera magnífica aquela mancha de pontos.

E exausto,
nos redemoinhos de poeira da tarde,
ele clama por Deus,
temendo estar atrasado.

Às lágrimas,
ele beija a mão firme de Deus
e pede que ele lhe garanta
a certeza de que haverá uma estrela.

Ele jura
que não será capaz de agüentar
aquela provação sem as estrelas.

Mais tarde,
Ele vagueia preocupado,
mas visivelmente calmo.

E para qualquer um que diga:
‘Agora
está tudo bem.
Você tem não mais medo,
não é?’

Escuta,
Se as estrelas estão acesas,
Significa – que há alguém que as necessita.
Significa que é essencial
que toda noite
pelo menos uma estrela deva ascender
sobre o topo do prédio.

1914



ПОСЛУШАЙТЕ!

Послушайте!
Ведь, если звезды зажигают -
значит - это кому-нибудь нужно?
Значит - кто-то хочет, чтобы они были?
Значит
- кто-то называет эти плевочки
жемчужиной?

И, надрываясь/
в метелях полуденной пыли,
врывается к богу,
боится, что опоздал,

плачет,
целует ему жилистую руку,
просит -
чтоб обязательно была звезда! -
клянется
-
не перенесет эту беззвездную муку!

А после
ходит тревожный,
но спокойный наружно.

Говорит кому-то:
"Ведь теперь тебе ничего?
Не страшно?

Да?!"
Послушайте!
Ведь, если звезды
зажигают -
значит - это кому-нибудь нужно?

Значит - это необходимо,
чтобы каждый вечер
над крышами
загоралась хоть одна звезда?!

1914

Listen!

Listen,
if stars are lit
it means - there is someone who needs it.
It means - someone wants them to be,
that someone deems those specks of pit
magnificent.

And overwrought,
in the swirls of afternoon dust,
he bursts in on God,
afraid he might be already late.

In tears,
he kisses God's sinewy hand
and begs him to guarantee
that there will definitely be a star.

He swears
he won't be able to stand
that starless ordeal.

Later,
He wanders around, worried,
but outwardly calm.

And to everyone else, he says:
'Now,
it's all right.
You are no longer afraid,
are you?'

Listen,
if stars are lit,
it means - there is someone who needs it.
It means it is essential
that every evening
at least one star should ascend
over the crest of the buildings.

1914


sábado, 14 de janeiro de 2006

Ninguém Regula a América

O Rappa & Sepultura

Ninguém regula a América
nobody fucks with America

Satélites de cimavigiando todos os atos de rebeldia
MST observado pela CIA
um avião cara-de-paupreso na China
painel de controlecidades sem culpa
na sensação do protocolo de Kioto
carbonizado em plena chuvade armas exportadas
sangrando no dólaro dólar dos outros
coagulado e globalizadonas veias abertas
de outra dívida externa

Satellites from above
controling all the rebel act
nosy plane cought in China
pushing doors in Colombia
carbonized under the rain
globalized bleeding the dollar
under the Wall Street sky
risking everybody's lives

ninguém regula a América
nobody fucks with America

Forçando a porta da Colombia
com uma hipocrisia que viciao intelecto de Brasília
e outras capitaisestreladas deixando a bandeira
de fardasque segue na arrogância
independente de quem for
O W. Bush de plantão
que engatilha um novo missel sem limites
sobre o céu de Wall Street
arriscando a todos
com o medo de perder
mais uma guerra

