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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Insônia

MLO*
“O que vejo, o que sou e suponho será apenas um sonho num sonho?”
--- Edgar Allan Poe

Quando se sofre de insônia, uma das melhores coisas para se fazer de madrugada é escrever. Ficar plugado no computador, por horas, digitando idéias até que o sono finalmente chegue. Isso geralmente é um problema, mas às vezes até que vem a calhar. É o final do semestre, e eu aproveito a vigília para terminar o último trabalho de literatura. A luz branda do monitor mal ilumina o ambiente e o silêncio só é quebrado pelo telequeteque do teclado. O frio cortante é amenizado pelo chá quente. Estranhamente, a inspiração está fluindo. Minhas considerações finais são armazenadas no documento – estou prestes a concluir meu texto. O frio aumenta. O chá acaba. O corpo cansado pede socorro para o sono. A mente, pouco ágil, precisa de algo que ajude manter a concentração.
Vou até a cozinha, preparo um café forte e volto para o quarto. A xícara fumegante transborda no pires. Sento-me. Para minha surpresa, na telinha, no lugar de meu texto, amontoam-se palavras incoerentes. Meu coração acelera. Putz! Perdi todo o meu trabalho... Serei obrigado a refazê-lo totalmente... Mas como, se não escrevi nenhum rascunho e fui digitando a medida em que as idéias me vinham à cabeça? Tento mudar a página. Subo a barra, desço a barra. O Word fica na mesma. Noto que as palavras estão organizadas duas a duas e sempre obedecendo ao mesmo padrão: “nunca mais”. Imediatamente passo o antivírus e verifico o firewall. Nada é constatado. Desligo o computador. Será que a condição de insone está me pregando uma peça? Estarei pagando o preço por abusar dos limites do corpo? Afinal, já faz três dias que não durmo direito... Sim, deve ser isso... Quando se tem insônia, nada parece ser real. Você nunca está realmente acordado, mas também nunca está realmente dormindo... Sua mente não consegue focalizar um pensamento, pois sempre há vários – tudo se torna disperso. Além disso, o céu e azul a água é molhada e os computadores travam... Novos vírus surgem todos os dias... Talvez, mais tarde, quando estiver devidamente descansado, eu consiga compreender o que aconteceu e seja capaz de perceber que tudo não passa de uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais. Sim, deve ser isso... Que seja, então... Não posso perder tempo. Tenho que recomeçar... Reinício o computador. Concentro meu pensamento. Com muita dificuldade, consigo refazer os tópicos principais. Os olhos ardem. O corpo dói. O sono finalmente chega. Preciso de mais café... 

Esquento a água.
Coloco o pó.
Adoço.
Bebo.
Pronto: adeus sono!
De volta, olho para o monitor – a tela está repleta de “nunca mais”. Minhas mãos tremem. O café amarga na boca. Engulo em seco. Desesperado, tento aplicar um "Ctrl + Alt + Del" no computador. É inútil, uma mancha preta aparece na tela. As palavras “nunca mais” – agora enormes – dissolvem-se como que se fundindo. A impressora começa a vomitar folhas com manchas pretas. A imagem é tal qual o vulto de um pássaro... De súbito, as caixas acústicas emitem um som horrendo – algo como o piar agudo de um pássaro. Tento desconectar o computador da tomada: está grudada. Corro até o telefone: está mudo. Busco a porta da rua: está trancada. Desespero. Penso em gritar: minha voz não sai. Isso está realmente acontecendo? Estou acordado ou sonhando? O som do vento batendo na janela me tira do torpor. Vou até lá. Puxo a cortina. Não consigo avistar nada lá fora, só a escuridão e nada mais... Um relâmpago corta o céu. O raio clareia a visão. Junto à janela um pássaro negro me espreita. Entro em pânico. Fecho a cortina. Volto-me para o quarto em silêncio. Avanço alguns passos e escuto o ruído compassado de uma respiração. Nesse momento, raios brilhantes de luz caem vividamente sobre um vulto. No mesmo momento, vejo seus olhos amarelos. No instante em que olho, uma espécie de dormência, uma sensação gelada instantaneamente percorre meu corpo. Meu peito ofega, meus joelhos batem, meu organismo inteiro torna-se presa de um horror tão sem motivo quanto irracional. Lutando para respirar, sento-me diante do computador. Terei enlouquecido? Eu enxergara, eu havia visto, sem a menor dúvida que o vulto tinha as feições de alguém conhecido, mas, eu tremia, como se estivesse sofrendo um ataque de malária, tomado pela noção de que não eram. Seria possível que aquilo que eu avistara agora fosse apenas uma alucinação, ou o mero resultado de ter praticado de forma tão habitual e constante a abstinência do sono? O que havia naqueles olhos que me confundia tanto assim? Olhei novamente para ter certeza de que estava acordado. Eu contemplava com os olhos arregalados, enquanto meu cérebro rodava, impulsionado por uma multidão de pensamentos incoerentes. Mas, o vulto não estava mais lá... O silêncio é quebrado por uma voz melancólica que pronuncia as seguintes palavras:
Oh! Que minha juventude foi um permanente devaneio!
Meu espírito não despertou, até que veio
o raio de uma Eternidade que trouxesse a aurora.
Sim! Embora fosse esse longo sonho de aflição perdida,
Era melhor que a realidade gélida
da vida desperta, dos que de coração devem ser,
e ainda têm sido, sobre a amável Terra
um caos de profunda paixão, desde o início da vida. 1 

Abaixo a cabeça e fecho os olhos. Preciso me concentrar e encontrar uma explicação lógica para o que está acontecendo – tenho que descobrir motivos para duvidar da evidência de meus sentidos. Lanço-me imediatamente num vórtice de loucura descuidada e insensata que varre tudo de minha memória, exceto as mais tenras recordações. Como se não bastasse ver vultos, agora escuto vozes... Mais uma vez fecho os olhos e tento me concentrar. O pássaro e o vulto, com seus olhos amarelos, não saem de meu pensamento. Assim como o poema sobre a juventude desperdiçada, e as palavras “nunca mais”...O que isso quer dizer? Tenho que limpar minha mente. Sem motivo aparente, apego-me a recordações de minha infância. Quando criança, eu não fui como os outros, e nunca vi como os outros viam... Eu não podia tirar minhas paixões da mesma fonte que eles... O que despertava meu coração para a alegria tinha outra origem... Assim como era outra a razão de minha tristeza... Tudo o que amei, amei sozinho. E da minha infância, da aurora do discernimento entre bondade e maldade, permanece um mistério: Do riacho ou da fonte; do penhasco vermelho da montanha; do sol que girava ao meu redor em seu tom dourado de outono; Do raio do céu ao passar voando por mim; Do trovão e da tempestade, e da nuvem que tomava a forma (quando o céu calmo era azul) de um demônio ante meus olhos.2

Quando finalmente consigo focalizar minha mente, meu corpo é tomado por uma sensação estranha. Sinto-me leve, como se estivesse flutuando, possuído por uma liberdade até então desconhecida, como se de repente não sentisse mais preocupações... Abro meus olhos e, para minha surpresa, já é dia. Terei imaginado tudo isso? Tudo não passou de um pesadelo? Olho para o monitor, meu trabalho está no ponto em que deixei antes de ir preparar o café pela primeira vez. Respiro aliviado e penso comigo mesmo: “foi um sonho e nada mais...”. Vou ao banheiro, tomo um a demorada ducha fria para ter certeza de que estou realmente acordado. Volto para o quarto. Avisto o monitor: pousado sobre ele está um enorme pássaro preto com brilhantes olhos amarelos e, logo abaixo, as palavras “nunca mais” se acumulam na tela...

1. DREAMS, 
Edgar Allan Poe (A tradução apresentada no conto é livre e bem picareta...) 

Oh! that my young life were a lasting dream!
My spirit not awakening, till the beam
Of an Eternity should bring the morrow.
Yes! tho' that long dream were of hopeless sorrow,
'Twere better than the cold reality
Of waking life, to him whose heart must be,
And hath been still, upon the lovely earth,
A chaos of deep passion, from his birth. 
But should it be- that dream eternally
Continuing- as dreams have been to me
In my young boyhood- should it thus be given,
'Twere folly still to hope for higher Heaven. 
 For I have revell'd, when the sun was bright
I' the summer sky, in dreams of living light
And loveliness,- have left my very heart
In climes of my imagining, apart
From mine own home, with beings that have been
Of mine own thought- what more could I have seen? 
 'Twas once- and only once- and the wild hour
From my remembrance shall not pass- some power
Or spell had bound me- 'twas the chilly wind
Came o'er me in the night, and left behind
Its image on my spirit- or the moon
Shone on my slumbers in her lofty noon
Too coldly- or the stars- howe'er it was
That dream was as that night-wind- let it pass. 
I have been happy, tho' in a dream. 
I have been happy- and I love the theme:
Dreams! in their vivid coloring of life,
As in that fleeting, shadowy, misty strife
Of semblance with reality, which brings
To the delirious eye, more lovely things
Of Paradise and Love- and all our own! 
Than young Hope in his sunniest hour hath known. 

2. ALONE, 
Edgar Allan Poe (A tradução apresentada no conto é livre e bem cara-de-pau...)
From childhood's hour I have not been
As others were--I have not seen
As others saw--I could not bring
My passions from a common spring. From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I lov'd, I lov'd alone. Then--in my childhood--in the dawn
From ev'ry depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that 'round me roll'd In its autumn tint of gold--
From the lightning in the sky
As it passed me flying by--
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest Heaven was blue)
Of a demon in my view.

*Texto escrito no já longínquo ano de 2007 e que por qualquer motivo estava nos meus rascunhos esperando ser publicado.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Mini conto kafkiano

Quase nunca Deus, ou quem quer que tenha forjado esse mundo, escuta nossas preces. Ou, se o faz, faz no momento errado, quando o desejo não é mais tão forte ou quando não é mais possível se alegrar com ele. Naquela noite, aproximei-me da igreja com suspeita e, como sempre, apresentei meus pedidos a Deus. Há tanto tempo que pedia, que eu não sabia mais o que oferecer em troca. Voltei para casa e rezei até o amanhecer, e fiz isso com fervor. Eu queria uma coisa, apenas uma coisa e Ele sabia o que era... Quando ela chegou, fiquei mais assustado do que contente. Há tanto tempo a havia pedido ao meu Deus, e há tanto tempo ela me havia sido negado... No entanto, agora pude ver seu rosto. Talvez seja aquilo que dizem no ditado sobre Deus escrever certo por linhas tortas ou sobre Ele saber o que faz... Por uma vida inteira acreditei merecer o Paraíso, mas o monstro que recebi em atendimento às minhas súplicas não pode ter vindo de outro lugar senão do Inferno.

domingo, 5 de março de 2006

Os dois filhos do Esmorecimento

Depressão e Desânimo são irmãos e filhos da Dona Desesperança e de Seu Esmorecimento. São como gêmeos siameses que compartilham o mesmo coração e que, de uma hora para outra, por meio de uma cirurgia, são obrigados a viver em corpos separados. Quando pequenos, ficaram aos cuidados de Dona Tristeza, que lhes ensinou os rudimentos do que seriam as leis mais importantes desse mundo: que é melhor ser triste; que a vida é uma sucessão de frustrações – é uma corrida na qual o último lugar já está reservado desde a largada; que nossa existência é a tentativa infinita de se conseguir atingir objetivos que jamais poderão ser alcançados.

