"Arriscar-se é perder o equilíbrio por uns tempos, mas não se arriscar é perder-se a si mesmo para sempre." - Søren Aabye Kierkegaard
sábado, 22 de setembro de 2007
Il più bello dei mari
Il più bello dei mari
è quello che non navigammo.
Il più bello dei nostri figli
non è ancora cresciuto.
I più belli dei nostri giorni
non li abbiamo ancora vissuti.
E quello
che vorrei dirti di più bello
non te l'ho ancora detto.
O mais belo dos mares
O mais belo dos mares
é aquele que não navegamos.
O mais belo dos nossos filhos
ainda não cresceu.
Os mais belos dos nossos dias
ainda não vivemos.
E aquilo
que queria dizer-te de mais belo
ainda não te disse.
sábado, 15 de setembro de 2007
Paciência
Habe Geduld
gegen alles Ungelöste in deinem Herzen
und versuche,
die Fragen selbst lieb zu haben,
wie verschlossene Stuben oder ein neues Buch,
das in fremder Sprache geschrieben ist.
Forsche nicht nach Antworten,
die dir nicht gegeben sind,
weil du sie nicht leben kannst.
Und darum handelt es sich doch:
alles zu leben.
Lebe jetzt die Fragen!
Vielleicht lebst du dann eines neuen Tages,
ohne es zu merken,
in die Antwort hinein.
Tem paciência
com tudo não resolvido em teu coração
e tenta
amar as perguntas em ti
como se fossem quartos trancados ou
um livro novo escrito numa língua estrangeira.
Não busque as respostas
que não te podem ser dadas
porque com elas tu não poderás viver.
E por isso, trata-te de viver tudo.
Vive as perguntas agora!
Talvez te seja dado,
sem que percebas,
de viver até um longínquo dia
em que terás a resposta em ti.
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Liebes-Lied
Wie soll ich meine Seele halten, daß
sie nicht an deine rührt? Wie soll ich sie
hinheben über dich zu andern Dingen?
Ach gerne möcht ich sie bei irgendwas
Verlorenem im Dunkel unterbringen
an einer fremden stillen Stelle, die
nicht weiterschwingt, wenn deine Tiefen schwingen.
Doch alles, was uns anrührt, dich und mich,
nimmt uns zusammen wie ein Bogenstrich,
der aus zwei Saiten eine Stimme zieht.
Auf welches Instrument sind wir gespannt?
Und welcher Geiger hat uns in der Hand?
O süßes Lied.
Canção de amor
Como posso conter minha alma,
para que ela não toque a tua?
Como posso elevá-la sobre ti
acima de todas as outras coisas?
Ah, eu gostaria tanto de te repousar
entre objetos há muito perdidos na escuridão,
abrigada num lugar desconhecido,
onde permanecesses imóvel
enquanto tuas entranhas vibrassem.
Mas tudo o que nos toca,
a ti e a mim,
nos une como um golpe de um arco,
que de duas cordas de um violino tira uma só voz.
A que instrumento estamos presos?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.
sábado, 7 de julho de 2007
Vida?
homem, cama, parede
homem, cama, relógio
roupa, carro, sucede
homem, engarrafamento, gente
atraso, prova, estresse
almoço, relógio, gente
trabalho, gente e estresse.
homem, mulher, bar, bebida
homem, mulher, olho, mão
boca, lingua, carro e casa
sala, quarto, roupa
então
homem, mulher, amor, promessa
homem, mulher, carta, flor
sal, tempo, sim, igreja
toalha, escova, parto, dor
homem, mulher, filhos, trabalho
homem, mulher, tempo, não
final de semana, casa, (sogra)
final de semana, televisão
homem, mulher, outro, outra
homem, mulher, tempo, sal
olho, nariz, batom, perfume
grito, tapa, lágrima, (final)
homem, mulher, tempo, nada
homem, mulher, desilusão
homem, mulher
final de semana
bar
bebida.
sábado, 2 de junho de 2007
Capítulo 6: o boletim da 5º série
Capítulo 5: o boletim da 4º série
BOLETIM ESCOLAR
ESTUDANTE: Lobo
SÉRIE: 4ª
PROFESSOR: E. Tribb


OPORTUNIDADES PROFISSIONAIS: nenhuma, a menos que exista, em algum lugar do universo, um mercado para a imposição de dor, lesão e morte. Lobo tem grande necessidade de auxílio – embora não tanto, eu suspeito, quanto Czarnia.
domingo, 27 de maio de 2007
Capítulo 4: heavy metal como fator no desenvolvimento do psicopata
O primeiro pedido legítimo de Lobo, ao dois anos de idade, foi divulgado um mês depois, em um programa transmitido pela estação pirata Rock Cósmico Zumbi. Wolfman Wilf, um disk jockey perceptivelmente agitado, leu esta mensagem: “Toque ‘Eu matei meus pais (e não foi por acidente)’, do Oedipus Wrecks, até eu ficar de saco cheio ou vou aí arrancar a porra da sua cabeça fora, sua bicha caquética. Felicidades” assinado: Lobo”.
A partir daquela data, Wolfman Wilf não deixou de tocar a música... E, sem dúvida, Lobo não parou de ouvi-la. Imagine o efeito daquela “canção” – com sua letra ilícita e aberrante, sua batida primitiva e instrumentação selvagem –, tocada ininterruptamente durante anos! Alguém pode imaginar os horrores indescritíveis causados por esta música em uma jovem mente que já estava corrompida?
No início da adolescência, Lobo montou sua própria banda: “O Homem e os Vários Vômitos”. A estréia foi no Festival Czarnia 9 Oitavas Chime-haiku. A combinação de microfonias e sobrecargas elétricas resultou na morte dos jurados, dos espectadores de seis fileiras do setor “D” da platéia e do vendedor da barraca de chá de ervas. Os “Vários Vômitos” (felizmente, segundo alguns) foram inesperadamente decapitados no clímax do primeiro refrão.
Correu o boato de que logo após o show Lobo deu entrada num hospital particular, onde ia instalar um microreceptor de rádio ligado diretamente ao lóbulo auditivo de seu cérebro. Não pude obter corroboração definitiva deste fato, pois, naquela mesma noite, a clínica foi incendiada pouco depois e os funcionários foram encontrados degolados.
Pos isso, podemos concluir seguramente que, desde então, Lobo foi constantemente exposto ao ritmo pulsante, aos gritos agudos e à vulgaridade grosseira características do gênero.
Atualmente, alguns dizem que Lobo começou uma vida nova, tornando-se membro remunerado da L.E.G.I.A.O., a força policial interplanetária de Vril Dox II. Para esses pobres todos iludidos, eu respondo: bobagem! Lobo já está muito pervertido para poder voltar atrás!
A verdade sobre essa questão é a seguinte: Vril Dox enfrentou Lobo numa “batalha épica” e, embora tivesse seus poderes temporariamente ampliados a níveis máximos, no curso lógico dos eventos o czarniano ainda seria capaz de derrotá-lo com relativa facilidade.
O modo com Dox venceu tem sido motivo de perplexidade para muitos. Agora, eu posso revelar como tudo aconteceu: logo no começo da luta, a estação de rádio Rock Cósmico Zumbi saiu do ar! As transmissões foram interrompidas devido a uma falha nos geradores, causada por um imenso meteoro. Aquela música insana que por tanto tempo alimentou a selvageria obstinada de Lobo silenciou! A Rock Cósmico Zumbi ficou fora do ar por duas horas. Sem aquele barulho incessante – um primitivo estímulo cacofônico à loucura, demonismo e matança gratuita –, Lobo perdeu sua vantagem. E a luta.
Forçado em nome da honra a obedecer ao vitorioso, Lobo não teve outra escolha senão ingressar na L.E.G.I.A.O., onde suas arbitrariedades são cometidas contra os criminosos (sem dúvida, antigos “companheiros”).
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Capítulo 3: uma entrevista com a morte
Assunto: Lobo
Médico examinador: o falecido Dr. J.A. Gnuoy
Cópias: Vril Dox, Lyrissa Mallor
LOBO: ...quem sentou aqui por último? Essa porra tá mais quente que bunda de prostituta delbiana...
DOUTOR: Bem-vindo, Lobo. Este é apenas um procedimento padrão para os arquivos da L.E.G.I.A.O., eu só vou fazer algumas perguntas, ok? Então vamos começar... O que exatamente você não gosta nos outros seres?
LOBO: Tenta advinhar! Ce ta quase lá!
DOUTOR: Insistindo no assunto, pode me dizer por que quando as pessoas o irritam ou, algumas vezes, nem fazem nada, você as mata?