ninguém regula a América
nobody fucks with America

A ÁRVORE DE NATAL DE CRISTO

Fiodor Dostoiewski

Como sou um romancista, parece que estou imaginando uma história. Digo parece - e sei perfeitamente que imaginei mesmo; mas tenho certeza de que isso aconteceu, não sei onde nem há quanto tempo; e aconteceu justamente na véspera de Natal, nalguma cidade imensa, num dia de frio assassino.
Era uma vez uma criança num porão, um menino de seis anos, ou menos ainda. O pobrezinho acabava de acordar, tremendo de frio sob os farrapos que o cobriam. Quando respirava, uma baforada branca lhe saía pela boca, e ele, sentado no canto da sala, começou a soprar de propósito, para ver a nuvem se mexer. Isso o distraía, mas preferiria comer. Aproximou-se várias vezes do velho colchão de capim, duro e seco como pão de pobre, onde repousava sua mãe doente, com um saco velho como travesseiro. Como ela viera parar ali? Teria de certo chegado de outra cidade e adoecido. A mulher que lhe alugara o porão havia sido presa há dois dias; os outros inquilinos, saído para festejar o Natal. O único que ficara, um trapeiro, há dois dias curtia a bebedeira com que celebrara de antemão o nascimento de Cristo. No outro canto da sala gemia uma octogenária, antiga pajem de crianças, que morria abandonada; não parava de gemer e se lamentar, praguejando contra o garoto, que não ousava aproximar-se. Ele já tentara acordar a mãe várias vezes e no corredor achara bebida, mas nada para comer. A obscuridade aumentava e ninguém vinha acender o fogo. Apalpou o rosto da mãe e ficou surpreso: estava gelada e rígida como uma estátua. "Está fazendo frio", pensou com a mão apoiada no ombro da mãe inerte e assoprou o bafo sobre os dedos para aquecê-los. Pegou então o boné e, evitando fazer barulho, saiu tateando na escuridão, pensando apenas no enorme cachorro que ouvira latir o dia todo, até chegar à rua.
Senhor, que grande cidade! Nunca vira nada assim. Onde ele morava as ruas eram escuras, iluminadas por poucos lampiões e as casas de madeira, baixinhas, ficavam todas fechadas; apenas a noite caía não se encontrava mais viva alma, todos ficavam calafetados dentro de casa e só os cachorros, centenas deles, ganiam ao relento. Mas podiam aquecer-se, davam-lhe de comer... enquanto aqui... Meu Deus! Não acharia nada para comer? E que algazarra, que agitação, que claridade, quanta gente, quantos cavalos e carros... e o frio, que frio! A neblina congela em filetes nas narinas dos cavalos que galopam, com as ferraduras batendo forte nas pedras das ruas, por sobre a neve. Os passantes esbarram um nos outros, empurram-se e - Deus do céu - como lhe dói o estômago vazio e os dedinhos expostos ao frio! Um guarda passa junto dele e se vira para fingir que não o via.
Ainda uma rua: como é larga! Não há dúvida que vai ser esmagado. Todo mundo corre, grita, vai e vem. E a claridade, coisa linda! E o que é isso? Ah! Uma grande vidraça, e por detrás dela um quarto com uma árvore que alcança o teto: é um pinheiro, uma árvore de Natal cheia de luzes e miniaturas de bonecas e cavalinhos. Ali correm crianças bem vestidas que riem, brincam, comem e bebem. Uma menina dança com um menino. Como ela é bonita! Ouve-se uma música através da vidraça. O pequeno olha tudo com espanto e feliz, mesmo lhe doendo os dedos das mãos e dos pés, vermelhos e rígidos. Então ele começa a chorar, as dores aumentam e ele corre para outra vidraça, na qual vê outra árvore enfeitada e ainda mesas cobertas de bolos de todos os tipos, de amêndoas, amarelos, vermelhos, que ricas senhoras distribuem aos convidados. A cada instante a porta se abre para receber homens bem vestidos. Ele caminha para a porta e entra para a sala. Então o expulsam, indignados, aos gritos e gestos agressivos. Uma senhora mete-lhe uma moeda na mão enquanto o empurra para a rua. Que medo! A moeda rola pela escada tilintando pois não conseguira segurá-la, com os dedos imobilizados. Ele se põe a caminhar sem destino, com vontade de chorar e depois corre, soprando o bafo nos dedos. Ao sentir-se tão só e abandonado, deprimido, chora. Mas logo se distrai: Senhor, que será? Quanta gente curiosa, parada, olhando atentamente! Através da vidraça, três bonecos em tamanho natural, vestidos de vermelho e verde, parecem vivos. Sentado, um velho toca violino e os outros dois, de pé, tocam violinos menores, todos meneiam as cabeças em cadência, olham entre si, mexem os lábios e devem falar de verdade, só não se ouve por causa do vidro. O menino pensou até que eram pessoas vivas e se pôs a rir quando percebeu que eram bonecos. Nunca vira bonecos assim, nem de ouvir falar. Eram tão engraçados que calaram o seu pranto.
Mas de repente, alguém o puxou por trás. Era um menino grande e ruim que lhe deu um soco na cabeça, fazendo cair o seu boné. Ele rolou pelo chão e algumas pessoas começaram a gritar. Apavorado levantou-se e correu sem saber para onde. Entrou num porão, que dava num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Ao menos aqui ele não vai me encontrar, está escuro demais."
Encolheu-se todo, sem poder recobrar o fôlego, tanto medo tinha. Subitamente, porque tudo passou num instante, invadiu-o um grande bem estar, as mãos e os pés pararam de doer, e sentiu calor, muito calor, como se estivesse junto de um fogão. Ajeitou-se e logo dormiu. Como era bom dormir ali. "Daqui a pouco vou ver de novo os bonecos", pensou, sorrindo só de lembrar; "poderia jurar que estavam vivos!" Subitamente pareceu-lhe ouvir sua mãe cantar uma antiga canção. "Mamãe, vou dormir. Ah! Como é bom dormir aqui!"
- Vem comigo, vamos ver a Árvore de Natal, meu filho - murmurou uma voz de rara doçura.
Julgou que fosse sua mãe, mas não é ela. Quem então o chamava? Não vê ninguém, mas alguém se abaixou sobre ele, abraçou-o no escuro. Ele estendeu os braços e... de repente - ah! Como tudo ficou resplandescente! Que maravilhosas árvores de Natal! Mas não é um pinheiro, nunca viu árvore assim. Onde estava? Tudo brilha, tudo reluz, e em toda parte vê bonecas - não, não são bonecas, são meninos e meninas, apenas são luminosas. Envolvem-no, fazem roda em torno dele, beijam-no de passagem, seguram-no, levam-no voando; também ele voa e vê sua mãe e lhe sorri:
- Mamãe! Mamãe! Ah! Como está bom aqui!
Abraça os novos companheiros; queria tanto contar-lhes a história dos bonecos detrás da vidraça... Pergunta-lhes quem são, onde estão, rindo e atirando beijos.
- Não sabes? Esta é a Árvore de Natal do Cristo - responderam-lhe. - Todos os anos, neste dia, há uma árvore assim, que Jesus dá às crianças que não tiveram árvores de Natal na terra...
E soube que todas aquelas crianças haviam sido iguais a ele, mas uns morreram gelados nos cestos em que abandonaram nas portas dos palácios de Petersburgo, outros morreram nos asilos das províncias, ou no próprio seio das mães, durante a fome de Samara, ou asfixiados pelo ar contaminado dos cortiços. Mas agora vivem todos como anjos, com o Cristo, e ele os abençoa, num gesto de ternura que se estende às suas pobres mães... Ei-las todas, ao longe, chorando, olhando para os filhos que passam esvoaçando junto delas, beijam-nas de leve, enxugam-lhes as lágrimas pedindo-lhes que não chorem, pois se acham tão bem...
E lá embaixo, na manhã seguinte, os porteiros descobriram o cadáver de um menino gelado perto de um monte de lenha. Procuraram sua mãe... ela morrera um pouco antes dele. Talvez os dois se tenham encontrado no céu...
Por que terei eu imaginado uma história tão pouco razoável, tão pouco nos moldes de escritor sério! E dizer que eu me propunha a contar fatos reais! Mas a questão é justamente essa, sempre me pareceu que tudo isso poderia acontecer, isto é, a parte do porão e do monte de lenha. Quanto à árvore de Natal de Cristo, não poderei afirmar que exista.
Mas, como sou romancista, posso bem imaginar que sim.