Na adolescência, nas aulas com a professora Aflição, descobriram que a felicidade é um delírio que só conhece quem mais sofre. A vontade de se atingir a outra margem do rio por meio de um salto é uma ilusão dos ignorantes que sempre querem um maior querer. Aprenderam que foi essa ilusão que criou os deuses e todas as crenças. Que foi a mente com suas necessidades e maquinações que desesperou o corpo e o suprimiu.

Assim como os gêmeos uni vitelinos, dos quais se diz que podem compartilhar certas sensações, Depressão e Desânimo, cresceram dividindo o pesar e fracasso entre si. Pelo menos, foi isso o que aconteceu quando Desânimo conheceu Esperança e por ela se apaixonou. Esperança surgiu como uma promessa de redenção e redefinição de tudo o que Desânimo havia conhecido até então. Entretanto, Depressão não entendia porque seu irmão se interessara por alguém tão fraco, alguém tão... tão enganado sobre as leis do mundo. Foi então que os laços fraternais se fizeram mais fortes, Desânimo percebeu que Esperança não era para ele: eles eram muito diferentes. Ele sabia que não adiantava lutar por algo se, no final, o fracasso já estava garantido; Ela acreditava que nunca se poderia desistir de algo no qual se acredita....

Dessa forma cresceram e tornaram-se adultos. Desespero conheceu uma moça que compartilhava sua visão de mundo – Ignorância. Juntaram-se, formaram uma banda de rock melódico e atualmente espalham sua mensagem pelo planeta. Depressão finalmente se apaixonou. Casou-se com o Desencanto e teve dois filhos: Desalento e Solidão. E ninguém pode dizer que foram felizes para sempre, pois eles nunca acreditaram na Felicidade.

sábado, 14 de janeiro de 2006

A ÁRVORE DE NATAL DE CRISTO

Fiodor Dostoiewski

Como sou um romancista, parece que estou imaginando uma história. Digo parece - e sei perfeitamente que imaginei mesmo; mas tenho certeza de que isso aconteceu, não sei onde nem há quanto tempo; e aconteceu justamente na véspera de Natal, nalguma cidade imensa, num dia de frio assassino.
Era uma vez uma criança num porão, um menino de seis anos, ou menos ainda. O pobrezinho acabava de acordar, tremendo de frio sob os farrapos que o cobriam. Quando respirava, uma baforada branca lhe saía pela boca, e ele, sentado no canto da sala, começou a soprar de propósito, para ver a nuvem se mexer. Isso o distraía, mas preferiria comer. Aproximou-se várias vezes do velho colchão de capim, duro e seco como pão de pobre, onde repousava sua mãe doente, com um saco velho como travesseiro. Como ela viera parar ali? Teria de certo chegado de outra cidade e adoecido. A mulher que lhe alugara o porão havia sido presa há dois dias; os outros inquilinos, saído para festejar o Natal. O único que ficara, um trapeiro, há dois dias curtia a bebedeira com que celebrara de antemão o nascimento de Cristo. No outro canto da sala gemia uma octogenária, antiga pajem de crianças, que morria abandonada; não parava de gemer e se lamentar, praguejando contra o garoto, que não ousava aproximar-se. Ele já tentara acordar a mãe várias vezes e no corredor achara bebida, mas nada para comer. A obscuridade aumentava e ninguém vinha acender o fogo. Apalpou o rosto da mãe e ficou surpreso: estava gelada e rígida como uma estátua. "Está fazendo frio", pensou com a mão apoiada no ombro da mãe inerte e assoprou o bafo sobre os dedos para aquecê-los. Pegou então o boné e, evitando fazer barulho, saiu tateando na escuridão, pensando apenas no enorme cachorro que ouvira latir o dia todo, até chegar à rua.
Senhor, que grande cidade! Nunca vira nada assim. Onde ele morava as ruas eram escuras, iluminadas por poucos lampiões e as casas de madeira, baixinhas, ficavam todas fechadas; apenas a noite caía não se encontrava mais viva alma, todos ficavam calafetados dentro de casa e só os cachorros, centenas deles, ganiam ao relento. Mas podiam aquecer-se, davam-lhe de comer... enquanto aqui... Meu Deus! Não acharia nada para comer? E que algazarra, que agitação, que claridade, quanta gente, quantos cavalos e carros... e o frio, que frio! A neblina congela em filetes nas narinas dos cavalos que galopam, com as ferraduras batendo forte nas pedras das ruas, por sobre a neve. Os passantes esbarram um nos outros, empurram-se e - Deus do céu - como lhe dói o estômago vazio e os dedinhos expostos ao frio! Um guarda passa junto dele e se vira para fingir que não o via.
Ainda uma rua: como é larga! Não há dúvida que vai ser esmagado. Todo mundo corre, grita, vai e vem. E a claridade, coisa linda! E o que é isso? Ah! Uma grande vidraça, e por detrás dela um quarto com uma árvore que alcança o teto: é um pinheiro, uma árvore de Natal cheia de luzes e miniaturas de bonecas e cavalinhos. Ali correm crianças bem vestidas que riem, brincam, comem e bebem. Uma menina dança com um menino. Como ela é bonita! Ouve-se uma música através da vidraça. O pequeno olha tudo com espanto e feliz, mesmo lhe doendo os dedos das mãos e dos pés, vermelhos e rígidos. Então ele começa a chorar, as dores aumentam e ele corre para outra vidraça, na qual vê outra árvore enfeitada e ainda mesas cobertas de bolos de todos os tipos, de amêndoas, amarelos, vermelhos, que ricas senhoras distribuem aos convidados. A cada instante a porta se abre para receber homens bem vestidos. Ele caminha para a porta e entra para a sala. Então o expulsam, indignados, aos gritos e gestos agressivos. Uma senhora mete-lhe uma moeda na mão enquanto o empurra para a rua. Que medo! A moeda rola pela escada tilintando pois não conseguira segurá-la, com os dedos imobilizados. Ele se põe a caminhar sem destino, com vontade de chorar e depois corre, soprando o bafo nos dedos. Ao sentir-se tão só e abandonado, deprimido, chora. Mas logo se distrai: Senhor, que será? Quanta gente curiosa, parada, olhando atentamente! Através da vidraça, três bonecos em tamanho natural, vestidos de vermelho e verde, parecem vivos. Sentado, um velho toca violino e os outros dois, de pé, tocam violinos menores, todos meneiam as cabeças em cadência, olham entre si, mexem os lábios e devem falar de verdade, só não se ouve por causa do vidro. O menino pensou até que eram pessoas vivas e se pôs a rir quando percebeu que eram bonecos. Nunca vira bonecos assim, nem de ouvir falar. Eram tão engraçados que calaram o seu pranto.
Mas de repente, alguém o puxou por trás. Era um menino grande e ruim que lhe deu um soco na cabeça, fazendo cair o seu boné. Ele rolou pelo chão e algumas pessoas começaram a gritar. Apavorado levantou-se e correu sem saber para onde. Entrou num porão, que dava num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Ao menos aqui ele não vai me encontrar, está escuro demais."
Encolheu-se todo, sem poder recobrar o fôlego, tanto medo tinha. Subitamente, porque tudo passou num instante, invadiu-o um grande bem estar, as mãos e os pés pararam de doer, e sentiu calor, muito calor, como se estivesse junto de um fogão. Ajeitou-se e logo dormiu. Como era bom dormir ali. "Daqui a pouco vou ver de novo os bonecos", pensou, sorrindo só de lembrar; "poderia jurar que estavam vivos!" Subitamente pareceu-lhe ouvir sua mãe cantar uma antiga canção. "Mamãe, vou dormir. Ah! Como é bom dormir aqui!"
- Vem comigo, vamos ver a Árvore de Natal, meu filho - murmurou uma voz de rara doçura.
Julgou que fosse sua mãe, mas não é ela. Quem então o chamava? Não vê ninguém, mas alguém se abaixou sobre ele, abraçou-o no escuro. Ele estendeu os braços e... de repente - ah! Como tudo ficou resplandescente! Que maravilhosas árvores de Natal! Mas não é um pinheiro, nunca viu árvore assim. Onde estava? Tudo brilha, tudo reluz, e em toda parte vê bonecas - não, não são bonecas, são meninos e meninas, apenas são luminosas. Envolvem-no, fazem roda em torno dele, beijam-no de passagem, seguram-no, levam-no voando; também ele voa e vê sua mãe e lhe sorri:
- Mamãe! Mamãe! Ah! Como está bom aqui!
Abraça os novos companheiros; queria tanto contar-lhes a história dos bonecos detrás da vidraça... Pergunta-lhes quem são, onde estão, rindo e atirando beijos.
- Não sabes? Esta é a Árvore de Natal do Cristo - responderam-lhe. - Todos os anos, neste dia, há uma árvore assim, que Jesus dá às crianças que não tiveram árvores de Natal na terra...
E soube que todas aquelas crianças haviam sido iguais a ele, mas uns morreram gelados nos cestos em que abandonaram nas portas dos palácios de Petersburgo, outros morreram nos asilos das províncias, ou no próprio seio das mães, durante a fome de Samara, ou asfixiados pelo ar contaminado dos cortiços. Mas agora vivem todos como anjos, com o Cristo, e ele os abençoa, num gesto de ternura que se estende às suas pobres mães... Ei-las todas, ao longe, chorando, olhando para os filhos que passam esvoaçando junto delas, beijam-nas de leve, enxugam-lhes as lágrimas pedindo-lhes que não chorem, pois se acham tão bem...
E lá embaixo, na manhã seguinte, os porteiros descobriram o cadáver de um menino gelado perto de um monte de lenha. Procuraram sua mãe... ela morrera um pouco antes dele. Talvez os dois se tenham encontrado no céu...
Por que terei eu imaginado uma história tão pouco razoável, tão pouco nos moldes de escritor sério! E dizer que eu me propunha a contar fatos reais! Mas a questão é justamente essa, sempre me pareceu que tudo isso poderia acontecer, isto é, a parte do porão e do monte de lenha. Quanto à árvore de Natal de Cristo, não poderei afirmar que exista.
Mas, como sou romancista, posso bem imaginar que sim.

DOSTOIEVSKI, Fiodor Mikhailovitch. A árvore de natal de cristo In Maravilhas do conto russo. pp. 89-94, São Paulo Cultrix, 1957

sábado, 5 de novembro de 2005

O arquivo

Victor Giudice

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.
joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-se a disposição.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.
Agora, joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.
Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.
joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.
Uma tarde, quase no fim do expediente, foi chamado no escritório principal.
Respirou descompassado.
- Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor. joão abaixou a cabeça em sinal de modéstia.
- Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.
O coração parava.
- Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.
A revelação deslumbrou-o.
Todos sorriam.
- De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?
Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.
Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacifico, no silêncio do subúrbio.
Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavanderia, pensão.
Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência.
A vida foi passando, com novos prêmios.
Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.
O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho.
Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
- Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias, e sua função, a partir de amanha, será a de limpador de nossos sanitários.
O crânio seco comprimiu-se. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
- Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.
O chefe não compreendeu:
- Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses teráque pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
A emoção impediu qualquer resposta.
joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.
joão transformou-se num arquivo de metal.