LOBO: E qualé o problema nisso? Eu não mato só por matar! Sem contrato, sem morte... Sacou? Eu sou matador profissional, assassino da realeza e flagelo da galáxia. Minhas habilidades especiais exigem grana alta. Sem pagamento, sem serviço. Mas quando mato alguém eu não sou pago, geralmente acabo com os caras que me deram calote. Isso eu faço de graça. Encare como um tipo de... serviço público.
DOUTOR: Entendo... Mas o que isso tem a ver com seus amigos?
LOBO: Que “amigos”? Essa pergunta é uma pegadinha?
DOUTOR: Hã... Vamos continuar. Você já encontrou um objetivo na vida?
LOBO: Cê ficou louco? Meu negócio é MATAR e ALEIJAR. Que merda!! Eu suei muito para ser o melhor... O Primo Hombre dessa porra de universo! Ninguém faz melhor que eu! NINGUÉM!!!
DOUTOR: Muito bem. Agora me explique uma coisa: como essa imagem machista de “matar todo mundo e mutilar os sobreviventes” se encaixa com os golfinhos espaciais que estão sob sua proteção? Foi comprovado que você é tão gentil e amoroso com eles quanto é selvagem e cruel com qualquer outro ser.
LOBO: Que conversa fiada é essa chefia? Sai fora! Tá querendo me difamar?É ISSO?!
DOUTOR: N-NÃO! Pelo amor de Deus! Eu só estava querendo saber de que forma você convive com estes dois comportamentos tão distintos entre si...
LOBO: Não convivo. Meus “peixes” são gentis e graciosos, a forma de vida mais pura que eu já encontrei até hoje. Os coitadinhos precisam de mim pra tomar conta deles...
DOUTOR: Entendo... E tenho certeza de que você precisa de alguém como eles. Sim... é isso mesmo. A imagem começa a se forma agora... voltando de moto para o lar em algum ponto remoto do Mar dos Sargaços Espaciais cansado e mal-humorado depois de um dia duro de matança, seu amigos lisinhos brincando e dando cambalhotas a sua volta, esperando seu dono para irem passear...
LOBO: ... (som tamborilando os dedos sobre a mesa, impacientemente.)
DOUTOR: Hã... continuando... Você tem a fama bem difundida de ser o czarniano que matou toda a sua raça para ser único...
LOBO: Não me diga... Aquilo funcionou... não funcionou?
DOUTOR: Bem... sim. Mas, para qualquer ser racional, tal ato de genocídio, nessa escala colossal, é inconcebível. Quero dizer, como alguém pode fazer algo tão grotesco, primitivo e bárbaro...?
LOBO: Você é burro, retardado ou o quê? Eu simplesmente faço. É por isso que sou o único e eles não! HAHAHAH!!! Essa foi boa, hein?
DOUTOR: Mudando de assunto... a despeito de sua reputação assassina, você também é conhecido como um homem de palavra, um homem de honra.
LOBO: É isso aí. Eu não digo uma coisa e faço outra. Você faz uma promessa, você cumpre! Você assina um contrato, você honra! Você jura vingança, você vinga! Por mais tempo que isso demore. É como eu sempre digo: pegue uma arma e nunca desista! HAHAHAH!!! “Arma”, sacou!
DOUTOR: Mesmo se a voz da razão disser o contrário?
LOBO: “Voz da razão”?
DOUTOR: Você realmente é um homem de anomalias extremas... Será que aquele vestígio sutil de gentileza que percebi em você se perdeu totalmente? Alguma vez já se sentiu culpado pelos seus crimes hediondos?
LOBO: “Vestígio sutil de gentileza”? “Crimes hediondos”? Que porra é essa? Alguma piada idiota?
DOUTOR: N-não, não... Eu só estava...
LOBO: Seu veado bunda-mole! Vocês, psiquiatras, são todos iguais: um bando de imbecis que ficam babando pelo canto da boca! A gente perde tempo e dinheiro vindo aqui, age com educação... Sim, senhor... Não, senhor... E o que recebe em troca? Saco cheio! Ou como diria o desgraçado do Vril: “Saturação da bolsa escrotal”... CACETE! Eu vim até aqui, sentei numa cadeira pegajosa e... Hmmm... Ahá! Acabei de ter uma idéia pra derrubar essa tua pose de sabe-tudo! Pra falar a verdade, doutor, acho que chegou a minha vez. Vamos ver o que tem dentro da sua cabeça e examinar o cérebro!
DOUTOR: Não... O que você está fazendo? Fique longe de mim! Eu estou lhe avisando... Eu... SOCOR. AAAAARRRGGHHHH!!!
LOBO: Olha só! O que é essa geléia branca cheia de gominhos? Será que – clic.
* Fim da transcrição *
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RELATÓRIO DE AUTÓPSIA DO DR. J.A. GNUOY: A morte do Dr. Gnuoy parece ter sido causada por um grande traumatismo craniano. No entanto, ressaltamos que isso é apenas conjectura de nossa parte, pois fomos incapazes de localizar a cabeça acima mencionada.
Equipe Médica
sábado, 12 de maio de 2007
Capítulo 2: matança!
O que são essas coisas voadoras parecidas com escorpiões de 117 micra de comprimento, que perfuram a carne, causando grandes bolhas negras e um rápido envenenamento sangüíneo por um período prolongado antes de resultar em uma agonizante e desordenada morte?
Os czarnianos também não sabiam.
E, como um dos efeitos colaterais era a quase paralisia total segundos após a infecção, eles não tiveram muitas oportunidades de descobrir. O que conseguiram foi muitos bilhões de pessoas inexplicavelmente doentes ao mesmo tempo. Em um planeta onde as doenças eram desconhecidas e 99,86% dos acidentes totalmente evitados, este não era um assunto engraçado.
Corpos inchados com ínguas negras exalando um odor rançoso de decomposição amontoavam-se nas ruas. Pais, mães e filhos rastejavam em cego desespero, unidos num grito de dor que se estendeu por todo o planeta, demorando cinco longos dias antes de se extinguir... no silencio gélido e doentio da abominável morte.
E enquanto um planeta morria, seu assassino sorria.
Em uma sacada ornada entre as elevadas torres de Czarnia, o satânico Lobo relaxava. Um copo de neurovinho espumante umedecia lábios ressecados por uma obscena expectativa. Ele passava sua outra mão pelos cabelos – um rápido e gracioso movimento que gastou muitos meses aperfeiçoando. No brilho acetinado da parede, ele avistou seu reflexo, riu e suspirou afetadamente com a visão. Ele se achava definitivamente o máximo!
Sim, senhor! Ele veio de uma longa caminhada desde aqueles dias precoces e cambaleantes, quando era um grande negocio cremar todo babaca que cruzasse seu caminho ou quando suas aspirações se resumiam a assassinatos simples e insalubres. Na escola, a violência quase o entediou, mesmo em seus piores extremos. Ele detestava todos que encontrava, e os tratava de acordo. Todo o planeta Czarnia conhecia e temia o seu nome.
Nenhuma solução quanto a existência e Lobo foi encontrada. As súplicas ao seu lado benevolente não surtiram efeito, pois ele próprio declarou desconhecer o que era “piedade”. O uso da ameaça, totalmente estranha aos costumes czarnianos, foi logo considerado, mas logo abandonado quando perceberam que ninguém saberia ou teria coragem para fazê-lo.
E, quanto mais Lobo piorava, mais Lobo gostava...
Até agora, no final de sua adolescência, seu ego monstruosamente inflado deu o passo derradeiro. Empregando uma inteligência que, em diferentes circunstancias, teria feito dele o maior neurocirurgião do Universo de todos os tempos, Lobo pôs mãos à obra na aula de Biologia.
Ele veio com umas coisas voadoras parecidas com escorpiões de 117 micra de comprimento, que perfuram a carne. Se alguma testemunha tivesse sobrevivido, ela nos contaria sobre a risada assustadora que cortou o ar enquanto ele quebrava os desprezíveis frascos da morte. A gargalhada fluiu com o vento e muitas das vítimas poderiam jurar que, mesmo sentindo as picadas dos milhões de insetos em seus corpos, o eco daquela risada profana os amedrontava mais... se alguma testemunha tivesse sobrevivido.
Em sua sacada, Lobo, o Senhor da Morte, ergueu seu copo em um brinde final. Um estranho êxtase percorreu sua espinha. Complexas reações químicas em seu cérebro o levaram a um estado de mística euforia. Por um momento, ele se lembrou de Daline Zaand, seu primeiro amor, de suaves curvas e hálito doce e morno. Um fogo brando percorreu seu sangue. Um gemido baixo irrompeu de suas entranhas, deixando rijo cada músculo de seu corpo.