DOSTOIEVSKI, Fiodor Mikhailovitch. A árvore de natal de cristo In Maravilhas do conto russo. pp. 89-94, São Paulo Cultrix, 1957

sábado, 31 de dezembro de 2005

Feliz Ano Novo

Arnaldo Jabor

O ano de ver
através do vidro o eclipse do sol contra a neblina
pela janela da infância,
o ano de ver as primeiras imagens de
minha mãe,
que era uma Greta Garbo linda
com ombros altos e cabelo de coque "bomba atômica"
e lábios vermelhos, o ano
da coqueluche em que meu pai me levou de avião até 4.000 metros
para curar a tosse entre nuvens,

o ano de temer o quarto onde
meus pais conceberiam
minha irmã, o ano de olhar árvores, bichos
e gente como se eu morasse
fora do mundo (mistério que até hoje dura),
o ano do medo de levar porrada nas ruas da infância, o ano
das pernas das mulheres, colunas altas e distantes
(até hoje),
o ano dos fantasmas do fundo do corredor,
o ano do cachorro
atropelado, o ano dos meninos se comendo de solidão,
o ano de ficar olhando o vento no quintal,
o ano dos formigueiros,
o ano do sarampo e sua lâmpada vermelha,
o ano da catapora, o ano da luz azul do quarto da pneumonia de minha irmã,
o ano da cabeça quebrada, o ano da cara quebrada,
o ano de entender o porquê
dos miseráveis do morro da Mangueira
perto de minha casa,