GIUDICE, Victor. In Contos jovens, p. 35-37.

sábado, 29 de outubro de 2005

O Horla

Guy de Maupassant

8 de maio. Que dia lindo! Passei a manhã toda deitado na relva, na frente de casa, sob o enorme plátano que a encobre toda. Gosto desta região, de viver aqui, pois aqui estão velhas recordações, aquelas raízes profundas e delicadas que prendem o homem ao solo onde seus antepassados nasceram e morreram, que o ligam às idéias e costumes do lugar e também, à comida às expressões locais, ao cheiro da terra do próprio ambiente.
Adoro a casa onde cresci. Das janelas, vejo o Sena, correndo ao lado do jardim, no outro lado da estrada, quase atravessando minhas terras, o grandioso e extenso Sena, que vai a Rouen e a Havre, apinhado de barcos que passam para lá e para cá.
Lá embaixo, a esquerda, está a grande cidade de Rouen, com seus telhados azuis e pontiagudas torres góticas. Estas últimas são incontáveis, largas ou estreitas, dominadas pela espiral da catedral e cheias de sinos que tocam no ar azul de belas manhãs, enviando até minha casa seu doce e distante tinido, canção de metal que a brisa impele em minha direção, ora forte, ora débil, conforme a intensidade do vento.
Como a manhã estava agradável!
Lá pelas onze horas, uma longa fila de barcos. puxados por um rebocador do tamanho de uma mosca, que mal conseguia resfolegar enquanto soltava espessa fumaça, passou em frente a meu portão.
Depois de duas escunas inglesas. com a bandeira vermelha ondulando ao vento, passou um magnífico barco brasileiro de três mastros, todo branco, muito limpo e lustroso. Saudei-o, sem saber bem por quê, a não ser que a visão do navio deu-me grande prazer.
12 de maio. Tenho estado um pouco febril nos últimos dias e sinto-me doente, ou antes, desalentado.
De onde vêm essas misteriosas influências que transformam a alegria em desânimo e a autoconfiança em acanhamento? Poder-se-ia quase dizer que o ar, o ar invisível, está cheio de forças incompreensíveis, cuja presença misteriosa temos de suportar. Acordo com a melhor disposição, sentindo vontade de cantar. Por quê? Desço até a beira da água e, de repente, depois de andar um pouco, volto para casa infeliz, como se uma desgraça estivesse esperando por mim. Por quê?
Seria um calafrio que me passou pela pele e abalou meus nervos, deixando-me desanimado? Seria a forma das nuvens, a cor do céu ou dos objetos ao redor de mim tão inconstante, que perturbou meus pensamentos, quando passaram diante de meus olhos?
Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem querer, tudo o que manejamos sem sentir, tudo o que encontramos sem ver claramente, tem rápida, surpreendente e inexplicável influência sobre nós e nossos sentidos e, através destes, em nossas idéias e até em nosso coração.
Como esse mistério do Invisível é profundo! Não podemos compreendê-lo com nossos sentidos miseráveis, olhos incapazes de perceber o que for muito grande ou muito pequeno, esteja muito perto ou muito longe: nem os habitantes de uma estrela, nem os de uma gota de água. Nem com ouvidos que nos enganam, pois transmitem-nos as vibrações do ar em notas sonoras. São fadas que realizam o milagre de mudar essas vibrações em sons e, por meio dessa metamorfose, fazem surgir a música que transforma o silencioso movimento da natureza... nem com o sentido do olfato, menos aguçado que o de um cão... nem com o sentido do paladar, que mal percebe a idade do vinho!
Como seria bom se tivéssemos outros órgãos que realizassem outros milagres a nosso favor! Quantas coisas novas poderíamos descobrir a nossa volta!
16 de maio. Positivamente, estou doente! E estava tão bem no mês passado! Estou com febre, horrivelmente febril, ou melhor, em um estado de debilitação febril, que faz a alma sofrer tanto quanto o corpo. Tenho, continuamente, a horrível sensação de perigo iminente, o receio de alguma futura desgraça ou da morte próxima. Pressentimento que é, sem dúvida, o acesso de uma doença ainda desconhecida, que germina na carne e no sangue.
17 de maio. Acabo de consultar o médico, pois não conseguia mais dormir. Ele disse que o pulso estava rápido, os olhos, dilatados, os nervos, à flor da pele, mas que não encontrou sintomas alarmantes. Devo tomar algumas duchas e brometo de potássio.
25 de maio. Nenhuma mudança! Meu estado é realmente estranho. Quando a noite se aproxima, sou invadido por uma incompreensível sensação de intranqüilidade, como se a noite escondesse alguma catástrofe ameaçadora. Janto às pressas e então procuro ler, mas não compreendo as palavras e mal distingo as letras. Caminho de um lado para outro da sala, acabrunhado por uma sensação confusa de medo irresistível, medo do sono e medo da cama.
Lá pelas dez horas subo ao quarto. Assim que entro dou duas voltas à chave e ponho a tranca na porta. Tenho medo... de quê? Até há pouco, não tinha medo de nada... Abro os armários e olho embaixo da cama. Escuto... o quê? Não é estranho que uma simples sensação de mal-estar, a má circulação, talvez a irritação de um filamento nervoso, uma ligeira congestão, um pequeno distúrbio no imperfeito e delicado funcionamento de nosso mecanismo vivo, possa transformar o mais despreocupado dos homens em melancólico e em covarde o mais valente?
Vou para a cama e espero o sono como um homem que espera o carrasco. Com medo, espero sua chegada, o coração bate e as pernas tremem e todo o corpo tem calafrios debaixo do calor das cobertas, até que adormeço de repente, como alguém que mergulhasse em uma poça de água estagnada a fim de afogar-se. Não o sinto vir como antigamente, este traiçoeiro sono que está perto de mim, vigiando-me e que vai agarrar-me pela cabeça, fechar meus olhos e aniquilar-me.
Durmo... bastante tempo... talvez duas ou três horas... Então um sonho... não... um pesadelo apossa-se de mim. Sinto que estou na cama, dormindo... Sinto e sei disso... e sinto também que alguém se aproxima, olha-me, toca-me, sobe em minha cama, ajoelha-se sobre meu peito, toma meu pescoço entre as mãos e o aperta... aperta com toda a força a fim de estrangular-me.
Luto, dominado por aquela terrível sensação de impotência que nos paralisa durante os sonhos. Tento gritar... mas não consigo. Quero mover-me... não consigo. Faço os mais violentos esforços, respiro fundo, para tentar virar-me e derrubar essa criatura que está me esmagando, me sufocando... não consigo!
E, então, acordo de repente, tremendo e banhado em suor. Acendo uma vela e descubro que estou sozinho. Depois dessa crise, que acontece todas as noites, finalmente caio no sono e durmo em paz até de manhã.
2 de junho. Meu estado de saúde piorou. O que está acontecendo comigo? O brometo não está adiantando de nada e as duchas não produzem resultado. As vezes, a fim de ficar bem cansado, embora já esteja bastante fatigado, vou dar um passeio na floresta de Roumare. Costumava pensar que o ar fresco, leve e suave, impregnado do cheiro de ervas e folhas, instilaria sangue novo em minhas veias e daria nova energia a meu coração. Enveredava por uma larga estrada de caça e então seguia na direção de La Bouille, por uma estreita trilha entre duas fileiras de árvores de uma altura descomunal, que formavam um espesso teto de um verde quase negro entre o céu e eu.
Um repentino arrepio percorreu-me a espinha, não de frio, mas um estranho arrepio de agonia. Apressei o passo, apreensivo por estar sozinho na floresta, estupidamente amedrontado sem razão, por causa da completa solidão. De repente pareceu-me estar sendo seguido, que havia alguém nos meus calcanhares, perto, bem perto de mim, próximo o bastante para tocar-me.
Voltei-me precipitadamente, mas estava só. Nada vi atrás de mim, exceto a larga trilha reta, vazia, cercada de altas árvores, horrivelmente vazia; à minha frente também se estendia a perder de vista, parecendo sempre a mesma, terrível.
Fechei os olhos. Por quê? Comecei a rodar como pião, bem depressa. Quase caí e abri os olhos: as árvores dançavam ao meu redor e a terra girava. Fui obrigado a sentar-me. E, então, que idéia estranha! Não sabia de mais nada. Saí para a direita e voltei à avenida que me conduzira ao centro da floresta.
2 de junho. Passei uma noite horrível. Vou partir por algumas semanas, pois sem dúvida uma viagem me fará bem.
2 de julho. Voltei, completamente curado e ainda fiz ótima viagem. Fui ao Mont-Saint-Michel, que ainda não conhecia.
Que vista, quando se chega a Avranches como eu, quase no fim do dia! A cidade está sobre uma colina e fui conduzido ao jardim público, nos limites da cidade. Dei um grito de assombro! Uma enorme baía estendia-se diante de mim, até onde os olhos alcançavam, entre duas colinas que a neblina impedia de serem vistas. No meio dessa imensa baía, sob um claro céu dourado, erguia-se uma estranha colina, sombria e pontiaguda, no meio da areia. O sol acabara de se pôr e, no horizonte ainda flamejante, aparecia o contorno do fantástico rochedo com um fantástico monumento em seu cume.
Quando raiou o dia, fui para lá. Como na noite anterior, a maré estava baixa e vi diante de mim a admirável abadia, cada vez mais próxima. Depois de andar algumas horas, alcancei a enorme massa de rochas sobre a qual se localiza a cidadezinha, dominada pela grande igreja. Depois de subir a rua íngreme e estreita, entrei no mais admirável edifício gótico já construído para Deus na terra, grande como uma cidade, cheio de salas de teto baixo que parecem enterradas sob abóbadas e de grandiosas galerias sustidas por delicadas colunas.
Entrei nessa gigantesca jóia de granito, leve como renda, coberta de torres, com esguios campanários de escadas em caracol, que erguem as estranhas cabeças eriçadas de quimeras, de demônios, de animais fantásticos, com flores monstruosas, para o céu azul durante o dia e negro à noite, e são ligados por arcos finamente entalhados.
Quando cheguei ao ponto mais alto da abadia, disse ao monge que me acompanhava:
Padre, como devem ser felizes aqui! Ao que respondeu:
- Venta muito, monsieur!
Começamos a conversar, enquanto assistíamos à subida da maré, que corria pela areia, e parecia cobri-la com uma couraça de aço.
O monge contou-me histórias, todas as velhas histórias do lugar, lendas, nada mais que lendas.
Uma delas impressionou-me bastante. Os camponeses, aqueles que fazem parte do lugar, dizem que à noite podem-se ouvir vozes nas areias e depois duas cabras balindo, uma com voz forte, a outra com voz fraca. As pessoas incrédulas afirmam que é apenas o grito das aves do mar, que às vezes parecem balidos e, outras, lamentos humanos. Todavia, pescadores que se atrasaram para voltar juram ter encontrado um velho pastor vagando, entre uma maré e outra, pelas areias ao redor da cidadezinha. Traz a cabeça totalmente coberta por um manto e é seguido por um bode com cara de homem e uma cabra com cara de mulher, ambos com longos cabelos brancos, falando sem parar e discutindo em uma língua desconhecida. Calam-se de repente e começam a balir a plenos pulmões.
- Acredita nisso? - perguntei ao monge.
- Não sei ao certo - retrucou.
Continuei:
- Se existem outras criaturas na terra além de nós, como ainda não as conhecemos e por que vocês ainda não as viram? Como é que eu ainda não as vi?
Respondeu:
- Será que vemos a centésima milésima parte do que existe? Olhe aqui, aí está o vento, a maior força que existe na natureza, que derruba homens e edifícios, destrói penhascos e joga grandes navios contra os rochedos, o vento que mata, que assobia, que suspira, que ....... já o viu? Pode vê-lo? Apesar disso, no entanto, ele existe!
Calei-me diante desse raciocínio tão simples. Aquele homem era um filósofo ou, talvez, um tolo. Não saberia dizer qual, exatamente, por isso fiquei quieto. O que dissera, eu já havia pensado muitas vezes.
3 de julho. Dormi mal. Certamente há alguma influência febril aqui, pois meu cocheiro está sofrendo exatamente como eu. Ontem, quando voltei para casa, notei que estava muito pálido e lhe perguntei:
- O que tem, Jean?
- Não consigo repousar, e as noites devoram meus dias. Desde que partiu, monsieur, parece que estou enfeitiçado. Entretanto, os outros criados estão todos bem. Estou com muito medo de ter outro ataque.