Matar um planeta era como Daline Zaand... só que bilhões de vezes melhor.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Capítulo 1: uma serpente no Éden
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Caçador de mim
Composição: Luís Carlos Sá e Sérgio Magrão
Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Tempo
De que outra maneira posso sentir o pulsar de alguém,
de alguma coisa que seja?
É preciso tempo para conseguir viver o tempo dos outros.
Existe o tempo de estar só e o de estar acompanhado.
Mas, não é possível viajar se não for com tempo.
Viajar acompanhado traz o desafio de equilibrar o meu tempo
ao de quem me acompanha
e ainda o de tentar viver o tempo de quem visito,
do que visito.
Sem tempo posso correr atrás do prejuízo?
Sem tempo posso fazer muita coisa,
mas não viajo,
não sinto.
Com que compasso?
Preciso do meu tempo.
Sozinho, sozinhos.
Sozinho deixo-me perder.
Sozinhos deixamos de ter tempo próprio
e passamos a ter tempo para tudo.
O tempo deixa de ser meu;
passa a ser nosso.
quarta-feira, 14 de março de 2007
Como um tom
soa em novembro um canto de melro
ou como um arrepio nos pêlos,
como a comida preferida.
Mas numa manhã em fevereiro
Já se pode ousar, como um papa-capim,
a lembrar-se de algo que durante
o ano não se pôde dizer abertamente.
Muzot, meados de fevereiro de 1924
(Por: Rainer Maria Rilke: primavera.)
terça-feira, 13 de março de 2007
Wie ein Ton
klang im November ein Amsellaut
oder als rührte ans eigene Haar
einer, weil's einmal geliebkost war.
Aber am Morgen im Februar
darf es ein Fink schon wagen
etwas was kein Erinnern war
offen ins Jahr zu sagen.
Muzot, Mitte Februar 1924
(Aus: Rainer Maria Rilke: Frühling.)
sábado, 10 de março de 2007
Ruby tuesday
She would never say where she came from
Yesterday don't matter if it's gone
While the sun is bright
Or in the darkest night
No one knows
She comes and goes
Goodbye, Ruby Tuesday
Who could hang a name on you?
When you change with every new day
Still I'm gonna miss you...
Don't question why she needs to be so free
She'll tell you it's the only way to be
She just can't be chained
To a life where nothing's gained
And nothing's lost
At such a cost
There's no time to lose, I heard her say
Catch your dreams before they slip away
Dying all the time
Lose your dreams
And you will lose your mind.
Ain't life unkind?
Goodbye, Ruby Tuesday
Who could hang a name on you?
When you change with every new day
Still I'm gonna miss you...
quinta-feira, 8 de março de 2007
A uma mulher
Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.
Rio de Janeiro, 1933
in O caminho para a distância
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "O sentimento do sublime"
segunda-feira, 5 de março de 2007
Confidências
Conforme prometi, estou enviando um e-mail para contar as novidades da minha primeira semana após ser transferida pela firma para o Rio de Janeiro. Terminei hoje de arrumar as coisas no meu novo apartamento. Ficou uma gracinha, mas estou exausta. São dez da noite e já estou pregada. Amanhã te passo outro e-mail para dizer como foi o dia.
Segunda-Feira:
Cheguei na firma e já adorei. Entrei no elevador quase no mesmo instante que o homem mais lindo desse planeta. Ele é loiro, tem olhos verdes e o corpo musculoso parece querer arrebentar o terno. Lindooooo! Estou apaixonada. Olhei disfarçadamente a hora no meu relógio de pulso e fiz uma promessa de estar parada defronte ao elevador todos os dias a essa mesma hora. Ele desceu no andar da engenharia. Conheci o pessoal do setor, todos foram atenciosos comigo. Até o meu chefe foi super delicado. Estou maravilhada com essa cidade. Cheguei em casa e comi comida enlatada. Amanhã vou a um mercado comprar alguma coisa.
Terça-Feira:
Amiga! Precisava contar. Sabe aquele homem de quem falei? Ele olhou para mim e sorriu quando entramos no elevador. Fiquei sem ação e baixei a cabeça. Como sou burra! Passei o dia no trabalho pensando que preciso fazer um regime. Me olhei no espelho hoje de manhã e estou com uma barriguinha indiscreta. Fui no mercado e só comprei coisinhas leves: biscoitos, legumes e chás. Resolvido! Estou de dieta.
Quarta-Feira:
Acordei com dor-de-cabeça. Acho que foi a folha de alface ou o biscoito do jantar... Preciso manter-me firme na dieta. Quero emagrecer dois quilos até o fim-de-semana. Ah! O nome dele é Marcelo. Ouvi um amigo dele falando com ele no elevador. E ainda tem mais: ele desmanchou o noivado há dois meses e está sozinho. Consegui sorrir para ele quando entrou no elevador e me cumprimentou. Estou progredindo, né? Como faço para me insinuar sem parecer vulgar? Comprei um vestido dois números menor que o meu. Será a minha meta.
Quinta-Feira:
O Marcelo me cumprimentou ao entrar no elevador. Seu sorriso iluminou tudo! Ele me perguntou se eu era a arquiteta que viera transferida de Brasília e eu só fiz: "U-hum"... Ele me perguntou se eu estava gostando do Rio e eu disse: "U-hum". Aí ele perguntou se eu já havia estado antes aqui e eu disse: "U-hum". Então ele perguntou se eu só sabia falar "U-hum" e eu respondi: "Ã-hã". Será que fui muito evasiva? Será que eu deveria ter falado um pouco mais? Ai, amiga! Estou tão apaixonada! Estou resolvida! Amanhã vou perguntar se ele não gostaria de me mostrar o Rio de Janeiro no final de semana. Quanto ao resto, bem... ando com muita enxaqueca. Acho que vou quebrar meu regime hoje. Estou fazendo uma sopa de legumes. Espero que não me engorde demais.
Sexta-Feira:
Amiga! Estou arruinada! Ontem à noite não resisti e me empanturrei. Coloquei bastante batata-doce na sopa, além de couve, repolho e beterraba. Menina, saí de casa que parecia um caminhão de lixo. Como eu peidava! (nossa! Você não imagina a minha vergonha de contar isto, mas se eu não desabafar, vou me jogar pela janela!). No metrô, durante o trajeto para o trabalho, bastava um solavanco para eu soltar um futum que nem eu mesma suportava. Teve um momento em que alguém dentro do trem gritou: "Aí! Peidar até pode, mas jogar merda em pó dentro do vagão é muita sacanagem!". Uma senhora gorda foi responsabilizada. Todo mundo olhava para ela, tadinha. Ela ficou vermelha, ficou amarela, e eu aproveitava cada mudança de cor para soltar outro. O meu maior medo era prender e sair um barulhento. Eu estava morta de vergonha. Desci na estação e parei atrás de uma moça com um bebê no colo, enquanto aguardava minha vez de sair pela roleta. Aproveitei e soltei mais um. O senhor que estava na frente da mulher com o bebê virou-se para ela e disse: "Dona! É melhor a senhora jogar esse bebê fora porque ele está estragado!". Na entrada do prédio onde trabalho tem uma senhora que vende bolinhos, café, queijo, essas coisas de camelô. Pois eu ia passando e um freguês começou a cheirar um pastel, justo na hora em que o futum se espalhou. O sujeito jogou o pastel no lixo e reclamou: "Pó, dona Maria! Esse pastel tá bichado!". Entrei no prédio resolvida a subir os dezesseis degraus pela escada. Meu azar foi que o Marcelo ficou segurando a porta, esperando que eu entrasse. Como não me decidia, ele me puxou pelo braço e apertou o botão do meu andar. Já no terceiro andar ficamos sozinhos. Cheguei a me sentir aliviada, pois assim a viagem terminaria mais rápido. Pensei rápido demais. O elevador deu um solavanco e as luzes se apagaram. Quase instantaneamente a iluminação de emergência acendeu. Marcelo sorriu (ai, aquele sorriso...) e disse que era a bruxa da sexta-feira. Era assim mesmo, logo a luz voltaria, não precisava se preocupar. Mal sabia ele que eu estava mesmo preocupada. Amiga, juro que tentei prender. Mas antes que saísse com estrondo, deixei escapar. Abaixei e fiquei respirando rápido, tentando aspirar o máximo possível, como se estivesse me sentindo mal, com falta de ar. Já se imaginou numa situação dessas? Peidar e ficar tentando aspirar o peido para que o homem mais lindo do mundo não perceba que você peidou? Ele ficou muito preocupado comigo e, se percebeu o mau cheiro, não o demonstrou. Quando achei que a catinga havia passado, voltei a respirar normal. Disse para ele que eu era claustrófoba. Mal ele me ajudou a levantar, eu não consegui prender o segundo, que saiu ainda pior que o anterior. O coitado dessa vez ficou meio azulado, mas ainda não disse nada. Abaixei novamente e fiquei respirando rápido de novo, como uma mulher em estado de parto. Dessa vez Marcelo ficou afastado, no canto mais distante de mim no elevador. Na ânsia de disfarçar, fiquei olhando para a sola dos meus sapatos, como se estivesse buscando a origem daquele fedor horroroso. Ele ficou lá, no canto, impávido. Nem bem o cheiro se esvaiu e veio outro. Ele se desesperou e começou a apertar a campainha de emergência. Coitado! Ele esmurrou a porta, gritou, esperneou, e eu lá, na respiração cachorrinho. Quando a catinga dissipou, ele se acalmou. As lágrimas começaram a escorrer pelos meus olhos. Ele me viu chorando, enxugou meus olhos e disse: "Meus olhos também estão ardendo..." Eu juro que pensei que ele fosse dizer algo bonito. Aquilo me magoou profundamente. Pensei: "Ah, é, filho da puta? Então acabou a respiração cachorrinho...". Depois disso, no primeiro ele cobriu o rosto com o paletó. No segundo, enrolou a cabeça. No terceiro, prendeu a respiração, no quarto, ele ficou roxo. No quinto, me sacudiu pelos braços e berrou: "Mulher! Pára de se cagar!". Depois disso ele só chorava. Chorou como um bebê até sermos resgatados, quatro horas depois. Entrei no escritório e pedi minha transferência para outro lugar, de preferência outro País.