o ano de ver o primeiro filme de minha vida, o "Ladrão de Bagdá",
e ficar sonhando com as coxas da odalisca no tapete voador,
o ano dos balões no céu, o ano do Mercury "grená" de meu pai
brilhando na luz da rua,
o ano do cuspe, o ano da porrada na esquina,
o ano dos palavrões, o ano da "merda" e da "puta que pariu",
o ano da inveja, o ano da bicicleta, o ano da primeira
namorada que me tratava
como nada,
o ano de temer a Deus e de contar
meus crimes aos padres negros de quem eu beijava a mão,
o ano em que um padre me deu um beijo na boca e eu fugi
com pânico na alma,
o ano do Porcolino, do Pernalonga, o ano do Hortelino Trocaletra,
das mil e uma noites, o ano da mula-sem-cabeça e do mendigo
que dava mijo para a mãe, o ano
da camisa-de-vênus boiando na beira da praia, o ano do negro
comendo a empregada no quarto de passar roupa, o ano da
febre, o ano da violência dos colegas de colégio, o ano dos
padres jesuítas sofrendo de solidão nas clausuras e o ano
das lâmpadas tristes das noites do colégio,

o ano das velas de cera
na igreja, o ano dos paramentos, o ano do coroinha sem fé, o ano
do covarde,
o ano do perigo de ser currado nos fundos do colégio,
o ano do soco na cara do mais forte e do sangue no nariz do valentão,
o ano
da descoberta do orgulho,
o ano do Tarzan,
o ano do Super-Homem, o ano da porra,
o ano da punheta de esguicho que ia até o teto de ladrilho
por causa da primeira mulher de biquíni na praia,
o ano da punheta pela empregada de peitos grandes e que deixava
quase tudo,
o ano da dor nos rins, o ano
de entrar no porão com a menina,
o ano de sentir o gosto de cuspe da menina,
o ano de sentir o cheiro
do entrepernas da menina e ficar
com aquele cheiro até hoje,
o ano da primeira
mulher e, antes da primeira mulher,
o ano da descoberta da literatura
e de Rimbaud e o ano
de ficar escrevendo o dia inteiro
numa febre
de descobrir qualquer coisa que ainda acho que vou achar,

o ano agora sim, da primeira mulher,
uma aeromoça louca da Panair que parecia uma odalisca
caída do céu,
o ano do meu corpo e do corpo da mulher,
o ano das lágrimas quentes, o ano
da solidão,
o ano das pernas cruzadas dos primeiros puteiros
visitados,
o ano do Mangue, da indescritível visão do Mangue que só Segall conheceu,
com as mil mulheres tremendo a língua para fora e
de calça e sutiã nas calçadas, o ano dos bordéis antigos da luz mortiça,
o ano das coxas, dos peitos, o ano cabeludo,
o ano oleoso, o ano das peles, o ano dos vasos de louça,
o ano de nada entender,
o ano da gonorréia, o ano de Thereza e de comer o primeiro amor e de flutuar
de paixão a um palmo das calçadas de Copacabana,

o ano da lua dourada, do sol vermelho, o ano de Ipanema,
de Leila Diniz,
o ano dos gritos
da mulher amada no colchão sujo e esfiapado que era um aparelho do Partido
Comunista numa noite de chuva,
o ano do amor e da revolução,
as duas coisas se confundindo
("serão as bombas ou meu coração batendo?" diria o Bogart em "Casablanca"),
o ano da UNE
pegando fogo,
o ano dos exilados, o ano de Corisco, o ano de Tom e Vinicius,

o ano do "Carcará", o ano do cinema
novo da noite negra do Ato 5, o ano que não terminou,
o ano da boca fechada, o ano da boca no cano de descarga, o ano do nervo
do dente exposto na boca do torturado, o ano das unhas
arrancadas,
o ano dos gritos,
o ano dos guerrilheiros
suicidas, o ano de cortar
a barriga com a faca de bambu, o ano de cortar
os pulsos com gilete
enferrujada,
o ano das cabeças
muito loucas, o ano de viver
perigosamente,

o ano da mescalina e do ácido, o ano das pernas e
dos braços virando cobras na "bad trip" da beira da praia, o ano
das ondas vermelhas e céus tangerina,
o ano de Copacabana
virando gelatina colorida,
o ano de Janis Joplin de porre comigo
num puteiro baiano cantando ponto de candomblé,
o ano da esperança nova, o ano de Nelson Rodrigues,
de Darlene Glória,
o ano das filhas nascendo dentro de um buraco estrelado,
o ano da esperança de sentido,
o ano da inocência,
o ano da ingenuidade, o
ano do leite,
o ano do ventre molhado, o ano dos quartos escuros,
o ano da vida, o ano do sol, o ano do jambo vermelho,
o ano das formigas, o ano das bonecas,
o ano do olho furado, o ano de ficar
louco,