4 de julho. Estou de novo doente, pois meu antigo pesadelo voltou. A noite passada, senti alguém inclinando-se sobre mim e sugando minha vida por entre meus lábios. Sim, estava sugando-a de minha garganta, como uma sanguessuga. Depois, levantou-se, saciado, e acordei, tão cansado, esmagado e fraco que não conseguia mover-me. Se isso continuar por mais alguns dias, viajarei novamente.
5 de julho. Será que estou louco? O que aconteceu a noite passada é tão estranho que perco a cabeça só de pensar!
Trancara a porta, como faço todas as noites, e, tendo sede, bebi meio copo de água, notando, por acaso, que a garrafa de água estava cheia até o gargalo.
Fui para a cama e passei por um de meus sonhos terríveis, do qual acordei cerca de duas horas depois, com um choque ainda maior.
Imagine um homem adormecido sendo assassinado e que acorda com uma faca no pulmão e cuja respiração está arquejante, coberto de sangue, que não consegue mais respirar, está quase morrendo e não compreende... aí está.
Tendo recuperado os sentidos, senti sede novamente, por isso acendi uma vela e fui até a mesa onde estava a garrafa de água. Ergui-a e virei-a sobre o copo, mas nada saiu. Estava vazia! Completamente vazia! A princípio não consegui entender absolutamente nada. Mas, de repente, tive uma sensação tão horrível que precisei sentar-me, ou melhor, caí numa cadeira! Saltei da cadeira e olhei à volta, sentei-me de novo, tomado de espanto e medo, em frente à garrafa de cristal. Encarava-a, tentando adivinhar, e minhas mãos tremiam. Alguém bebera a água, mas quem? Eu? Eu, sem dúvida. Só poderia ter sido eu. Nesse caso era sonâmbulo. Vivia, sem saber, a misteriosa vida dupla que nos faz pensar que talvez existam duas criaturas dentro de nós ou que um ser estranho, incompreensível e invisível, anima nosso corpo cativo que o obedece como a nós e mais do que a nós, quando nossa alma está entorpecida.
Quem entenderá minha terrível agonia? Quem entenderá a emoção de um homem, são de espírito, completamente acordado, cheio de bom senso, que procura através do cristal de uma jarra um pouco de água que desapareceu enquanto dormia?
Fiquei nessa posição, até o dia surgir, sem me arriscar a voltar para a cama.
6 de julho. Estou ficando louco. Mais uma vez todo o conteúdo da jarra de água foi tomado durante a noite... ou melhor, eu o bebi!
Mas será que sou eu? Sou eu? Quem poderia ser? Quem? Oh, meu Deus! Estou ficando louco? Quem me salvará?
10 de julho. Acabo de passar por surpreendentes experiências. Decididamente, estou louco! Todavia...
A 6 de julho, antes de ir para a cama, coloquei vinho, leite, água, pão e morangos sobre a mesa. Alguém bebeu, eu bebi, toda a água e um pouquinho do leite, mas o vinho, o pão e os morangos não foram tocados.
Em 7 de julho, repeti a mesma experiência, com os mesmos resultados, e em 8 de julho não deixei água nem leite, e nada foi tocado.
Por fim, 9 de julho, deixei sobre a mesa apenas água e leite, tomando o cuidado de envolver os frascos em musselina branca e de amarrar as tampas. Esfreguei os lábios, a barba e as mãos com grafita e me deitei.
Um sono irresistível se apossou de mim, seguido de um terrível despertar. Não me movera, não havia marcas de grafita nos lençóis. Corri até a mesa. A musselina ao redor dos frascos estava intacta. Desamarrei as tampas, tremendo de medo. Toda a água fora bebida, assim como o leite! Meu Deus! Preciso partir imediatamente para Paris.
Paris, 12 de julho. Devo ter perdido a cabeça nos últimos dias. Devo ser joguete de minha imaginação exacerbada, a menos que seja realmente sonâmbulo ou que tenha estado sob o poder daquelas influências até agora sem explicação, chamadas sugestões. Em todo caso, meu estado mental chegava às raias da loucura, e vinte e quatro horas em Paris bastaram para restaurar meu equilíbrio.
Ontem, depois de resolver alguns negócios e fazer algumas visitas que instilaram em minha alma ar novo e revigorante, terminei a noite no Théâtre-Français. Estava sendo apresentada uma peça de Alexandre Dumas, filho, e sua imaginação ativa e poderosa completou minha cura. É certo que a solidão é perigosa para as mentes ativas. Precisamos de homens que saibam pensar e conversar. Quando ficamos sozinhos por muito tempo, povoamos o espaço com fantasmas.
Pelos bulevares, voltei ao hotel muito bem-humorado. No meio dos empurrões da multidão, pensava, não sem uma ponta de ironia, em meus terrores e conjeturas da semana anterior, porque acreditara (sim, acreditara) que uma criatura invisível vivia debaixo de meu teto. Como nosso cérebro é fraco, como se assusta à toa e é induzido a erro por um pequeno fato incompreensível!
Em vez de dizer apenas: "Não entendo porque não conheço a causa", imaginamos imediatamente mistérios terríveis e forças sobrenaturais.
14 de julho. Festa da República. Passeei pelas ruas, entusiasmado com os fogos e as bandeiras, como uma criança. Ainda assim, é tolice ficar alegre em data marcada, obedecendo a um decreto do governo. O populacho é um imbecil rebanho de carneiros, de uma paciência estúpida ou com uma revolta feroz.
Digam-lhe: "Divirtam-se", e o povo se diverte. Digam-lhe: "Vão lutar com o vizinho", e o povo vai e luta. Digam-lhe: "Votem pelo imperador", e o povo vota pelo imperador. Então digam-lhe: "Votem pela República". e o povo vota pela República.
Os que dirigem o povo também são estúpidos, só que, ao invés de obedecer aos homens, obedecem aos princípios que só podem ser estúpidos, estéreis e falsos, pela simples razão de serem princípios, isto é, idéias consideradas como certas e imutáveis, neste mundo, onde não se tem certeza de nada, já que a luz é uma ilusão, já que o barulho é uma ilusão.
16 de julho. Ontem vi uma coisa que me deixou muito preocupado.
Jantava em casa de minha prima, Mme. Sable, cujo marido é coronel no 76° Batalhão de Caçadores, em Limoges. Estavam lá duas jovens, uma delas casada com um médico, Dr. Parent, especialista em doenças nervosas e que dá muita atenção às notáveis manifestações causadas pela influência do hipnotismo e da sugestão.
Contou-nos com alguns detalhes os maravilhosos resultados obtidos por cientistas ingleses e médicos da escola de Nancy, e os fatos que expôs pareceram-me tão estranhos que me declarei completamente incrédulo.
- Estamos prestes a descobrir um dos mais importantes segredos da natureza, isto é, um dos mais importantes segredos nesta terra, pois certamente existem outros, de outra espécie de importância, lá em cima, nas estrelas - disse ele. - Desde que o homem começou a pensar, desde que conseguiu expressar e anotar os pensamentos, tem-se sentido próximo a um mistério inacessível a seus sentidos incompletos e imperfeitos. Procura, então, suprir a ineficiência dos sentidos por meio do intelecto. Enquanto o intelecto manteve-se em um estágio rudimentar, as aparições dos espíritos invisíveis assumiam formas comuns, embora assustadoras. Daí surgiu a crença popular no sobrenatural, as lendas das almas penadas, fadas, gnomos, fantasmas, posso mesmo dizer, a lenda de Deus, pois nossa concepção do artífice-criador, seja qual for a religião que no-la transmitiu, é certamente a mais vulgar, estúpida e inacreditável invenção que já saiu do cérebro amedrontado dos seres humanos. Nada é mais verdadeiro do que o dito de Voltaire: "Deus criou o homem à Sua imagem, mas o homem pagou-lhe na mesma moeda". Entretanto - continuou o Dr. Parent -, há cerca de um século, os homens parecem pressentir algo novo. Mesmer e outros conduziram-nos a uma trilha inesperada e, principalmente nos últimos dois ou três anos, conseguimos resultados realmente surpreendentes.
Minha prima, também muito incrédula, sorriu, e o Dr. Parent disse-lhe:
- Gostaria que eu tentasse fazê-la dormir, madame?
- Sim, certamente.
Ela sentou-se em uma poltrona, e ele começou a olhá-la fixamente, como se quisesse encantá-la. Comecei a sentir-me pouco à vontade, com o coração batendo e uma sensação sufocante na garganta. Vi os olhos de Mme. Sable tornarem-se pesados, a boca crispar-se e o peito arfar. Em dez minutos estava dormindo.
- Fique atrás dela - disse-me o médico.
Sentei-me atrás dela. Pôs um cartão de visitas entre as mãos dela e lhe disse:
- Isto é um espelho. O que vê nele?
Ela respondeu: - Vejo meu primo.
- O que ele está fazendo?
- Torcendo o bigode.
- E agora?
- Está tirando uma fotografia do bolso.
- Fotografia de quem?
- Dele mesmo.
Era verdade. A fotografia fora-me entregue no hotel aquela noite.
- Como é a foto?
- Ele está em pé, com o chapéu na mão.
Enxergava, pois, naquele cartão, naquele pedaço de papelão branco, como se olhasse através de um espelho.
As jovens ficaram assustadas e exclamaram: - Chega! Já chega!
Mas o médico ordenou a Mme. Sable: - Levante-se amanhã às oito horas, vá visitar seu primo no hotel e peça-lhe cinco mil francos emprestados que seu marido está precisando e que exigirá da senhora quando partir para a próxima viagem.
Depois disso, o médico acordou-a.
Na volta ao hotel, fui meditando sobre essa curiosa sessão. Enchia-me de dúvidas, não quanto à absoluta e sincera boa-fé de minha prima, pois conhecia-a como a uma irmã desde criança, mas quanto a um possível truque da parte do médico. Não teria, talvez, um espelho escondido na mão, mostrando<> à jovem adormecida, ao mesmo tempo que mostrou o cartão? Os mágicos fazem coisas desse tipo.
Cheguei ao hotel e fui para a cama. Esta manhã, mais ou menos às oito e meia, o criado de quarto acordou-me e disse-me:
Mme. Sable pede para vê-lo imediatamente, monsieur. - Vesti-me às pressas e fui recebê-la.
Sentou-se um tanto preocupada, de olhos baixos e, sem erguer o véu do chapéu, disse-me: - Caro primo, vim pedir-lhe um grande favor.
- Que favor, minha prima?
- Não quero pedir-lhe, mas tenho de fazê-lo. Preciso urgentemente de cinco mil francos.
- O quê? Você?
- Sim, eu, ou melhor, meu marido pediu-me para consegui-los.
Fiquei tão atônito que gaguejava as respostas. Perguntava-me se ela não estaria zombando de mim, juntamente com o Dr. Parent, se tudo não seria apenas uma bem ensaiada farsa. Olhando-a atentamente, entretanto, todas as minhas dúvidas desapareceram. Estava trêmula de desgosto, pois essa atitude lhe era penosa, e percebi que a garganta lhe travava os soluços.
Sabia que era muito rica, por isso continuei: - Como? Seu marido não tem cinco mil francos à disposição? Vamos, pense. Tem certeza de que ele a encarregou de consegui-los?
Hesitou alguns segundos, como se fizesse grande esforço de memória e respondeu: - Sim... sim, tenho certeza.
- Ele lhe escreveu?
Hesitou novamente e refletiu. Percebi a tortura de seus pensamentos. Não sabia. Sabia apenas que tinha de conseguir comigo cinco mil francos emprestados para seu marido. Assim, mentiu:
- Sim, escreveu-me.
- Rogo-lhe que me diga quando ele o fez. Não falou sobre isso ontem.
- Recebi a carta hoje pela manhã.
- Pode mostrá-la para mim?
- Não... não... continha assuntos íntimos... coisas muito pessoais... Queimei-a.
- Então seu marido está endividado?
Hesitou mais uma vez e murmurou: - Não sei.
Disse-lhe sem cerimônia: - No momento não posso dispor de cinco mil francos, cara prima.
Deu um grito, como se estivesse sentindo alguma dor e disse:
- Oh, suplico-lhe, rogo-lhe que os consiga para mim...
Parecia perturbada e juntava as mãos como a implorar-me! Sua voz mudou de tom. Chorava e gaguejava, inquieta e dominada pela ordem irresistível que recebera.
- Por favor, imploro-lhe... se soubesse o que estou sofrendo... preciso do dinheiro hoje.
Fiquei com pena: - Você terá daqui a pouco, juro.
- Obrigada, obrigada. Agradeço-lhe muito.
- Lembra-se do que aconteceu em sua casa ontem à noite? - continuei.
- Sim.
- Lembra-se de que o Dr. Parent fez você dormir?
- Sim.
- Muito bem então. Mandou que viesse procurar-me esta manhã e pedisse cinco mil francos emprestados. Neste momento, você está obedecendo a essa sugestão.
Refletiu por alguns momentos e respondeu: - Mas é como Se meu marido precisasse deles...
Durante uma hora tentei convencê-la, sem conseguir. Quando se foi, procurei o médico. Estava de saída, ouviu-me com um sorriso e disse: - Acredita, agora?
- Sim, não tenho outra saída.
- Vamos à casa de sua prima.
Ela já estava meio adormecida em uma espreguiçadeira, vencida pelo cansaço. O médico tomou-lhe o pulso, observou-a por algum tempo, com a mão erguida em frente aos olhos dela. Sob a irresistível influência de sua força magnética, fechou os olhos. Quando adormeceu, o médico disse:
- Seu marido não precisa mais dos cinco mil francos. Deve, portanto, esquecer que os pediu emprestado a seu primo e, se ele tocar no assunto, não entenderá de que se trata.
Acordou-a. Peguei a carteira e disse: - Aqui está o que me pediu esta manhã, cara prima.
Ficou tão surpresa, que não me atrevi a insistir. Contudo, tentei fazê-la lembrar-se do que acontecera. Negou energicamente, achando que me divertia às suas custas e, no fim, quase perdeu a paciência.
Pronto! Acabo de chegar e não consegui almoçar, pois essa experiência deixou-me completamente abalado.
19 de julho. As pessoas a quem contei essa aventura riram-se de mim. Não sei mais o que pensar. Diz o sábio: "Pode ser!"
21 de julho. Jantei em Bougival e passei a noite em um baile de barqueiros. Decididamente, tudo depende do local e do ambiente. Seria muita tolice acreditar no sobrenatural quando se está na Île de la Grenouilliére... mas, e no Mont-Saint-Michel?... e na Índia? Somos terrivelmente influenciados pelo que nos rodeia. Na semana que vem, voltarei para casa.
30 de julho. Voltei ontem para casa. Tudo vai bem.
2 de agosto. Nada de novo. O tempo está esplêndido e passo os dias a olhar o Sena.
4 de agosto. Desavenças entre os criados. Alegam que à noite os copos são quebrados nos armários. O criado acusa o cozinheiro, que acusa a costureira, que acusa os outros dois. Quem é o culpado? Só alguém muito esperto poderia dizer.
6 de agosto. Desta vez não estou louco. Eu vi... eu vi... não posso mais duvidar... eu o vi!
As duas horas, em pleno sol, passeava entre as roseiras... entre as rosas de outono que começam a cair. Quando parei para olhar um géant de bataille, com três rosas esplêndidas, vi perfeitamente a haste de uma das rosas perto de mim inclinar-se, como se uma mão invisível a forçasse a quebrar-se, como se estivesse sendo colhida! Então, a flor ergueu-se, seguindo a curva que a mão teria feito ao levá-la até a boca e permaneceu suspensa no ar, sozinha e imóvel, terrível mancha vermelha, quase diante de meus olhos. Em desespero, corri para agarrã4a. Nada achei, ela desaparecera! Fiquei com muita raiva de mim mesmo, pois um homem sério e razoável não deveria ter tais alucinações.
Mas seria uma alucinação? Voltei-me para olhar a haste e encontrei-a imediatamente, na roseira, quebrada de pouco, entre duas rosas que continuavam no galho. Voltei para casa, bastante perturbado, pois estou certo agora, como certo estou da alternância entre o dia e a noite, de que existe perto de mim uma criatura invisível, que vive a leite e água, pode tocar objetos, pegá-los e mudá-los de lugar, sendo, portanto, dotado de natureza material, embora seja imperceptível a nossos sentidos. Vive como eu, debaixo de meu teto...
7 de agosto. Dormi tranqüilamente. Ele bebeu a água da garrafa, mas não perturbou meu sono. Pergunto a mim mesmo se não estarei louco. Agora mesmo, passeando ao sol à beira do rio, tive dúvidas quanto a minha sanidade. Não dúvidas vagas como as que tive ultimamente, mas dúvidas absolutas e precisas. Já vi gente louca e conheci alguns loucos que são inteligentes, lúcidos, até mesmo perspicazes em tudo, exceto em um ponto. Falavam pronta, clara e profundamente sobre todos os assuntos, até que, de repente, a mente ia de encontro aos escolhos de sua loucura, partia-se ali e se dispersava e debatia naquele mar furioso e terrível, cheio de ondas agitadas, de neblina e pés-de-vento, que se chama Loucura.
Com certeza eu deveria pensar que estava louco, completamente louco, se não estivesse consciente, não conhecesse perfeitamente meu estado, não o analisasse com a mais completa lucidez. De fato, devo ser apenas um homem racional, sofrendo uma alucinação. Deve ter surgido em minha mente algum distúrbio desconhecido, um dentre aqueles que os fisiólogos modernos tentam observar e confirmar. Esse distúrbio deve ter causado profunda brecha na minha mente e na seqüência lógica das idéias. Fenômenos semelhantes acontecem nos sonhos que nos levam a imaginar coisas irreais, sem nos causar surpresa, porque o aparelho de verificação, nosso órgão de controle está adormecido, enquanto a faculdade da imaginação está acordada e ativa.
Não é possível que uma das imperceptíveis unidades do teclado cerebral tenha ficado paralisada em mim? Alguns homens perdem a lembrança de nomes próprios, de verbos ou números, os simplesmente de datas, como conseqüência de algum acidente. A localização de todas as variações de pensamento já está estabelecida atualmente. Por que, então, seria surpreendente se minha faculdade de controlar a irrealidade de algumas alucinações estivesse temporariamente adormecida?
Pensava em tudo isso, enquanto andava pela beira da água. O sol brilhava intensamente sobre o rio e tornava a terra agradável, enchendo-me de amor pela vida, pelas andorinhas cuja agilidade sempre encanta meus olhos, pelas plantas à beira do rio, de cujas folhas o farfalhar é um prazer aos ouvidos.
Aos poucos, entretanto, uma indefinível sensação de mal-estar se apossava de mim. Parecia que uma força desconhecida estava me entorpecendo e detendo, impedindo-me de seguir adiante e chamando-me de volta. Senti aquele penoso desejo de voltar que nos oprime quando deixamos um doente querido em casa e somos tomados por um pressentimento de que piorou.
Assim, voltei contra a minha vontade, certo de que encontraria alguma má noticia à espera, talvez uma carta ou telegrama. Não havia nada, e fiquei mais surpreso e inquieto do que se tivesse tido outra visão fantástica.
8 de agosto. Ontem, passei uma noite horrível. Não se mostra mais, porém, sinto-o perto de mim vigiando-me, olhando-me, penetrando-me, dominando-me, e mais temível quando se oculta dessa forma do que se manifestasse sua presença constante e invisível através de fenômenos sobrenaturais. Entretanto, consegui dormir.
1 de agosto. Nada, mas estou com medo.
10 de agosto. Nada. O que acontecerá amanhã?
11 de agosto. Nada ainda. Não consigo ficar em casa com este medo pairando sobre mim e estes pensamentos na cabeça. Vou embora.
12 de agosto. Dez horas da noite. O dia todo tentei partir e não consegui. Gostaria de realizar este simples e fácil ato de liberdade - sair -, entrar em meu carro e partir para Rouen... e não consigo. Por que razão?
13 de agosto. Quando somos atacados por certas doenças, todas as molas de nosso corpo parecem estar quebradas, todas as nossas energias, destruídas, todos os nossos músculos, relaxados. Nossos ossos amolecem como carne, e o sangue vira água. Estou tendo essas sensações em minha existência moral de modo estranho e angustioso. Não tenho mais força, coragem, autocontrole, nem mesmo o poder de exercer minha vontade. Não tenho mais vontade de nada, mas alguém a tem por mim e eu lhe obedeço.
14 de agosto. Estou perdido. Alguém possui minha alma e a domina. Alguém ordena todos os meus atos, todos os meus movimentos, todos os meus pensamentos. Não sou mais nada, exceto espectador escravizado e amedrontado de tudo o que faço. Quero sair, não posso. Ele não quer, e assim permaneço, trêmulo e perplexo, na poltrona onde ele me mantém sentado. Desejo apenas levantar-me e me animar, mas não posso! Estou preso à cadeira, e esta adere ao chão de tal maneira que não existe força capaz de mover-nos.
De repente, sinto que devo, preciso ir ao fundo do quintal colher morangos e comê-los, e lá vou eu. Colho os morangos e como-os! Meu Deus! Meus Deus! Deus existe? Se existe, libertai-me! Salvai-me! Socorrei-me! Perdão! Piedade! Misericórdia! Salvai-me! Quanto sofrimento! Que tormento! Que horror!
15 de agosto. Então era desse modo que minha pobre prima se encontrava, e era controlada, quando veio pedir-me os cinco mil francos emprestados. Estava sob o poder de uma estranha vontade que entrara dentro dela, como outra alma, como outra alma parasita e dominadora. Será que o mundo está para acabar?
Mas quem é ele, este ser invisível que me governa? Este ser irreconhecível, este pirata de raça sobrenatural?
Existem, então, seres invisíveis! Por que não se manifestaram desde o começo do mundo, precisamente como fazem comigo? Nunca li nada parecido com o que acontece em minha casa. Oh, se pudesse deixá-la, se pudesse ir embora, fugir e nunca mais voltar! Estaria salvo, mas não posso.
16 de agosto. Hoje consegui escapar por duas horas, como um prisioneiro que, por acaso, encontra a porta da masmorra aberta. De repente, senti que estava livre e que ele estava muito longe; assim, dei ordens para atrelar os cavalos o mais depressa possível e partir para Rouen. Como é agradável conseguir dizer a um homem que nos obedece: - Vá... a Rouen!
Mandei parar em frente à biblioteca e pedi que me emprestassem o tratado do Dr. Hermann Herestauss sobre os habitantes desconhecidos do mundo antigo e moderno.
Ao voltar para o coche, pretendia dizer: "Para a estação!", em vez disso gritei... não disse, gritei, tão alto que os passantes voltaram-se: - Para casa! - e caí para trás, na almofada do carro, tomado de angústia. Ele voltara a me encontrar e retomara a posse de mim.
17 de agosto. Ah, que noite! Que noite! E contudo parece-me que devia alegrar-me. Li até a uma da manhã! Herestauss, doutor em Filosofia e Teogonia, escreveu a história da manifestação todos esses seres invisíveis que pairam em volta dos homens ou com quem os homens sonham. Descreve sua origem, domínio, poder, mas nenhum se assemelha ao que me assedia. Pode-se dizer que, desde que começou a pensar, o homem pressente um novo ser, mais forte, seu sucessor neste novo mundo e que, sentindo sua presença e não conseguindo prever a natureza desse mestre, criou toda uma raça de seres ocultos, de vagos fantasmas, nascidos do medo.
Depois de ler até a uma da manhã, sentei-me à janela aberta, a fim de refrescar a fronte e os pensamentos, no ar calmo da noite agradável e quente. Como teria apreciado semelhante noite em outros tempos!
Não havia lua, mas as estrelas lançavam sua luz no céu escuro. Quem habita esses mundos? Que formas, que seres vivos, que animais existem lá em cima? O que sabem os pensadores naqueles mundos distantes que não sabemos? O que podem fazer, e nós não? O que vêem que não conhecemos? Será que um deles, algum dia, atravessando o espaço, aparecerá na Terra para conquistá-la, exatamente como os escandinavos cruzaram o mar a fim de conquistar nações mais fracas do que eles?
Somos tão fracos, tão indefesos, tão ignorantes, tão pequenos, nós que vivemos nesta partícula de lama que gira em uma gota de água!
Adormeci assim, sonhando no fresco ar da noite, e depois de dormir cerca de três quartos de hora abri os olhos sem me mexer, acordado por não sei que confusa e estranha sensação. A princípio não vi nada, mas de repente tive a impressão de que uma página do livro que ficara aberto sobre a mesa virou-se sozinha. Nenhuma aragem passara pela janela, por isso, surpreso, esperei. Depois de uns quatro minutos, eu vi, eu vi, sim, vi com meus próprios olhos, outra página levantar-se e cair sobre as outras, como se um dedo a tivesse virado. A poltrona estava vazia, parecia vazia, mas sabia que ele estava lá. Sentado em meu lugar e lendo. Com um pulo, o pulo furioso de um animal selvagem enraivecido, que salta sobre o domador, atravessei a sala para agarrá-lo, estrangulá-lo, matá-lo! Porém, antes que pudesse alcançá-la, a cadeira virou-se como se alguém tivesse fugido de mim... a mesa balançou, a lâmpada caiu e se apagou e a janela fechou-se, como se um ladrão tivesse sido surpreendido e fugido noite afora, fechando-a atrás de si.
Então ele fugira. Tivera medo, medo de mim!
Mas... mas... amanhã... ou mais tarde... algum dia... conseguirei agarrá-lo e esmagá-lo contra o chão! Às vezes os cães não mordem e estraçalham o dono?
18 de agosto. Estive pensando o dia todo. Sim, vou obedecer-lhe, seguir seus impulsos, realizar seus desejos, mostrar-me humilde, submisso, covarde. Ele é o mais forte, mas há de chegar a hora...
19 de agosto. Eu sei... eu sei... eu sei tudo! Acabei de ler o seguinte, na Revue du Monde Scientifique: "Curiosa noticia chega-nos do Rio de Janeiro. Loucura, uma epidemia de loucura, comparável à loucura contagiosa que atacou a população da Europa, na Idade Média, está, neste momento, grassando na província de São Paulo. Os habitantes, aterrorizados, abandonam suas casas, dizendo que estão sendo perseguidos, possuídos, dominados como gado humano por seres invisíveis, mas tangíveis, uma espécie de vampiro, que se alimenta da vida deles enquanto estão dormindo, e que, além disso, bebe água e leite, sem aparentemente tocar nenhum outro alimento.