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
Falena (Mariposa)
Semplice, inspiegabile, inscindibile.
Tra alba e tramonto, tra inizio e fine.
L'amore è un bruco che ritmicamente
si fa largo fra le consuetudini
e le rende istinti.
La metamorfosi è la via per
ingannare le divinità.
Trasformazione di una volontà ad esistere.
E come l'acqua, diventa molte cose.
Ma la sua essenza più intima è l'empatia.
La crisalide è vuota, la notte sostiene
il suo volo. Sulle sue ali è scritta
la storia di un'emozione destinata a perire.
La fine ed il tempo cercano un punto
d'incontro per obbedire al destino.
Eppure lei sa come volare lontano dal
comprensibile. Battiti frenetici, percezioni.
E' per questo che lei è...Falena.
Mariposa
Simples, inexplicável, Inseparável,
Entre o amanhecer e o alvorecer,
Começo e fim.
O amor é uma lagarta que ritmicamente
se faz ao largo dos costumes
e rende instintos.
A metamorfose é o caminho
para ganhar a divindade.
Transformação de uma vontade de existir.
E como a água, tornar-se muitas coisas.
Mas a sua essência ultima é a empatia.
A crisálida está vazia, a noite sustenta
seu vôo. Sobre suas asas é escrita
a história de uma emoção destinada a perecer.
O fim e o tempo procuram um ponto
de encontro para obedecer o destino.
Apesar disso, ela sabe como voar
para longe do compreensível.
Batidos frenéticos, percepção.
E é por isso que ela é uma mariposa.
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
terça-feira, 16 de janeiro de 2007
Mini conto kafkiano
segunda-feira, 8 de janeiro de 2007
Paura
Essa não é a primeira vez que isso acontece e isso me deixa bastante nervoso. Quando tento me concentrar, as palavras me abandonam. Será que é apenas um sonho ou algo que aconteceu há muito tempo? Será que é aquilo que Freud chama de lembranças encobridoras? Mas, nesse caso, eu deveria ter, ao menos, algum pensamento que me fizesse esquecer aquilo que tento lembrar.
Talvez não consiga colocá-lo para fora porque tenho medo. Tenho medo dos meus pensamentos, de minhas idéias. Medo daquilo que penso e que talvez não seja justo. Medo do que creio ter razão, pois talvez o que eu creia não seja tão racional assim. Medo do que escuto e do que digo por que não tenho certeza se o que digo é o que realmente penso. Tenho medo dos meus pensamentos por que eles não escondem quem eu esqueci que sou.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2006
sábado, 16 de dezembro de 2006
O Tempo Reduz Tudo a Nada
O tempo é a forma graças à qual a vanidade das coisas aparece como a sua instabilidade, que reduz a nada todas as nossas satisfações e todas as nossas alegrias, enquanto nos perguntamos com surpresa para onde foram. Esse próprio nada é portanto o único elemento objectivo do tempo, ou seja, o que lhe responde na essência íntima das coisas, e assim a substância da qual ele é a expressão.
Arthur Schopenhauer, in 'O Mundo como Vontade e Representação'.
sábado, 25 de novembro de 2006
Somos morte.
Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos. Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, mas num sentido verdadeiro.
Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.
O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias. Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga. A verdade nunca, a paragem nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz, mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!
Bernardo Soares (Fernando Pessoa) In: Livro do desassossego, fragmento nº 178.
sexta-feira, 3 de novembro de 2006
A soma e substância de toda a filosofia
Søren Kierkegaard (Victor Eremita), in 'Aut/Aut' (Diapsalmata).
quinta-feira, 2 de novembro de 2006
sábado, 28 de outubro de 2006
segunda-feira, 23 de outubro de 2006
sábado, 7 de outubro de 2006
domingo, 1 de outubro de 2006
A alienação política e a direita brasileira
Tenho ouvido muita gente dizer que vai votar nulo ou em branco porque se desiludiu com os rumos que o governo do PT tomou. Para essas pessoas, que se sentiram enganadas, abster-se do voto é uma atitude de revolta que simboliza a desforra pela “traição” cometida pelo PT. Dessa forma, o ato de tornar-se alienado constitui uma atitude de se desvencilhar, de se manter afastado, da sujeira e da corrupção tão alardeadas pela mídia.
No entanto, ser alienado político é observar a sociedade apenas superficialmente. É não ter o devido cuidado de estudá-la, de saber de onde se partiu ou do que foi feito para se chegar aonde ela chegou e, com esse conhecimento adquirido pela experiência, questionar e apontar caminhos que possam levar a um melhor progresso social, para que, dessa forma, se tenha uma sociedade mais igualitária. Para não ser alienado político é preciso descobrir a cada momento histórico o grupo político que tenha melhores condições de levar adiante o progresso social da humanidade.
Após a década de 60, quando nossas possibilidades foram interrompidas, o governo Lula foi o primeiro passo que demos em direção a um Brasil novo. É verdade que ainda estamos mergulhados no mundo neoliberal e na ideologia de mercado, mas é igualmente verdade que o governo que Lula está fazendo é superior ao do que o sociólogo fez, embora as variáveis que realmente interessem (desenvolvimento social, redução da pobreza etc.) sejam irrelevantes para a mídia e, principalmente, para a direita.
O que interessa para a direita, ao contrário do que ocorre com a esquerda, é tudo aquilo que sua classe possa aproveitar, ainda que seja prejudicial ao povo... O diabo é que, em sua propaganda maniqueísta, mente e manipula discaradamente a esse povo, seja tentando criar um um clima de desligitimação do governo por meio de "denúncias" da corrupção ou seja por meio da promoção de debates pseudo-democráticos.
O final infeliz da história é em dois atos: no primeiro, o povo tem seus votos tomados e, no segundo, lhe é dado as costas.
terça-feira, 19 de setembro de 2006
O tédio é a raiz de todo o mal
Não admira, pois, que o mundo vá de mal a pior e que os males aumentem cada vez mais, à medida que aumenta o tédio, e o tédio é a raiz de todo o mal. A história deste pode acompanhar-se desde os primórdios do mundo. Os deuses estavam entediados, pelo que criaram o homem. Adão estava entediado por estar sozinho, e por isso foi criada Eva. Assim o tédio entrou no mundo e aumentou na proporção do aumento da população. Adão aborrecia-se sozinho, depois Adão e Eva aborreceram-se juntos, depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois a população do mundo aumentou e os povos aborreceram-se en masse. Para se divertirem congeminaram a idéia de construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Esta idéia, por sua vez, é tão aborrecida como a torre era alta, e constitui uma prova terrível de como o tédio se tornou dominante.
KIERKEGAARD, Søren Aabye, in "Aut, aut"
domingo, 10 de setembro de 2006
quinta-feira, 7 de setembro de 2006
O Mundo é a minha representação
O mundo é a minha representação. Esta proposição é uma verdade para todo o ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. A partir do momento em que é capaz de o levar a este estado, pode dizer-se que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra; mas apenas olhos que vêem este sol, mãos que tocam esta terra; numa palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem.