o ano do corno, o ano do babaca, o ano de comer mulher,
o ano de chorar, o ano de aprender a viver de novo,
o ano do "vamos ver", o ano do "que será o amanhã?",
o ano do cachorro, o ano da vaca louca, o ano da cachorra no ar,
o ano da beira do
abismo,

o ano da volta à democracia, o ano do não, o ano do sim,
o ano de Collor, o ano do Itamar, o ano da hiperinflação,
o ano da inflação zero,
o ano dos Mamonas,
o ano dos caruarus, o ano dos carajás,
o ano dos genovevas, o ano dos cachorros quentes explodindo,
o ano dos desacontecimentos, o ano dos cabelos brancos,
o ano do último vôo livre de minha mãe.
1996,

o ano da expectativa,
o ano dos adiamentos, o ano da
esperança,
o ano
que ainda não começou e acaba hoje.
1996,
o ano
que vai começar em 97, feliz ano novo...

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Feliz Ano Novo!

A vocação para escritor

Jean-Paul Sartre

O Espírito Santo me contemplava. Acabara justamente de adotar a decisão de remontar ao Céu e abandonar os homens; eu dispunha apenas do tempo necessário para me oferecer; mostrava-lhes as chagas de minha alma, as lágrimas que embebiam meu papel, ele lia por cima de meu ombro, e sua cólera passava. Fora aplacado pela profundidade dos sofrimentos ou pela magnificência da obra? Eu me dizia: pela obra; às escondidas, pensava: pelos sofrimentos. É claro que o Espírito Santo só apreciava os escritos verdadeiramente artísticos, mas eu lera Musset, sabia que “os cânticos mais desesperados são os mais belos” e resolvera captar a Beleza com um desespero ardiloso. A palavra gênio sempre se me afigurava suspeita: estive a ponto de sentir por ela total aversão. Onde estaria a angústia, onde a provação, onde a tentação abortada, onde o mérito, enfim, se eu possuía o dom? Eu mal suportava o fato de ter um corpo e todos os dias a mesma cabeça, não ia deixar que me encerrassem num equipamento. Eu aceitava minha designação, desde que ela não se apoiasse me nada, que brilhasse, gratuita no vazio absoluto. Eu mantinha cociliábulos com o Espírito Santo: “Hás de escrever”, dizia-me. Eu torcia as mãos: “Que tenho eu, Senhor, para que me escolhêsseis?” “Nada de particular.” “Então, porque eu?” “Não há razão.” “Tenho pelo menos algumas facilidades de pena?” “Nenhuma. Crês que as grandes obras nascem das penas fáceis?” “Senhor, uma vez que sou tão nulo, como poderia produzir um livro” “Aplicando-te.” “Então, todo mundo pode escrever?” “Todo mundo pode, mas foi a ti que escolhi.” Esse truque era bastante cômodo: permitia-me proclamar minha insignificância e simultaneamente venerar em mim o autor de futuras obras primas. Eu era eleito, marcado, mas sem talento: tudo viria da minha longa paciência e de minhas desventuras; eu me negava a toda e qualquer singularidade: os traços de caráter afogam: eu não era fiel a nada, exceto ao compromisso real que me conduzia à glória por meio dos suplícios.

Trecho extraído de: SARTRE, Jean-Paul. As palavras, pp. 124-125, Rio de Janeiro, Nova fronteira, 2005.

sábado, 24 de dezembro de 2005

Poema de Natal

Camaradas,

Eu gostaria de desejar um Feliz Natal a todos vocês que me aturaram ao longo do ano. Recebam meus mais sinceros desejos de FELICIDADE e PAZ.

Feliz Natal e abraços a todos!

Marcos Lima

P.S.: Só para não perder o costume, segue um poeminha do Vinícius de Moraes...

Natal

Vinicius de Moraes
A grande ocorrência
Que nos conta o sino
É que, na indigência
Nasceu um menino.
Mil e novecentos
E cinqüenta e três
Anos são peremptos
Dessa meninez.
Muito tempo faz...
Mas ninguém olvida
Que é um dia de paz...
Porque fez-se a vida!

12.1953

MORAES, Vinícius de. In Para viver um grande amor (crônicas e poemas)

sábado, 17 de dezembro de 2005

Legião Urbana - Eduardo e Mônica, Uma Análise Psico-Neurótica

A música Eduardo e Monica da banda Legião Urbana esconderia uma implicância com o sexo masculino?