"O professor Pedro Henrique, acompanhado por vários médicos, foi à província de São Paulo, a fim de estudar a origem e as manifestações dessa surpreendente loucura, no local, e propor ao imperador as medidas que lhe pareçam mais cabíveis para fazer com que a população recupere a razão."
Ah! ah! lembro-me agora daquele belo navio brasileiro de três mastros que passou em frente às minhas janelas, subindo o Sena no dia 8 de maio passado! Achei que parecia tão formoso, tão branco e brilhante! Aquele Ente estava a bordo, vindo de lá, onde sua raça se originou. E me viu! Viu minha casa, também branca, e saltou do navio para terra. Oh, céu misericordioso!
Agora sei, posso adivinhar. O reino do homem acabou, e ele chegou. Ele, que era temido pelo homem primitivo, ele, que padres preocupados exorcizavam, que feiticeiras evocavam em noites escuras, sem tê-lo visto aparecer, a quem a imaginação dos senhores provisórios do mundo emprestavam todas as monstruosas ou graciosas formas de gnomos, espíritos, gênios, fadas e almas familiares. Depois dos conceitos imprecisos baseados no medo primitivo, homens mais sensíveis anteviram-no mais claramente. Mesmer o pressentiu, e, há dez anos, médicos descobriram, com precisão, a natureza de sua força, antes mesmo que ele a exercesse. Divertiram-se com essa nova arma do Senhor, o domínio de uma vontade misteriosa sobre a alma humana que se tornara escrava.
Chamaram-no de magnetismo, hipnotismo, sugestão... sei lá! Vejo-os divertindo-se, como crianças imprudentes, com essa força terrível! Ai de nós! Ai dos homens! Ele chegou, o... o... como se chama... o... Imagino que está gritando seu nome e não consigo ouvi-lo... o... sim... está gritando... estou ouvindo... Não consigo... Ele o repete... o... Horla... ou,... o Horla... ele chegou!
Ah! O abutre devorou a pomba, o lobo devorou o cordeiro, o leão devorou o búfalo de chifres pontiagudos. O homem matou o leão com a flecha, com a espada, com a pólvora. Mas o Horla fará do homem o que fizemos do cavalo e do boi: objeto, escravo e alimento, só porque é sua vontade. Ai de nós!
Contudo, às vezes, o animal revolta-se e mata o homem que o subjugou. Eu também gostaria de... serei capaz de... mas preciso conhecê-lo, tocá-lo, vê-lo! Os cientistas afirmam que os olhos dos animais, sendo diferentes dos nossos, não distinguem os objetos da mesma forma que nós. E meus olhos não conseguem distinguir esse recém-chegado que me oprime.
Por quê? Agora me lembro das palavras do monge do Mont-Saint-Michel: "Será que vemos a centésima milionésima parte do que existe? Veja, lá está o vento, a maior força da natureza, que derruba homens e edifícios, desenraiza árvores, faz o mar erguer-se como montanhas de água, destrói penhascos e joga grandes navios contra as ondas. O vento que mata, que assobia, que suspira, que ruge... já o viu? Consegue vê-lo? Contudo, ele existe".
E continuei a pensar: "Meus olhos são tão fracos, tão imperfeitos, que nem mesmo distinguem corpos sólidos, se estes forem transparentes como o vidro! Se não houver um papel prateado atrás de um vidro em meu caminho, colidirei com ele, da mesma forma que um pássaro, voando para dentro de uma sala, bate a cabeça contra a vidraça". Existem mil coisas que enganam o homem e o induzem ao erro. Por que haveria de ser surpreendente o fato de não conseguir perceber um corpo desconhecido que a luz consegue atravessar?
Um novo ser! Por que não? Com certeza estava destinado a vir! Por que deveríamos ser os últimos? Não o distinguimos mais do que todos os outros criados antes de nós! Isso acontece porque sua natureza é mais perfeita, tem o corpo mais apurado e mais bem acabado que o nosso, tão fraco, de construção tão desajeitada, atravancado de órgãos que estão sempre cansados, sempre tenso como um mecanismo muito complicado, que vive como planta e como animal, nutrindo-se com dificuldade de ar, ervas e carne, máquina animal vitima de doenças, má-formação, decadência; arquejante, mal-regulado, simples e extravagante, originalmente malfeito, obra ao mesmo tempo grosseira e delicada, esboço irregular de uma criatura que poderia tornar-se inteligente e grandiosa.
Somos apenas alguns, tão poucos neste mundo, da ostra ao homem. Por que não poderîa haver mais um, uma vez passada a época que separa as sucessivas aparições de todas as espécies diferentes?
Por que não mais um? Por que não, também, outras árvores com flores imensas e esplêndidas, perfumando regiões inteiras? Por que não outros elementos além do fogo, ar, terra e água? Existem quatro, só quatro, amas-secas de seres diferentes! Que pena! Por que não existem quarenta, quatrocentos, quatro mil? Como tudo é pobre, mesquinho e miserável! Produzido de má vontade, construído irregularmente, inabilmente feito! Ah, o elefante e o hipopótamo, que graça! E o camelo, que elegância!
Mas a borboleta, dirão, uma flor voadora? Sonho com uma tão grande como cem universos, com asas cuja forma, beleza, e movimentos não consigo nem mesmo exprimir. Porém a vejo... esvoaça de uma estrela a outra, refrescando-as e perfumando-as com a aragem leve e harmoniosa de seu vôo! E as pessoas lá em cima olham-na quando passa em um êxtase de prazer!
O que está acontecendo comigo? É ele, o Horla, que me persegue e que me faz pensar essas tolices! Está dentro de mim, está se transformando em minha alma. Pretendo matá-lo!
19 de agosto. Vou matá-lo. Eu o vi! Ontem, sentei-me à mesa e fingi escrever com bastante atenção. Sabia muito bem que viria rondar-me, bem perto de mim, tão perto que, talvez, conseguisse, tocá-lo, agarrá-lo. E então... então eu conseguiria a força do desespero. Teria as mãos, os joelhos, o peito, a fronte, os dentes para estrangulá-lo, esmagá-lo, morde-lo, fazê-lo em pedaços. E o aguardava com todos os sentidos alerta.
Acendera as duas lâmpadas e as oito velas de cera sobre a lareira, como se com toda essa luz pudesse descobri-lo.
À minha frente, estava a cama, a velha cama de colunas de carvalho; à direita, a lareira; à esquerda, a porta, fechada cuidadosamente, depois que a deixei aberta algum tempo, a fim de atrai-lo; atrás de mim, estava o guarda-roupa, muito alto, com o espelho diante do qual fazia a barba e me vestia todos os dias e no qual costumava ver-me de relance, da cabeça aos pés, toda vez que passava diante dele.
Fingia estar escrevendo a fim de enganá-lo, pois ele também me vigiava e, de repente, senti... tinha certeza de que estava lendo por cima de meu ombro, que estava lá, roçando minha orelha.
Levantei-me com as mãos estendidas e virei-me tão depressa que quase caí. Quê! Bem? Estava claro como se fosse o meio-dia, mas não conseguia ver meu reflexo no espelho! Estava vazio, claro, profundo, cheio de luz! Só que minha imagem não estava refletida nele... E eu, eu estava na frente do espelho! Examinei o grande e claro espelho, de cima a baixo, olhei-o com olhos vacilantes. Não ousei aproximar-me, não me arrisquei a fazer um movimento sequer, sentindo que ele estava ali, mas que novamente me escapara, ele cujo corpo imperceptível absorvera meu reflexo.
Como eu estava amedrontado! E então, subitamente, comecei a ver-me através de uma névoa no fundo do espelho, uma névoa que parecia um lençol de água. Parecia-me que a água escorria mais clara a todo momento. Era como o fim de um eclipse. O que quer que ocultasse minha imagem não parecia possuir contornos definidos, mas uma espécie de transparência opaca que ia clareando aos poucos.
Afinal, consegui distinguir meu reflexo completamente, como acontece todos os dias quando me olho no espelho.
Eu o vira! O horror dessa visão ficou comigo e, mesmo agora, faz-me tremer.
20 de agosto. Como poderia matá-lo, se não consegui agarrá-lo? Veneno? Mas ele me veria misturá-lo à água, e então teria nosso veneno algum efeito em seu corpo impalpável? Não... não há dúvida sobre isso... Então... então...
21 de agosto. Chamei um ferreiro de Rouen e encomendei venezianas de ferro para meu quarto, iguais às que alguns hotéis de Paris têm no andar térreo, para impedir a entrada de ladrões, e ele também vai fazer-me uma porta de ferro. Estou parecendo covarde, mas não me importo!
10 de setembro. Rouen, Hotel Continental. Está feito... está feito... mas será que está morto? O que vi deixou-me a mente completamente abalada.
Bem, ontem, depois que o serralheiro colocou as venezianas e a porta de ferro, deixei tudo aberto até a meia-noite, embora estivesse esfriando.
De repente, senti que ele estava lá, e uma alegria, uma louca alegria apossou-se de mim. Levantei-me silenciosamente e andei algum tempo de um lado para outro, para que ele não suspeitasse de nada. Tirei as botas e calcei os chinelos despreocupadamente, fechei as venezianas de ferro, fui até a porta, tranquei-a rapidamente com um cadeado e guardei a chave no bolso.
Percebi de súbito que ele se movia nervosamente a minha volta, que, por sua vez, estava amedrontado e ordenava-me que o deixasse sair. Quase lhe obedeci. Em vez disso, entretanto, com as costas contra a porta, abri-a apenas o suficiente para poder sair de costas e, como sou muito alto toquei a esquadria com a cabeça. Estava certo de que ele não tinha conseguido escapar e deixei-o fechado sozinho, completamente sozinho. Que felicidade! Conseguira prende-lo. Então corri para baixo, para a sala de visitas que ficava embaixo do meu quarto. Peguei os dois lampiões e despejei todo o querosene no tapete, na mobília, em toda parte. Toquei fogo e fugi, depois de trancar cuidadosamente a porta.
Escondi-me no fundo do quintal, em uma moita de louros. Como parecia demorar! Tudo estava escuro, silencioso, imóvel, sem a mais leve brisa, sem uma estrela, somente camadas de nuvens, que não se podia ver, mas que pesavam, oh, como pesavam, em minha alma.
Fiquei esperando, olhando para a casa. Como demorava! Começava a pensar que o fogo se apagara sozinho, ou que ele o extinguira, quando uma das janelas do andar térreo cedeu sob a violência das chamas e uma longa, suave, acariciante e rubra língua de fogo subiu pela parede branca e envolveu-a até o telhado. O clarão atingiu as árvores, os galhos e as folhas, e um arrepio de medo também os invadiu! Os pássaros acordaram, um cachorro começou a uivar, e pareceu-me que o dia estava nascendo! Quase imediatamente, duas outras janelas se arrebentaram e vi que toda a parte de baixo da casa era apenas uma fornalha incandescente. Um grito, horrível, estridente, de partir o coração, um grito de mulher, soou dentro da noite, e duas janelas do sótão se abriram! Esquecera-me dos criados! Vi os rostos apavorados e os braços agitando-se freneticamente.
Tomado de pavor, comecei a correr para a cidade, gritando:
- Socorro! Socorro! Fogo! Fogo! - Encontrei algumas pessoas que já vinham correndo e voltei com elas.
Nessas alturas, a casa não era mais que uma horrível e imponente pira funerária, monstruosa pira funerária que iluminava tudo, pira funerária onde homens ardiam, e ele também estava sendo queimado. Ele, ele, meu prisioneiro, o novo Ser, o novo Senhor, o Horla!
De repente, o telhado desabou entre as paredes, e um vulcão de chamas voou até o céu. Pelas janelas abertas naquela fornalha, vi as chamas disparando e pensei que ele estivesse lá, naquele forno, morto.
Morto? Talvez?... Seu corpo? Não seria seu corpo, transparente, indestrutível pelos meios que conseguiam matar os nossos?
E se ele não estivesse morto?... Talvez só o tempo tenha poder sobre esse Ser Invisível e Terrível. Qual a razão desse corpo transparente e irreconhecível, esse corpo pertencente a um espírito, se também tem de temer doenças, fraquezas e ruína prematura?
Ruína prematura? Todo o terror humano tem aí sua origem! Depois do homem, o Horla. Depois daquele que pode morrer todo dia, a toda hora, a todo momento, de qualquer acidente, veio o que morreria apenas na hora, no dia e no minuto apropriado, porque tocara os limites de sua própria existência!
Não... não... sem dúvida... não está morto... Então... então... acho que terei de me matar!...