Se existe uma verdade que se possa afirmar à priori é bem esta, pois ela exprime o modo de toda a experiência possível e imaginável, conceito muito mais geral mesmo que os de tempo, espaço e causalidade que o implicam. Com efeito, cada um destes conceitos, nos quais reconhecemos formas diversas do princípio de razão, apenas é aplicável a uma ordem determinada de representações; a distinção entre sujeito e objeto é, pelo contrário, o modo comum a todas, o único sob o qual se pode conceber uma qualquer representação, abstrata ou intuitiva, racional ou empírica. Nenhuma verdade é pois, mais certa, mais absoluta, mais evidente do que esta: tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro apenas é objeto em relação a um sujeito, percepção apenas, em relação a um espírito que percebe, numa palavra, é pura representação.
SCHOPENHAUER, Arthur. In 'O Mundo como Vontade e Representação'.
domingo, 3 de setembro de 2006
segunda-feira, 21 de agosto de 2006
Futuro
Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.
quarta-feira, 16 de agosto de 2006
A raposa e o político
– Venho te observando todos os dias e vi que você sempre rouba apenas uma galinha... tenho uma proposta para te fazer baseado em minha experiência e parceria com outras raposas. O esquema é o seguinte: a gente rouba todas as galinhas desse galinheiro e depois fazemos isso nos outros galinheiros das fazendas vizinhas. Aí, a gente divide o fruto do roubo em partes justas, tipo hoje você rouba para mim e amanhã eu roubo para você. Não tem erro, nós dois lucramos e é totalmente seguro.
A raposa ficou impressionada com a proposta do político e a seguiu à risca. Roubou todas as galinhas. Não deixou nenhuma. Passou tudo ao político e combinaram de se encontrar na fazenda vizinha no dia seguinte. No outro dia, o político não estava lá. O galinheiro já estava vazio e o dono havia armado uma tocaia para pegar o ladrão.
A raposa foi abatida com três tiros na cabeça.
Moral da historia: mais vale roubar uma galinha por dia que confiar na palavra de um político.
segunda-feira, 31 de julho de 2006
quinta-feira, 27 de julho de 2006
sábado, 22 de julho de 2006
Voar
Volare
Luciano Pavarotti
Composição: Domenico Mondugno
Penso che un sogno così non ritorni mai più
Mi dipingevo le mani e la faccia di blu
Poi d'improvviso venivo dal vento rapito
E incominciavo a volare nel cielo infinito
Volare, oh, oh!
Cantare, oh, oh, oh, oh!
Nel blu, dipinto di blu
Felice di stare lassù
E volavo, volavo felice più in alto del sole ed ancora più su
Mentre il mondo piano piano spariva lontano laggiù
Una musica dolce suonava soltanto per me
Volare, oh, oh!
Cantare, oh, oh, oh, oh!
Nel blu, dipinto di blu
Felice di stare lassù
Nel biu, dipinto di blu
Felice di stare lassù
Agora que consigo entender acho que gosto ainda mais dela. Aí vai a tradução:
Voar
Composição: Domenico Mondugno
Penso que um sonho assim não retornará nunca mais
Eu pintava minhas mãos e o rosto de azul
Depois por improviso era seqüestrado pelo vento
E começava a voar no céu infinito
Voar, oh, oh!
Cantar, oh, oh, oh, oh!
No azul, pintado de azul
Feliz de estar lá em cima
E voava, voava mais feliz no alto do sol e ainda mais acima
Enquanto o mundo plano, plano desaparecia distante lá embaixo
Uma música doce tocava apenas para mim
Voar, oh, oh!
Cantar, oh, oh, oh, oh!
No azul, pintado de azul
Feliz de estar lá em cima
Até a próxima!
quinta-feira, 20 de julho de 2006
Almas
Vagamos confusos em meio
a tênues feixes
de luzes serenas.
Com passos apressados,
desviamos da vigília permanente
de olhares perseguidores.
Bailamos entre sombras
e clarões difusos
para adormercemos envoltos
pelos lençóis de fumaça da perdição.
Rimos da busca de uma felicidade fugidia
ou mentira oculta.
E quando não recebemos respostas
às perguntas que endereçamos ao céu,
sabemos que é porque somos almas,
espíritos invisíveis
à mesquinharia humana.
quinta-feira, 13 de julho de 2006
Travelling riverside blues
Saudações aos deuses do metal!
quarta-feira, 5 de julho de 2006
Roadhouse blues
Há 41 anos, formava-se, em Los Angeles, Estados Unidos, uma das mais polêmicas e talentosas bandas de rock'n'roll da história, o The Doors. E, há exatos 35 anos, faleceu seu vocalista e líder Jim Morrison.
A morte, ocorrida em um hotel parisiense, sempre foi cercada de suspense. Alguns fãs mais exaltados acham que Morrison, como Elvis Presley, não morreu, que é tudo boato. Os companheiros de banda não acreditam, em declarações dadas na mídia, que o corpo do músico esteja em Paris. Enfim, tudo muito nebuloso.
Mas o que impressiona de fato, é a magia, o encanto que a imagem do rebelde Morrison (morto aos 27 anos) ainda causa em milhares de pessoas. O mito permanece vivo.
Récem formados em cinema, Ray Manzarek (tecladista) e Morrison se conheceram e resolveram formar uma banda. Adotam o nome de The Doors através de uma obra do poeta William Blake. Em pouco tempo John Densmore (baterista) e Robby Krieger (guitarrista) se juntam ao Doors.
Em 1967, sai a primeira e talvez a melhor obra da banda, o álbum homônimo, que contém as épicas canções 'Break on Through' e 'Light My Fire'.
A partir daí, o sucesso do grupo foi aumentando abruptamente e com ele a loucura da banda. Morrison, irritado com o assédio ou sem encontrar um meio mais confortável para lidar com o sucesso, começa a se apresentar de modo enérgico, estranho, no palco. Considerado símbolo sexual na época, o vocalista adotou performances sensuais, obcenas muitas vezes, criando um figura pública controversa.
Drogas e álcool, que juntamente com o sexo compõem a famosa tríade com o rock, estavam presentes no dia a dia do Doors. Morrison, já um tanto transtornado com sua nova vida, começou (ou ao menos tentou) se afastar um pouco dos holofotes da mídia e do resto da banda, com quem vivia em conflitos constantes. Até que no dia 3 de julho de 1971, Jim foi encontrado morto, devido a um ataque cardíaco, na banheira do hotel em que se hospedava em Paris, tendo sua morte anunciada dias depois em meia a muita confusão e especulações.
Permanece até hoje a imagem do vocalista rebelde, que ignorou as proibições do programa The Ed Sullivan Show, do bêbado que exibiu o pênis em um show nos Estados Unidos e que protagonizou tantas outras insanidades.
Seu túmulo, em Paris, é um dos locais mais visitados da Europa. Diariamente passam cerca de 300 pessoas pelo local. Fotos, velas, cartas e os mais diversos objetos são deixados juntos a lápide do músico. Algumas pessoas fazem pequenos ritos as escondidas no cemitério e até mantém relações sexuais perto do túmulo.
Se vivo, Jim Morrison completaria em dezembro 68 anos. Não se pode afirmar o que aconteceria com o Doors se o seu vocalista não tivesse morrido em 1971. A única certeza é que sua morte foi criado um mito que perdurará por muito tempo.
sábado, 1 de julho de 2006
Weapon of Choice
O vídeoclip "Weapon of choice", baseado na música de mesmo nome do Fatboy Slim, foi dirigido por Spike Jonze, o mesmo diretor dos filmes "Quero ser John Malkovich" e "Adaptação". A música faz parte do disco "Halfway between the gutter and the stars" ("Metade do caminho entre a sarjeta e as estrelas"), de 2000. No vídeo, o ator Christoper Walken interpreta um homem que aproveita a ausência de pessoas no local para dançar pelos salões de um luxuoso hotel. Walken também ajudou a coreografar a dança, que inclui uma cena em que ele mergulha do alto de uma sacada para voar ao redor do salão.
domingo, 25 de junho de 2006
Sonhos
Tudo funciona assim: você acorda atônico pela manhã e não consegue aceitar que sua mente tenha sido capaz de criar tudo aquilo. Você precisa comprovar que tudo não passa realmente de um sonho; quer tentar encontrar ao menos uma evidência que prove que seu inconsciente não teria capacidade de te pregar tamanha peça. Mais ou menos como aquele personagem do filme “Em algum lugar do passado”, você começa a ficar obcecado com a idéia de reencontrar aquela pessoa do seu sonho, ainda meio aturdido pela dúvida de estar sonhando ou desperto.