Adolar Gangorra*

O falecido Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista. Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como artista engajado que era, defendia veementemente seus pontos de vista nas letras que criava. E por isso mesmo, talvez algumas delas excedam a lógica e o bom senso. Como no caso da música Eduardo e Mônica, do álbum "Dois" da Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como alienada e inconsciente, enquanto a feminina (Mônica) é a portadora de uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos. analisemos o que diz a letra.

Logo na segunda estrofe, o autor insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente (Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram) ao mesmo tempo que tenta dar uma imagem forte e charmosa à Mônica (enquanto Mônica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram). Ora, se esta cena tiver se passado de manhã como é provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já Mônica revelaria-se uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes do almoço é só para quem conhece muito bem o ofício.

Mais à frente, vemos Russo desenhar injustamente a personalidade de Eduardo de maneira frágil e imatura (Festa estranha, com gente esquisita). Bom, "Festa estranha" significa uma reunião de porra-loucas atrás de qualquer bagulho para poderem fugir da realidade com a desculpa esfarrapada de que são contra o sistema. "Gente esquisita" é, basicamente, um bando de sujeitos que têm o hábito gozado de dar a bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas mais horrorosas da via-láctea. Enfim, esta era a tal "festa legal" em que Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara pra agüentar aquele pesadelo, como veremos a seguir.
Assim temos (- Eu não estou legal. Não agüento mais birita). Percebe-se que o jovem Eduardo não está familiarizado com a rotina traiçoeira do álcool. É um garoto puro e inocente, com a mente e o corpo sadios. Bem ao contrário de Mônica, uma notória bêbada sem-vergonha do underground.

Adiante, ficamos conhecendo o momento em que os dois protagonistas se encontraram (E a Mônica riu e quis saber um pouco mais Sobre o boyzinho que tentava impressionar). Vamos por partes: em "E a Mônica riu" nota-se uma atitude de pseudo-superioridade desumana de Mônica para com Eduardo. Ela ri de um bêbado inexperiente! Mais à frente, é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar. Onde lê-se "quis saber um pouco mais" leia-se" quis dar para"! É muita hipocrisia tentar passar uma imagem sofisticada da tal Mônica.

A verdade é que ela se sentiu bastante atraída pelo "boyzinho" que tentava impressionar"! É o máximo do preconceito leviano se referir ao singelo Eduardo como "boyzinho". Não é verdade. Caso fosse realmente um playboy, ele não teria ido se encontrar com Mônica de bicicleta, como consta na quarta estrofe (Se encontraram então no parque da cidade A Mônica de moto e o Eduardo de camelo). Se alguém aí age como boy, esta seria Mônica, que vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta. Como é sabido, aos 16 (Ela era de Leão e ele tinha dezesseis) todo boyzinho já costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma maria-gasolina como Mônica.

E tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria penetrado com sua galera na tal festa, quebraria tudo e ia encher de porrada o esquisitão mais fraquinho de todos na frente de todo mundo, valeu?

Na ocasião do seu primeiro encontro, vemos Mônica impor suas preferências, uma constante durante toda a letra, em oposição a uma humilde proposta do afável Eduardo (O Eduardo sugeriu uma lanchonete Mas a Mônica queria ver filme do Godard). Atitude esta, nada democrática para quem se julga uma liberal.
Na verdade, Mônica é o que se convencionou chamar de P.I.M.B.A (Pseudo Intelectual Metido à Besta e Associados, ou seja, intelectuerdas, alternativos, cabeças e viadinhos vestidos de preto em geral), que acham que todo filme americano é ruim e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência francês, preto e branco, arrastado para caralho e com bastante cenas de baitolagem.

Em seguida Russo utiliza o eufemismo "menina" para se referir suavemente à Mônica (O Eduardo achou estranho e melhor não comentar. Mas a menina tinha tinta no cabelo). Menina? Pudim de cachaça seria mais adequado. Ainda há pouco vimos Mônica virar um Dreher na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama de menina? Além disto, se Mônica pinta o cabelo é porque é uma balzaca querendo fisgar um garotão viril. Ou então porque é uma baranga escrota.

O autor insiste em retratar Mônica como uma gênia sem par. (Ela fazia Medicina e falava alemão) e Eduardo como um idiota retardado (E ele ainda nas aulinhas de inglês). Note a comparação de intelecto entre o casal: ela domina o idioma germânico, sabidamente de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente concorrido para Medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para poder balbuciar "iéis", "nou" e "mai neime is Eduardo"! Incomoda como são usadas as palavras "ainda" e "aulinhas", para refletir idéias de atraso intelectual e coisa sem valor, respectivamente.