sábado, 3 de setembro de 2005

O Rouxinol e a Rosa

Oscar Wilde

– Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas não vejo nenhuma rosa vermelha no jardim.

Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...

– Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – repetiu o Estudante, com os lindos olhos cheios de lágrimas.

– Ah! Como depende a felicidade de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.

E eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Gorjeei-o noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

– Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Se levar-lhe uma rosa vermelha, hei de tê-la nos braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará.

– Eis, na verdade, um apaixonado... – pensou o Rouxinol. – Do que eu canto, ele sofre. Aflige-o o que me alegra. Grande maravilha, na verdade, o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.

– Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... – e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.

– Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.

– É mesmo! Por que será? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.

– Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.

– Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol.

– Por causa de uma rosa vermelha? – exclamaram – Que coisa ridícula! E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.

Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.

Subitamente, abriu as asas pardas e voou.

Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.

Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!

– Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.

Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

– Minhas rosas são amarelas como a cabeleira dourada das sereias que repousam em tronos de âmbar, e mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez te possa ajudar.

O Rouxinol então, dirigiu o vôo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu - e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

– Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.

– Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?

– Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.

– Dize. Não tenho medo.

– Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.

– A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola...O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?

Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.

O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.

– Rejubila-te – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá.

Em conseqüência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia, embora sábia; mais poderoso que o poder, embora poderosa. Tens as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em teus braços e seu hálito lembra o incenso.

O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.

Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.

– Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.

Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.

Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.

– Tem classe, não se pode negar – disse consigo – atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual a maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa e cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!

Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.

Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais enterrou-se-lhe no peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...

Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.

Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. – Mais ainda, Rouxinol, - exigiu a Roseira, - senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.

O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.

E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.

Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa.

– Mais ainda, Rouxinol, - clamou a Roseira – raiar o dia antes que eu finalize a rosa.

E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.

Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.

E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.

Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.

Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.

Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.

A rosa vermelha o ouviu, e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.

– Olha! Olha! Exclamou a Roseira. – A rosa está pronta, agora.

Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.

– Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.

Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.

– Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou-se o Estudante. – Aqui tens a rosa mais vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá quanto te amo.

Mas a moça franziu a testa.

– Talvez não combine bem com o meu vestido, disse. Ademais, o sobrinho do Camareiro mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...

– És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.

– Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o sobrinho do camareiro... – e a moça levantou-se e entrou em casa.

– Que coisa imbecil, o Amor! – Resmungou o estudante, afastando-se. – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.

Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...

sexta-feira, 22 de julho de 2005

Código dos Homens Honestos

ou
A arte de não se deixar enganar por larápios
Honoré de Balzac

Roubos em lojas, apartamentos, cafés, restaurantes, roubos domésticos etc.

São roubos horríveis porque se apóiam na confiança. É difícil precaver-se contra eles, como se percebe pela raridade de nossos aforismos. Só podemos aludir aos exemplos mais famosos.

Art. 1º: As pessoas honradas, forçadas pelo destino a contratar cozinheiras, devem, para sua segurança, tentar contratar pessoas de bons costumes.

A maior parte dos roubos domésticos é fruto do amor.
O amante da cozinheira pode levá-la a fazer muitas coisas.
Você conhece a cozinheira; você não conhece o amante.
Você não tem o direito de proibir que sua cozinheira tenha um amante, pois:
1º: Os amantes são independentes das cozinheiras;
2º: Ao querer se casar, sua cozinheira está fazendo uso do pleno direito natural;
3º: Se ela tem um amante, é por uma boa razão.
Assim, amantes e cozinheiras são males necessários e inseparáveis.

Art. 2º: Examine com atenção as casas lotéricas de seu bairro, e procure saber se seus empregados jogam, se jogam apenas o que ganham etc.

Art. 3º: Nem sempre seus cavalos comerão muita aveia, mas sempre beberão muita água.
É difícil inspecionar as cocheiras.

Art. 4º: Quando seu apartamento estiver para alugar, muita gente virá vê-lo; não deixe nada fora das gavetas.

Art. 5º: Pretender impedir que um mordomo, uma cozinheira etc. roubem da despensa é uma rematada loucura.
Você será mais ou menos roubado, nada mais do que isto.

Art. 6º: A camareira usará os vestidos da patroa, o lacaio experimentará os ternos do patrão, usará suas camisas.
Se aquela viagem é um pretexto para se livrar dos importunos, por outro lado lhe trará vários problemas.
Assim que você partir, seu criado usará sua roupa, o copeiro irá à adega, o lacaio passeará no seu tílburi com a camareira, que ostensivamente cobrirá os ombros com um xale de caxemira. Enfim, será uma pequena orgia.

Art. 7º: Meio termo, jamais: tenha total confiança em seus criados, ou nenhuma.

Art. 8º: Uma cozinheira que tenha apenas um amante tem bons costumes; mas é necessário saber que amante é esse, seus meios de sobrevivência, seus gostos, suas paixões etc.
Essa pequena polícia doméstica pode evitar um assassinato.

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Fonte: BALZAC, Honoré de. Código dos homens honestos. São Paulo, Ed.Abril, 2004.

domingo, 3 de julho de 2005

Das Alegorias

Franz Kafka

Muitos se queixam de que as palavras dos sábios sejam sempre alegorias, porém inaplicáveis na vida diária, e isto é o único que possuímos. Quando o sábio diz: "Anda para ali", não quer dizer que alguém deva passar para o outro lado, o que sempre seria possível se a meta do caminho assim o justificasse, porém que se refere a um local legendário, algo que nos é desconhecido, que

tampouco pode ser precisado por ele com maior exatidão e que, portanto, de nada pode servir-nos aqui.

Em realidade, todas essas alegorias apenas querem significar que o inexeqüível é inexeqüível, o que já sabíamos. Mas aquilo em que cotidianamente gastamos as nossas energias, são outras coisas. A este propósito disse alguém: "Por que vos defendeis? Se obedecêsseis às alegorias, vós mesmos vos teríeis convertido em tais, com o que vos teríeis libertado da fadiga diária." Outro disse: "Aposto que isso é também uma alegoria." Disse o primeiro: "Ganhaste".

Disse o segundo: "Mas por infelicidade, apenas naquilo sobre alegoria". O primeiro disse: "Em verdade, não; no que disseste da alegoria perdeste".

domingo, 22 de maio de 2005

O retrato preto denunciador

EAP & MLO

Dedicado à memória de Edgar Allan Poe*

Não espero nem peço que se dê crédito à história meramente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas, considerando o modo como dirijo, amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários cínicos, uma série de simples acontecimentos domésticos, que devido a suas conseqüências, me aterrorizaram, torturaram e instruíram.