É parecido com a sensação que se tem quando se tem sonhos desta espécie com alguém que se viu uma única vez... Certa ocasião, na escola, quando eu era ainda mais estranho do que sou hoje e tinha por volta de 13 anos, lembro-me de ter passado todo o recreio procurando uma garota mais velha do que eu, ainda sonhando acordado o sonho que tinha tido na noite passada com alguém que havia visto apenas de relance. Sempre fui tímido e com certeza não haveria nada a ser feito além de encontrá-la, mas eu queria revê-la e sentir uma pontinha de nostalgia do que ela nem sonhava... Não sonhara... E nem sonharia... Ou será que na mesma noite teria ela sonhado com aquele menino e talvez estivesse procurando-o também com o desejo secreto de apenas revê-lo?
Não estava.
Eu a vi entre várias amigas. Estava exatamente como no sonho: o mesmo cabelo curto, o rosto cheio de espinhas, as sobrancelhas fortes que realçavam o brilho dos olhos... É estranho quando você se depara com alguém com quem teve um relacionamento que foi tão intenso, e que no entanto só existiu em sua mente. Talvez seja a mesma sensação de um fã que passa anos sonhando com a oportunidade de ficar cara a cara com seu ídolo e de repente consegue realizar essa façanha. Não sei. Não consigo explicar com palavras, mas lembro-me de ter ficado parado ali por algum tempo, olhando e lembrando. Eu a amei baixinho, num segredo velado, típico desses sonhos que se sonha sozinho... Sonho tão real que venceu até o desafio do tempo e da memória, e que me faz curiosamente lembrar dela, quando eu mesmo já esqueci de tantas pessoas que amei ao longo tempo.
Acho que estou ficando velho.
quinta-feira, 15 de junho de 2006
Morte, o sono dos justos
O fato é que me recuso a aceitar a idéia de que nos dias de hoje pessoas – sim, pessoas assim como eu e como você que lê este texto – morram de fome. Não consigo aceitar a idéia de que uma mãe, que tira o sustento da coleta informal do lixo e, que recebe por isso, mais ou menos, R$ 300,00 mensais, viva com seus seis filhos num barraco de 2 metros quadrados, e tenha que pagar R$ 100,00, por mês, pelo aluguel dessa moradia. Não consigo aceitar a idéia de que seis crianças tenham que comer fubá misturado com água e restos de lixo para poder sobreviver. Não aceito e jamais aceitarei a notícia de que uma menina de um ano e seis meses tenha morrido de fome por não agüentar uma dieta de vários meses à base de fubá com água.
Ela nasceu perfeita e pobre.
Puta que pariu.
Que raio mundo é esse em que uma criança de um ano e três meses morre de fome e ninguém faz nada? Que mundo é esse em que ninguém questiona o fato de haver pessoas que desfilem por aí em carros que custam U$ 300.000,00, enquanto uma criança de um ano e seis meses morre de fome porque os R$ 300,00 que sua mãe recebe por mês têm que ser divididos entre sete pessoas e o aluguel? Que mundo é esse em que a reificação das relações pessoais atingiu um estágio tão desenvolvido que a morte de alguém, por não ter o que comer, não é suficiente para nos sensibilizar a questionar o porquê das desigualdades sociais?
Tomara que caia um meteoro e destrua essa merda de planeta.
domingo, 4 de junho de 2006
Dancem macacos, dancem
Macacos que se acham mais espertos que os macacos, fazem vídeos criticando outros macacos, esquecendo-se que, na verdade, não passam de "macacos".
O que é uma grande ofensa aos símios...
domingo, 28 de maio de 2006
Conhecer-se é errar
O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por Sanches, quando disse «nem sei se nada sei». O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e todo o homem superior o dá e atinge. O segundo passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.
Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse «Conhece-te» propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscienciosamente é o emprego activo da ironia. Nem conheço coisa maior, nem mais própria do homem que é deveras grande, que a análise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registo consciente da inconsciência das nossas consciências, a metafísica das sombras autónomas, a poesia do crepúsculo da desilusão.
Mas sempre qualquer coisa nos ilude, sempre qualquer análise se nos embota, sempre a verdade, ainda que falsa, está além da outra esquina. E é isto que cansa mais que a vida, quando ela cansa, e que o conhecimento e meditação dela, que nunca deixam de cansar.
Bernardo Guimarães, in 'O Livro do Desassossego'.
quinta-feira, 25 de maio de 2006
Existencialismo I
A abstinência de Fanta Laranja no meu sistema nervoso tem feito um estrago grande em minha sanidade*. Por isso, e talvez como forma de catarse, resolvi registrar mais uma vez meus devaneios aqui. Tenho pensado muito a respeito do existencialismo, principalmente sobre a questão da responsabilidade pelas escolhas e a sua relação com o que definimos por 'destino'.
Acho que estamos perdendo as virtudes de vivermos apaixonadamente; de assumirmos a responsabilidade por quem somos, de tentarmos realizar algo e nos sentirmos bem em relação à vida. O existencialismo é, às vezes, visto como uma filosofia do desespero, mas eu penso que é o contrário. O que ele nos ensina não é que deve existir um sentimento de angústia pela vida, mas sim que devemos encará-la como se ela fosse uma obra aberta, pronta para ser criada e, se preciso, redefinida.
De acordo com Sartre, cada escolha carrega consigo uma responsabilidade. Se escolho ficar em casa dormindo ao invés de ir trabalhar, falar alguma coisa ou escrever nesse blog, tenho que ter consciência de que qualquer conseqüência desses atos terá sido resultado de minha própria escolha. E ao colocar cada escolha em ação provoco mudanças no mundo que não podem ser desfeitas. Não posso, segundo o existencialismo, atribuir a responsabilidade por estes atos a nenhuma força externa, ao destino ou a Deus. A essência da responsabilidade segundo os existencialistas é que eu, por minha vontade e escolha ajo no mundo e afeto o mundo todo. É uma responsabilidade da qual não posso fugir.
Sempre tenho uma incômoda sensação de que algo essencial está sendo deixado de fora do modo como vivemos (ou pelo menos do modo como vivo). Quanto mais se fala sobre o ser humano como um ser social ou como fragmentado ou marginalizado abre-se todo um novo universo de desculpas. E esse talvez seja o ponto: por que sempre complicamos e criamos desculpas? Por que as decisões que tomamos têm que ser influenciadas pelo Outro?
Quando Sartre fala de responsabilidade, não é abstrato. Não se trata do tipo de 'eu' ou de 'alma' de que falam as religiões. É algo concreto. Somos nós, falando, tomando decisões e assumindo as conseqüências. Acho que a mensagem é que não devemos jamais nos eximir da responsabilidade com nós mesmos, e nos vermos como vítimas de várias forças.
Quem nós somos é sempre uma decisão nossa.
*Teria a Coca-cola tido a audácia de cancelar a produção desse doce e alaranjado líquido sem consultar a opinião de seu maior consumidor [ou seja, eu]?
quinta-feira, 11 de maio de 2006
Apenas um soneto
Muda-se o caráter, muda-se a confiança;
Tudo no mundo tende à mudança,
Mas algo não muda desde a antigüidade,
Aqueles que empregam suas habilidades,
para semear a desconfiança;
Para aos corruptos oferecer aliança,
e tornar a justiça, se já houve, em saudades.
'Artistas' que empregam seu canto,
se é se pode dizer assim de tal zurraria,
para vestir um ladrão de santo.
E é besteira acreditar que tudo mudará um dia.
E é daí que vem o motivo par'o pranto:
'Arte' alienada + mídia é igual a acefalia.
domingo, 7 de maio de 2006
Waking life

Você alguma vez já se questionou se a realidade tal qual a conhecemos é real mesmo? Se aquilo que concebemos como real é o que percebemos com nossos sentidos (visão, olfato, sons, etc) e não com nossa razão, então como podemos ter certeza de que o que percebemos é verdadeiro? Como saber se nossos sentidos não nos enganam? E mais ainda, há pessoas que dizem sonhar muito e outras que reclamam por não sonhar nada. Quer lembrem-se ou não dos sonhos que tiveram, já foi provado que todos os seres humanos sonham, e é aqui que está o ponto a que quero chegar: para o cérebro não faz diferença se é sonho ou realidade (o que explica por que nossas recordações das experiências que registramos dormindo são tão vivas). Mas se o que entendemos como realidade por sua vez for apenas uma convenção de nosso cérebro, então como diferenciar daquilo que é apreendido por nossos sentidos?