Na seqüência, ficamos a par das opções culturais dos dois (Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, De Van Gogh e dos Mutantes, De Caetano e de Rimbaud). Temos nesta lista um desfile de ícones dos P.I.M.B.A., muito usados por quem acha que pertence a uma falsa elite cultural. Por exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade com o poeta Manuel de Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou-se a expressão "do Bandeira". Francamente, "Bandeira" é aquele juiz que fica apitando impedimento na lateral do campo. O sujeito mais normal dessa moçada aí cortou a orelha por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-louca de primeira. Tem um outro peroba aí que tem coragem de rimar "Êta" com "Tiêta" e neguinho ainda diz que ele é gênio!

Mais uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo (E o Eduardo gostava de novela) e crianção (E jogava futebol de botão com seu avô). A bem da verdade, Eduardo é um exemplo. Que adolescente de hoje costuma dar atenção a um idoso? Ele poderia estar jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando espiar a empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a companhia do avô em um prosaico jogo de botões! É de tocar o coração. E como esse gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para passar a imagem de Eduardo como um paspalho energúmeno. É óbvio, para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher sim, é maturidade pura.

Continuando, temos (Ela falava coisas sobre o Planalto Central, Também magia e meditação). Falava merda, isso sim! Nesses assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores picaretas do mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer absurdo que ninguém vai contestar. Por que? Porque não se pode provar absolutamente nada. Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E quem foi cair nessa conversa mole jogada por Mônica? Eduardo é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda temos mais um achincalhe ao garoto (E o Eduardo ainda estava no esquema escola - cinema - clube - televisão). O que o Sr. Russo queria? Que o esquema fosse "bar da esquina - terreiro de macumba - sauna gay - delegacia"?? E qual é o problema de se ir a escola?!?

Em seguida, já se nota que Eduardo está dominado pela cultura imposta por Mônica (Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar). Por ordem:
1) Teatro e artesanato não costumam pagar muito imposto.
2) Teatro e artesanato não são lá as coisas mais úteis do mundo.
3) Quer saber? Teatro e artesanato é coisa de viado!!!

Agora temos os versos mais cretinos de toda a letra (A Mônica explicava pro Eduardo Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar). Mais uma vez, aquela lengalenga esotérica que não leva a lugar algum. Vejamos: Mônica trabalha na previsão do tempo? Não. Mônica é geóloga? Não. Mônica é professora de química? Não. A porra da Mônica é alguma aviadora? Também não. Então que diabos uma motoqueira transviada pode ensinar sobre céu, terra, água e ar que uma muriçoca não saiba?

Novamente, Eduardo é retratado como um debilóide pueril capaz de comprar alegremente a Torre Eiffel após ser convencido deste grande negócio pelo caô mais furado do mundo. Santa inocência... Ainda em (Ele aprendeu a beber), não precisa ser muito esperto pra sacar com quem... é claro, com a campeã do alambique! Eduardo poderia ter aprendido coisas mais úteis, como o código morse ou as capitais da Europa, mas não. Acharam melhor ensinar para o rapaz como encher a cara de pinga. Muito bem, Mônica! Grande contribuição!

Depois, temos (deixou o cabelo crescer). Pobre Eduardo. Àquela altura, estava crente que deixar crescer o cabelo o diferenciaria dos outros na sociedade. Isso sim é que é ativismo pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Mônica na cabeça do iludido Eduardo.

Sempre à frente em tudo, Mônica se forma quando Eduardo, o eterno micróbio, consegue entrar na universidade (E ela se formou no mesmo mês em que ele passou no vestibular). Por esse ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Mônica deverá estar ganhando o seu oitavo prêmio Nobel.

Outra prova da parcialidade do autor está em (porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Mônica, que ficou de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma porta. O que realmente impressiona nesta letra é a presença constante de um sexismo estereotipado. O homem é retratado como sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida medíocre e previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de uma cultura alternativa redentora. Nesta visão está incutida a idéia absurda que o feminino é superior e o masculino, inferior.

É sabido que em todas culturas e povos existentes o homem sempre oprimiu a mulher. Porém, isso não significa, em hipótese alguma, que estas sejam melhores que os homens. São apenas diferentes. Se desde o começo dos tempos o sexo feminino fosse o dominador e o masculino o subjugado, os mesmos erros teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra. Por que? Ora, porque tanto homens quanto mulheres e colunistas sociais fazem parte da famigerada raça humana. E é aí que sempre morou o perigo. Não importa que seja Eduardo, Mônica ou até... Renato!

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*Adolar Gangorra tem 71 anos, é editor do periódico humorístico Os Reis da Gambiarra e não perde um show sequer dos "The Fevers".

