sexta-feira, 22 de julho de 2005

Código dos Homens Honestos

ou
A arte de não se deixar enganar por larápios
Honoré de Balzac

Roubos em lojas, apartamentos, cafés, restaurantes, roubos domésticos etc.

São roubos horríveis porque se apóiam na confiança. É difícil precaver-se contra eles, como se percebe pela raridade de nossos aforismos. Só podemos aludir aos exemplos mais famosos.

Art. 1º: As pessoas honradas, forçadas pelo destino a contratar cozinheiras, devem, para sua segurança, tentar contratar pessoas de bons costumes.

A maior parte dos roubos domésticos é fruto do amor.
O amante da cozinheira pode levá-la a fazer muitas coisas.
Você conhece a cozinheira; você não conhece o amante.
Você não tem o direito de proibir que sua cozinheira tenha um amante, pois:
1º: Os amantes são independentes das cozinheiras;
2º: Ao querer se casar, sua cozinheira está fazendo uso do pleno direito natural;
3º: Se ela tem um amante, é por uma boa razão.
Assim, amantes e cozinheiras são males necessários e inseparáveis.

Art. 2º: Examine com atenção as casas lotéricas de seu bairro, e procure saber se seus empregados jogam, se jogam apenas o que ganham etc.

Art. 3º: Nem sempre seus cavalos comerão muita aveia, mas sempre beberão muita água.
É difícil inspecionar as cocheiras.

Art. 4º: Quando seu apartamento estiver para alugar, muita gente virá vê-lo; não deixe nada fora das gavetas.

Art. 5º: Pretender impedir que um mordomo, uma cozinheira etc. roubem da despensa é uma rematada loucura.
Você será mais ou menos roubado, nada mais do que isto.

Art. 6º: A camareira usará os vestidos da patroa, o lacaio experimentará os ternos do patrão, usará suas camisas.
Se aquela viagem é um pretexto para se livrar dos importunos, por outro lado lhe trará vários problemas.
Assim que você partir, seu criado usará sua roupa, o copeiro irá à adega, o lacaio passeará no seu tílburi com a camareira, que ostensivamente cobrirá os ombros com um xale de caxemira. Enfim, será uma pequena orgia.

Art. 7º: Meio termo, jamais: tenha total confiança em seus criados, ou nenhuma.

Art. 8º: Uma cozinheira que tenha apenas um amante tem bons costumes; mas é necessário saber que amante é esse, seus meios de sobrevivência, seus gostos, suas paixões etc.
Essa pequena polícia doméstica pode evitar um assassinato.

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Fonte: BALZAC, Honoré de. Código dos homens honestos. São Paulo, Ed.Abril, 2004.

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