Assisti um filme hoje (o título é o mesmo desse texto) que me fez mais uma vez questionar a veracidade daquilo que considero realidade. Na trama, após não conseguir acordar de um sonho, um rapaz passa a encontrar pessoas da vida real em seu mundo imaginário. Uma das questões levantadas pelo filme é: estamos feito sonâmbulos quando estamos acordados ou será que estamos conscientes enquanto sonhamos? Quando paro para pensar a respeito, desconfio, por exemplo, que talvez os loucos sejam os únicos que, por terem perdido essa noção da linha tênue que separa a realidade da ilusão (ou não-realidade), descobriram a falha na matrix e enxergam as coisas como elas realmente são. Na falta de explicação melhor, fico com as palavras do mestre Poe: “O que vejo, o que sou e suponho será apenas um sonho num sonho?”.
sábado, 29 de abril de 2006
Noite Alucinante
O héroi, o primeiro e único Ash (Bruce Campbell)
No primeiro filme, um grupo de amigos vai a uma cabana isolada na floresta. Lá eles ouvem uma fita em que um arqueólogo recita passagens do Livro dos Mortos. A evocação traz da floresta as forças do mal e a noite se transforma numa luta sanguinária pela sobrevivência.
O livro dos Mortos, o infernalmente famoso Necronomicon Ex-Mortis
Os cinco minutos iniciais de Uma Noite Alucinante (Evil Dead II – Dead by dawn, 1987) resumem perfeitamente o primeiro filme, de tal forma que nem é preciso assisti-lo para entender essa continuação. Ash (o protagonista da história) e sua namorada, Linda, são atacados por espíritos que eles invocam quando tocam uma fita de audio gravada por um arqueólogo (na qual ele lê vários trechos do Livro dos Mortos). Como é de costume com todas as gravações arqueológicas, ela invoca forças demoníacas sedentas por destruição.
O herói, numa 'discusão amistosa' com sua namorada possuída,
ou melhor, com a cabeça possuída de sua namorada...
Numa cena clássica, a namorada de Ash é possuída e ele é forçado a decapitá-la e enterrá-la na floresta. O mais bacana é que ela ressurge (podre como se estivesse morta há décadas) e logo se reúne com sua estimada cabeça. Ash, que é um namorado carinhoso, prende a cabeça dela numa prensa e a estraçalha com uma serra elétrica, numa sequência de pura poesia em movimento.
Linda, logo após recuperar sua cabeça...
Nesse filme ainda há outras cenas memoráveis, como a mão possuída que se revolta contra seu dono, a “dança” de Linda e quando todos os objetos da sala ficam rindo de Ash. Quem está acostumado com os efeitos especiais de hoje poderá estranhar os do filme e achar tudo muito mal feito. E o pior é que eles são mal-feitos! Mesmo para o padrão da época em que os filmes foram lançados. Entretanto, o efeito é reverso pois as situações tornam-se mais engraçadas e o resultado é único no gênero, muito melhor, por exemplo, do que os recentes filmes de tortura, tipo Jogos Mortais e O Albergue.
O herói, após ser possuído e um pouco antes de perder a mão
O terceiro filme, Noite Alucinante III - O Exército das Trevas (Army of Darkness, 1993), comeca com Ash contando a sua inacreditável história (Noite Aluncinante II). Ele é enviado para a Idade Média, onde é capturado e levado como prisioneiro por um rei. Ash e um outro prisioneiro são jogados num poço cheio de demônios. O primeiro prisioneiro dura poucos segundos antes que seu sangue seja espirrado por todo lugar. Ash é o próximo, mas ele acaba com o demônio e sai do poço. Esse ato heróico dá a Ash algum respeito, daí ele sai em busca do Livro dos Mortos, a única forma de voltar para casa.
Ash, homem, matador de demônios, mito.
Ele o encontra, e para poder retornar à nossa época e afastar de vez a ameaça do Exército da Escuridão precisa recitar uma frase mágica ("clatu, verata, nictu", por coincidência o título desse blog, saiba mais clicando aqui). Em sua infinita ignorância, Ash recita as palavras erradas e invoca o tal Exército da Escuridão, e isso é só o início da diversão.
Capa do dvd do terceiro filme (que, infelizmente,
ainda não foi lançado nesse formato aqui no Brasil)
Os três filmes são imperdíveis e o diretor Sam Raimi, levou muita coisa da série Noite Alucinante para os dois filmes do Homem Aranha (como por exemplo, os movimentos alucinados de câmera junto ao herói). Recentemente, vários sites espalharam uma notícia sobre um quarto filme da série estar em produção, mas até o momento nada foi confirmado. Espero ter contribuído para a elevação cultural da sociedade com esta mini-resenha. Uma dica para o final de semana é procurar por qualquer um desses filmes na locadora mais próxima de sua casa, juntar uma galera bem medrosa, encher um baldão de pipoca e assistir.
É satisfação garantida ou o arrependimento de volta.
sexta-feira, 21 de abril de 2006
O behaviorismo é um niilismo?
O que não entra em minha cabeça é: o homem está morto? Quero dizer, se todas as minhas ações são reações ao ambiente, então minhas ações não partem de mim? Dizer que eu me comporto de acordo com um estimulo é retirar de mim aquilo que me qualifica como pessoa, como individuo. O que dizer então a respeito do inconsciente? Ele não existe?
Sei não, mas acho que não é correto pensar que o homem é passivo diante do ambiente. Fazer isso é atribuir-lhe um status de reagente e anulá-lo enquanto criador em potencial; é acreditar que a existência humana é desprovida de qualquer sentido. O ambiente que vai selecionar a ação humana não foi produzido pela própria ação humana? (ou ao menos por meio da intervenção humana?) Não seria então o caso de uma troca? Um movimento da natureza, do qual o homem não está acima dela, mas é parte dela?
Questões...
sexta-feira, 14 de abril de 2006
Questões
Uma multidão de alunos enfurecidos se acotovela diante de uma porta fechada e uma janela semi-aberta. Seus olhos, vazios, distantes e cansados, já não vislumbram qualquer sinal de esperança. Destituídos de vontade própria, eles se contentam em reclamar enquanto aguardam. Afixada à porta encontra-se uma lista. Nela constam os nomes de 130 infelizes, pobres criaturas condenadas a passar a noite clamando pelo nome de um homem: Enrique, El Coordenador.
À direita da janela, outra lista com a relação das disciplinas com vagas disponíveis denuncia os sofrimentos pelos quais aquelas 130 almas estarão condenadas: Psicoparasitologia lingüística, Desaprendizagem Gerativa do Português, Língua Francesa Frita III, Português Extrume-e-tal I, Farsa I e II, etc. Do lado de dentro, funcionários bebem cerveja enquanto assistem avidamente o capítulo da novela.
Diante desse cenário, a 130ª alma da lista observa.
Seus olhos, vazios, distantes e cansados, também já não vislumbram sinal de esperança. A porta se abre, o relógio marca 21h:16min, um dos guardiões de Lúcif..., quer dizer, Enrique chama o próximo que seria atendido, é o felizardo de nº 09!
O 130º infeliz fecha os olhos (aqueles que estão vazios, distantes e cansados, e que já não vislumbram nenhum sinal de esperança), e se deixa levar por um turbilhão de pensamentos:
Por que a vida não pode mais ser simples como quando eu era criança?
O que aconteceu comigo?
Onde está o menino que fui?
Vive em mim ou desapareceu de vez?
Como pude sacanear aquele carinha destemido e cheio de planos que fui um dia?
Quando minha infância se foi por que cargas d’água eu não a acompanhei?
O que aconteceu com o Kichute, a Conga e o Bamba?
E com o Falcon?
Por que não consigo me lembrar do rosto de pessoas que foram importantes em pontos cruciais de minha vida?
Será que existe vida após a morte?
Se não existe vida após a morte, porque nos privamos de viver a vida em toda a sua potencialidade?
Será que existe vida em outro planeta?
Se existe, por que vim nascer justo neste planeta?
Será que lá também tem fila?
Tem coisa mais desanimadora na vida que ficar numa fila sem fim?
Tem coisa mais desanimadora na vida que ficar numa fila sem fim, se você sabe que o que você realmente quer não pode ser atendido?
Quem sabe o que realmente se quer?
A quem eu dirijo estas perguntas?
segunda-feira, 10 de abril de 2006
Lista de pedidos (Wishlist)
Queria ser uma bomba de nêutrons,
ao menos uma vez eu poderia explodir.
Queria ser um sacrifício
que de alguma forma conseguisse sobreviver.
Queira ser o enfeite sentimental que você pendura,
A árvore de Natal,
eu queria ser a estrela que fica no topo,
Queria ser a prova,
Queria ser o motivo
para cinqüenta milhões de mãos
levantadas e abertas em direção ao céu
Queria ser um marinheiro
com alguém esperando por mim
Queria ser tão sortudo,
tão sortudo como eu.