A falta de Érico Veríssimo

Carlos Drummond de Andrade

Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.
Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda - como tarda!
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.

domingo, 11 de dezembro de 2005

Fala do velho do restelo ao astronauta

José Saramago

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

Loucos e Santos

Oscar Wilde

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Parto sem complicações

O marido e a mulher foram ao hospital para ter um bebê. Chegando lá, o médico disse que tinha inventado uma máquina que dividia as dores do parto com o pai da criança. Perguntando se eles queriam experimentar o novo invento, de pronto obteve aceitação do casal.
O médico regulou a máquina para transferir somente 10% da dor para o pai, dizendo que seria o bastante, pois sendo um homem ele não conseguirira suportar mais do que isso. A mulher começou o trabalho de parto e o marido estava se sentindo muito bem. Resolveram aumentar a taxa de dor para 20%, e o marido continuava bem. O médico, intrigado, mediu a pressão, conferiu o coração e tudo estava normal. Assim, resolveu ir aos 50%.
Depois de um tempo, o bebê estava quase nascendo e, como o marido continuava bem, resolveram transferir a dor do parto 100% para o marido e proporcionar a mulher um parto sem dor. Dessa forma, a mulher teve o bebê super tranqüila.
Ela e o marido estavam muito felizes.
Ao chegarem em casa, encontraram o vizinho morto na varanda!

História explicativa

Daniel Quinn

"Podes passar o resto do dia tentando descobrir qual a história que as pessoas da tua cultura têm vindo a encenar no mundo nos últimos dez mil anos. Lembras-te do que versa ela?"

"Do que versa a história?"

"Ela versa o sentido do mundo, as intenções divinas no mundo e o destino humano".

"Bem, posso contar-te histórias sobre essas coisas, mas não conheço uma história única".

"É a única história que todos na tua cultura conhecem e aceitam".

"Não creio que isso ajude muito".

"Talvez ajude se eu te disser que se trata de uma história explicativa, do gênero 'Como o elefante obteve a sua tromba' ou 'Como o leopardo obteve as suas manchas'".

"Está bem".

"E, imaginas tu, esta vossa história explica o quê?"

"Santo Deus, não faço a menor idéia".

"Isso já deveria ser claro a partir do que eu te disse. Ela explica como o mundo veio a ser o que é. Desde o início até hoje".

"Entendo," disse eu, e olhei pela janela durante alguns instantes. "O fato é que não tenho consciência de conhecer uma história que tal. Como eu disse, conheço histórias, mas nada que se pareça com uma história única".

Ismael refletiu um pouco. "Uma aluna minha, dentre os discípulos que mencionei ontem, sentiu-se na obrigação de me explicar o que procurava ela. Perguntou-me: 'Ninguém fica alarmado por quê? Ouço as pessoas falarem sobre o fim do mundo na lavanderia, e não parecem mais alarmadas do que se estivessem a comparar detergentes. Falam da destruição da camada de ozônio e da destruição total da vida. Falam da devastação das florestas tropicais, da poluição mortal que permanecerá conosco durante milhares e milhões de anos, da extinção diária de dezenas de espécies; do fim do próprio processo de desenvolvimento das espécies. E parecem de uma calma olímpica'.

"Eu disse-lhe: 'É isso então que desejas saber — por que razão as pessoas não ficam alarmadas com a destruição do mundo?' Ela pensou um pouco e respondeu: 'Não, eu sei por que razão não se alarmam elas. Não se alarmam por acreditarem no que lhes contaram'".

"Como assim?" perguntei.

"O que é que contaram às pessoas que as impede de se alarmarem, que as mantêm relativamente calmas enquanto assistem aos danos catastróficos que estão a infligir ao planeta?"

"Não sei".

"Contaram-lhes uma história explicativa. Deram-lhes uma explicação de como o mundo veio a ser o que é, e isto silencia o seu alarme. Esta explicação é totalmente abrangente, incluindo a deterioração da camada de ozônio, a poluição dos oceanos, a destruição das florestas tropicais e até a extinção humana — e isso as satisfaz. Ou talvez seja mais correto dizer que as pacifica. Participam da engrenagem durante o dia, narcotizam-se com drogas ou com televisão à noite e tentam não pensar muito seriamente sobre o mundo que estão a deixar para os seus filhos enfrentarem".

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Texto extraído do livro Ishmael, de Daniel Quinn.

À espera dos bárbaros

Constantino Kaváfis (1863-1933)  O que esperamos na ágora reunidos?  É que os bárbaros chegam hoje.  Por que tanta apatia no senado?  Os s...