Tudo começou quando, após sair totalmente desorientado de mais uma aula de Renascimento Português, fui abordado pela senhorita Rebeca. Ela retirou um canudo de sua bolsa, me entregou e disse que era um presente. Tratava-se de uma foto de um dos meus ídolos, o escritor estadunidense Edgar Allan Poe. No entanto, não tentarei esclarecê-los, mas no momento em que olhei para o retrato, em mim, quase não se produziu outra coisa senão horror. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza esse sentimento a algo comum – uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

Mas o fato é que desde que recebi aquela foto, a ternura de meu coração que era tão evidente, e que me tornava alvo dos gracejos de meus camaradas, começou a desvanecer. Enrubesço ao confessá-lo, mas não só o meu caráter como o meu temperamento, sofreram, devido à presença daquela foto, uma modificação radical para pior.

Tornava-me, a cada hora, mais taciturno, mais irritadiço, mais cínico e mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me aos meus amigos e familiares. No fim, cheguei mesmo a tratá-los com indiferença. Meus amigos, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto à foto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de destruí-la, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os colegas de trabalho, o cobrador do ônibus e mesmo o porteiro do prédio, quando, por acaso cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim – que outro mal pode se comparar ao consumo prolongado e contínuo de Fanta Laranja? – e, no fim, até a foto, que começava agora a amarelar na parede, e que por conseguinte, se tomara algo difícil de se encarar, começou a refletir os efeitos de meu mau humor.

Numa noite, ao voltar para casa, muito embriagado após mergulhar minhas magoas em três doses de Fanta Laranja, numa de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que a foto evitava a minha presença. Apanhei-a, e ao encará-la, notei que ela parecia assustada ante a minha violência. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pelo suco industrializado de laranja produzido pela Coca-cola, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Apanhei na escrivaninha uma tesoura, arranquei a foto da moldura e, friamente, recortei um dos olhos de Edgar Allan Poe! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.

Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão – dissipados já os vapores de minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no consumo de Fanta Laranja a lembrança do que acontecera.

Entrementes, recoloquei a foto na parede, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas, ao menos, a mim, não parecia mais que Poe sofria qualquer dor. Eu andava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à aproximação do local em que se encontrava o retrato. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos secundários - pois o cinismo e o sarcasmo ainda são os primários –, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final.

O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira à imagem do pobre poeta. Pela manhã, a sangue frio, retirei o retrato da parede, e por mais infantil que possa parecer, pintei-lhe os lábios e desenhei-lhe "chifrinhos". Observei por alguns minutos e, logo, após saquei de meu bolso um isqueiro e ateei fogo à imagem de Poe. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Queimei-o porque sabia que o respeitara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Queimei-o porque sabia que estava cometendo um pecado – um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mãe, minha sobrinha e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela. As palavras "Putz grila!", "Caráca! Véi!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura do autor de "O Corvo" como que num outdoor gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma fogueira embaixo da imagem de Poe.

Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O retrato de Poe, lembrei-me, fora queimado numa churrasqueira que fica no quintal nos fundos da casa. A queda das outras paredes e a cal do muro, juntamente com as chamas e o amoníaco desprendido das cinzas da foto, produziram a imagem tal qual eu agora a via. Ou talvez alguém tenha retirado as cinzas do retrato da churrasqueira e lançando-as, através de uma janela aberta, o que fez com que a imagem do retrato fosse transferida para a parede do meu quarto...

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante dias, não pude livrar-me do fantasma de Poe e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do retrato e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava - Feira da Ceilândia, Cebinho, Café da Rua 08 ou na Banca Brasiliana da RodoStation do Plano Piloto - outra foto do poeta que pudesse substituí-lo.

Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes engradados de Fanta, Coca-cola, Guaraná Antártica ou sei lá o quê – não concebo bem que refrigerante pudesse ser – que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto dos engradados, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo.

Levantei-me e o encarei como horror. Era um retrato emoldurado de Poe – tão grande quanto o que eu havia queimado – e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele: pelo semblante do autor, tive a nítida impressão que este parecia me encarar e me julgar com os olhos! Penso que era o olhar dele! Sim, era isso! Seus olhos pareciam com os de um abutre... olhos pálidos, como os de quem sofre de catarata. Meu sangue se enregelava ao sentir que seu olhar caía sobre mim; e assim, pouco a pouco, bem lentamente, fui-me decidindo a tirar o quadro daquele lugar, destruí-lo e assim libertar-me daqueles olhos para sempre.

Ora, aí é que estava o problema. A esta altura, deveis imaginar que sou louco. Mas os loucos nada sabem. Deveríeis, porém, ter-me visto. Deveríeis ter visto como procedi cautelosamente, com que prudência, com que previsão, com que dissimulação lancei mão à obra!

Fui mais cauteloso do que de hábito. O ponteiro dos minutos de um relógio mover-se-ia mais rapidamente do que meus dedos. Jamais, antes daquela noite, sentira eu tanto a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Mal conseguia conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que ali estava eu, pouco a pouco, na iminência de me livrar daquele olhar... Ri com gosto, entre dentes... O quadro estava num local escuro como piche, espesso de sombra. E eu continuei a avançar, cada vez mais, cada vez mais. Fiquei completamente silencioso e nada disse.

Ao aproximar-me, um feixe de luz iluminou uma parte do quadro e, novamente, pude ver os olhos do poeta. Eles estavam abertos, plenamente abertos. E, ao contemplá-los, minha fúria cresceu. Vi-o, com perfeita clareza; Poe me fitava com olhar de reprovação! Seus olhos tinham um aspecto desbotado, com uma horrível película a cobri-los, o que me enregelava até a medula dos ossos. Mas não podia ver nada mais da face, pois a fresta dirigira a luz como por instinto, sobre o maldito lugar.

De súbito, chegou a meus ouvidos um som baixo, duas palavras que não conseguia entender, algo como o tique-taque de um relógio, quando abafado com algodão, ou o sistema de som do Cine Márcia, quando exibindo um filme de ação.. Eu não sabia bem que som era e, acreditara tratar-se do bater do meu coração. Ele me aumentava a fúria, como o bater um tambor estimula a coragem do soldado.

Ainda aí, porém, refreei-me e fiquei quieto. Tentei manter-me tão focalizado em meu objetivo quanto a réstia de luz sobre os olhos do poeta. Entretanto, o infernal som aumentava. A cada instante ficava mais alto, mais rápido! Cada vez mais alto, repito, a cada momento! Prestai-me bem atenção? Disse-vos que houvera me tornado mais irritadiço do que eu um dia fora. E então, àquela hora morta da noite, tão estranho ruído excitou em mim um terror incontrolável. Contudo, por alguns minutos mais, dominei-me e fiquei quieto. Mas o barulho era cada vez mais alto.

E, depois, nova angústia me aferrou: o ruído poderia ser ouvido pelo dono do bar! A hora de me livrar daquele retrato maldito tinha chegado! Com reflexos semelhantes aos de um ninja, rapidamente retirei a foto da moldura e a embolei, colocando-a em meu bolso. Então, voltei rapidamente para minha casa – que agora estava em adiantada fase de reconstrução. Arranquei três cerâmicas do soalho do quarto e coloquei a foto entre os vãos. Novamente, ateei-lhe fogo e depois recoloquei as cerâmicas, com tamanha habilidade e perfeição, que nenhum olhar humano, nem mesmo o dele, poderia distinguir qualquer coisa suspeita.

Nada havia a lavar, nem mancha de espécie alguma. Fora demasiado prudente no evitá-las. Uma demão de cera tinha recolhido tudo... Ah! Ah! Ah! Terminadas todas essas tarefas, eram quatro horas. Mas ainda estava escuro, como se fosse meia-noite. Como tenho insônia, para mim era normal dormir tão tarde. Quando o sino do relógio soou a hora, bateram a porta da rua. Desci para abri-la, de coração ligeiro,... pois que tinha eu agora a temer?

Entraram três homens que se apresentaram, com perfeita mansidão, como estudantes de literatura. Fora ouvido de um vizinho, que eu tinha em meu poder um retrato de Edgar Allan Poe. Despertara-se a suspeita de eu houvera cometido um crime contra a sua memória. Tinha-se formulado uma denúncia e eles, estudantes de Letras, tinham sido mandados para investigar.

Sorri... pois, que tinha eu a temer? Dei as boas vindas aos cavalheiros. O retrato, disse eu, não existia, só em sonhos. Poe, relatei, nunca gostara de tirar fotos, portanto, como poderia eu ter alguma foto sua? Levei meus visitantes a percorrer toda a casa. Pedi que dessem busca... completa. Conduzi-os, afinal, ao quarto. No entusiasmo de minha confiança, trouxe cadeiras para o quarto e mostrei desejos de que eles ficassem ali, para descansar de suas fadigas, enquanto eu mesmo, na desenfreada audácia do meu perfeito triunfo, colocava minha própria cadeira, precisamente sobre o lugar onde repousavam as cinzas da vítima.

Os alunos ficaram satisfeitos. Minhas maneiras os haviam convencido. Sentia-me singularmente à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia cordialmente, conversavam coisas familiares. Mas, dentro em pouco, senti que ia empalidecendo e desejei que eles se retirassem. Minha cabeça me doía e parecia-me ouvir zumbidos nos ouvidos; eles, porém, continuavam sentados e continuavam a conversar. O zumbido tornou-se mais distinto. Continuou e tornou-se ainda mais distinto: eu falava com mais desenfreio, para dominar a sensação: ela, porém, continuava a aumentava sua perceptibilidade, até que, afinal, descobri que o barulho não era dentro dos meus ouvidos.

É claro que então minha palidez aumentou excessivamente. Mas eu falava ainda mais fluentemente e num tom de voz muito elevada. Não obstante, o som se avolumava... E que podia fazer? Era um som grave, monótono, rápido... muito semelhante ao do sistema de som do Cine Márcia, quando exibindo um filme de ação. Eu respirava com dificuldade... E no entanto, os estudantes não o ouviram. Falei mais depressa ainda, com mais veemência. Mas o som aumentava constantemente. Levantei-me e fiz perguntas a respeito de ninharias, num tom bastante elevado, e com violenta gesticulação, mas o som constantemente aumentava.

Por que não se iam embora? Andava pelo quarto acima e abaixo, com largas e pesadas passadas, como se excitado até a fúria pela permanência dos estudantes... mas o som aumentava constante. Oh! Deus! Que poderia eu fazer? Espumei... enraiveci-me... praguejei! Fiz girar a cadeira, sobre a qual estivera sentado, e arrastei-a sobre as cerâmicas, mas o barulho se elevava acima de tudo e continuamente aumentava. Tornou-se então mais alto... mais alto... mais alto!

E os homens continuavam ainda a passear, satisfeitos e sorriam. Seria possível que eles não ouvissem? Deus Todo Poderoso!... não, não! Eles suspeitavam!.. Eles sabiam!... Estavam zombando do meu horror!... Isto pensava eu e ainda penso. Outra coisa qualquer, porém, era melhor que essa agonia! Qualquer coisa era mais tolerável que essa irrisão! Não podia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Sentia que devia gritar ou morrer!... E agora... de novo! Escutai!

Mais alto!
Mais alto!
Mais alto!
Mais alto!
Mais alto...

Tudo bem! - trovejei – Vocês não precisam mais fingir que não escutam! Confesso o crime!... Arranquem as cerâmicas!.. aqui, aqui! ... ouçam o desgraçado dizer: “Nunca mais, nunca mais...”

FIM

Marcos Lima


*Que, depois dessa, deve estar se contorcendo no túmulo...

À espera dos bárbaros

Constantino Kaváfis (1863-1933)  O que esperamos na ágora reunidos?  É que os bárbaros chegam hoje.  Por que tanta apatia no senado?  Os s...