Queria ser um mensageiro,
e que todas as noticias fossem boas
Queria ser a lua cheia
iluminando o capô do seu carro.
Queria ser um alienígena,
em casa atrás do sol,
Queria ser a lembrancinha
que você guarda com a chave da sua casa.
Queria ser o pedal do freio que você confia.
Queria ser o verbo confiar,
e jamais te desapontar.
Queria ser a canção de rádio,
aquela que você aumenta o volume,
Queria...
segunda-feira, 3 de abril de 2006
Casamento
Visto assim, o casamento funcionaria como uma espécie de cura para a solidão e a sensação de vazio. O segundo maior motivo é o desejo de construir um lar que represente conforto e segurança e, em terceiro lugar, estão as pessoas que se casaram porque viram que os outros a sua volta também se casaram.
Com razões tão vazias é muito provável que esses casamentos estejam desfeitos em alguns anos. Talvez seja um sinal dos tempos, ou talvez seja pelo fato de eu andar muito amargo ultimamente, mas acredito que a motivação e os requisitos para que um casamento dê certo mudaram muito. Houve um tempo em que as juras de amor eterno eram a motivação, quase exclusiva, para sustentar as expectativas do sucesso matrimonial, hoje fala-se em “afinidade”, e é aí que está o grande problema, na minha opinião, o matrimônio é uma espécie de despersonalização.
domingo, 2 de abril de 2006
Confissão
esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na
cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
"Hank!"
e Hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas
as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram
coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que
sempre
tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.
Fonte: Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski, com tradução de Jorge Wanderley, pela editora Bertrand Brasil, edição de 2003.
domingo, 26 de março de 2006
As cigarras de Mao Tsé-tung & Lenin
Após anos de observação, acredito que finalmente posso responder essas questões: as cigarras fazem parte de um projeto comunista para dominar o mundo. Isso fica evidente se pensarmos que só existem cigarras no ocidente (quem já tiver visto uma cigarra em Singapura que se pronuncie!). Elas só habitam árvores que ficam próximas a apartamentos ou casas, com o objetivo de transferir informações sobre o mundo capitalista à China Vermelha. Quem já cometeu a nojeira de pegar uma cigarra, pôde perceber que ela é seca e praticamente oca. Ela não sente dor ao ter uma patinha ou uma asa retirada, por exemplo. A dedução mais correta é que se trata de um pequeno computador biocibernético bastante evoluído tecnologicamente (o que você acha que os vermelhos ficaram fazendo desde o fim da Guerra Fria, criando ovelhas? Só se forem as clonadas...)
Todos aqueles chiados que os insetos bolcheviques produzem são as informações sobre o dia-a-dia ocidental em forma de ondas de rádio criptografadas, captadas por satélites russos e traduzidos nos bancos de dados da antiga União Soviética (sim, ela ainda existe) para a central de dados chinesa. Para obter informações dos cromossomos dos burgueses ocidentais, esses animais eliminam pequena quantidade de líquido sobre as pessoas, que passam informações genéticas por meio de microondas aos satélites. Esse líquido é chamado ingenuamente pelo povo de "xixi de cigarra"... Depois que cada cigarra passou suas informações ao governo chinês, ela explode para que as informações armazenadas nela sejam destruídas! Está explicado aqui a função deste irritante biomicrochip. Alguém aí se prontifica a responder qual a função dos vizinhos malas que ouvem o Calypso?
Aqui o flagra de uma cigarra tirando seu disfarce de capitalista. Note a estrela vermelha tatuada no bíceps...
sábado, 11 de março de 2006
A luxúria
Um dia desses eu estava sonambulando pela Internet e encontrei um teste que se propunha a medir o nível dos pecados mais cometidos pela pessoa. Segundo o site (http://www.4degreez.com/misc/seven_deadly_sins.html), incontáveis almas têm sucumbido aos sete pecados capitais (avareza, gula, ira, preguiça, inveja, luxúria e soberba) e o questionário serviria para indicar para qual círculo do inferno você será enviado, ou para servir de alerta para que você mude sua atitude e promova uma mudança de comportamento.
Para minha surpresa, meu destino já foi traçado. Eu cometi (e cometo) muitos pecados, mas a luxúria é o que me condena ao inferno. De acordo com o que Dante descreveu na Divina Comédia, meu cantinho lá em baixo é o segundo círculo, onde as almas dos que pecaram por luxúria são continuamente arrebatadas e atormentadas por um horrível turbilhão de vento.
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Nessa ilustração de Gustave Doré, Virgílio e Dante observam as almas (condenadas pelo pecado da luxúria) sendo carregadas pelo vento. No primeiro plano, pode-se observar um casal em destaque, Paolo e Francesca. Os dois eram cunhados adúlteros que foram surpreendidos e mortos pelo marido traído.
Dante classifica o pecado da luxúria como o menos grave de todos, colocando-o no círculo mais externo (o primeiro círculo não conta, pois nele só havia os sábios, os poetas, etc.). Isso é demonstrado pela compaixão que ele sente pelos pecadores, se emocionando com o relato de Francesca. A ventania foi a grande sacada poética para o pecado: em vida, os amantes eram levados por suas paixões, que os arrastava como o vento que agora os arrasta no inferno.
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Ilustração de William Blake
Como o objetivo desse blog é servir de espaço para minhas divagações e devaneios insones, acho que não serei mal-compreendido se disser que acabo de me lembrar de um artigo do Frei Betto no qual ele trata justamente sobre os pecados capitais. De acordo com ele, a luxúria é a marca registrada da maioria dos clipes publicitários, em que jovens esbeltos e garotas esculturais desfrutam uma vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Ela nasce nos olhos, agita a mente e perturba o coração. O objeto do desejo nos aliena do amor enquanto projeto, aprisionando-nos no jogo narcisista da sedução.
Por mais que eu goste da visão romântica proposta por Dante (aquela de que os luxuriosos levam a vida embalados por suas paixões), tenho que concordar que a visão de Frei Betto é a que melhor se aplica à luxúria em nossos tempos. Ela, é a busca por usar coisas ou pessoas para suprir nossos desejos e necessidades e concentra-se apenas em si mesma; é de natureza egoísta e não aceita compromissos.
E a culpa é das supostas facilidades da vida moderna: elas nos transformaram em autômatos fetichistas controlados pela mídia. Desde pequenos somos programados a buscar a felicidade, mas, não sabemos como encontrá-la e se, por algum acaso do destino a encontramos, não sabemos reconhecê-la. Passamos a vida fazendo coisas que detestamos com o objetivo de ganhar dinheiro para que possamos comprar coisas de que não necessitamos para, assim, impressionarmos pessoas que não nos agradam.
Ah, vida real, como é que eu troco de canal...
domingo, 5 de março de 2006
Os dois filhos do Esmorecimento
Na adolescência, nas aulas com a professora Aflição, descobriram que a felicidade é um delírio que só conhece quem mais sofre. A vontade de se atingir a outra margem do rio por meio de um salto é uma ilusão dos ignorantes que sempre querem um maior querer. Aprenderam que foi essa ilusão que criou os deuses e todas as crenças. Que foi a mente com suas necessidades e maquinações que desesperou o corpo e o suprimiu.
Assim como os gêmeos uni vitelinos, dos quais se diz que podem compartilhar certas sensações, Depressão e Desânimo, cresceram dividindo o pesar e fracasso entre si. Pelo menos, foi isso o que aconteceu quando Desânimo conheceu Esperança e por ela se apaixonou. Esperança surgiu como uma promessa de redenção e redefinição de tudo o que Desânimo havia conhecido até então. Entretanto, Depressão não entendia porque seu irmão se interessara por alguém tão fraco, alguém tão... tão enganado sobre as leis do mundo. Foi então que os laços fraternais se fizeram mais fortes, Desânimo percebeu que Esperança não era para ele: eles eram muito diferentes. Ele sabia que não adiantava lutar por algo se, no final, o fracasso já estava garantido; Ela acreditava que nunca se poderia desistir de algo no qual se acredita....
Dessa forma cresceram e tornaram-se adultos. Desespero conheceu uma moça que compartilhava sua visão de mundo – Ignorância. Juntaram-se, formaram uma banda de rock melódico e atualmente espalham sua mensagem pelo planeta. Depressão finalmente se apaixonou. Casou-se com o Desencanto e teve dois filhos: Desalento e Solidão. E ninguém pode dizer que foram felizes para sempre, pois eles nunca acreditaram na Felicidade.
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