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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Merda acontece!

Existe um ditado inglês que diz: "Shit happens". Ele é usado sempre que algo ruim acontece e não se pode fazer muita coisa a respeito. Abaixo está uma quase completa lista ideológica e religiosa.

Taoísmo: merda acontece.
Confucionismo: Confúcio diz, “merda acontece”.
Budismo: se merda acontece, não é realmente uma merda.
Budismo Zen: merda é, e não é.
Budismo Zen 2: qual é o som da merda acontecendo?
Hinduismo: esta merda já aconteceu antes.
Islamismo: se merda acontece, é porque é a vontade de Alá.
Islamismo2: se merda acontece, mate a pessoa responsável.
Islamismo3: se merda acontece, a culpa é de Israel.
Catolicismo: se merda acontece, é porque você mereceu.
Protestantismo: deixe que a merda aconteça a outra pessoa.
Presbiterianos: esta merda tinha que acontecer.
Episcopais: não é tão ruim que a merda aconteça, desde que você sirva o vinho certo com ela.
Metodistas: não é tão ruim que a merda aconteça, desde que você sirva suco de uva com ela.
Luteranos: se a merda acontecer, não fale a respeito.
Fundamentalismo: se merda acontecer, você vai para o inferno, a não ser que você nasça novamente. (Amém!)
Fundamentalismo 2: se a merda acontecer para um cristão, está tudo bem.
Fundamentalismo 3: a merda deve renascer.
Judaísmo: por que essa merda acontece sempre com a gente?
Calvinismo: a merda acontece porque a gente não trabalha.
Adventistas do sétimo dia: merda nenhuma acontecerá no sábado.
Criacionismo: Deus fez toda a merda.
Humanismo secular: a merda se desenvolve.
Ciência cristã: quando a merda acontecer, não chame um médico: reze!
Ciência cristã 2: a merda que acontece está apenas em sua mente.
Unitarismo: vamos juntos pensar nessa merda.
Quakers: não briguemos por essa merda.
Utopistas: está merda não fede.
Darwinistas: está merda um dia já foi comida.
Capitalismo: esta é a MINHA merda.
Comunismo: a merda é de todos.
Feminismo: homens são a merda.
Chovinistas: podemos ser uma merda, mas vocês não vivem sem a gente...
Comerciantes: vamos embalar essa merda.
Impressionismo: à distância, a merda parece um jardim.
Idólatra: a merda merece uma estátua de bronze.
Existencialismo: a merda não acontece; a merda É.
Existencialismo 2: o que é merda, afinal?
Estóico: esta merda é boa para mim.
Hedonismo: nada é melhor que uma boa merda acontecendo.
Mórmons: Deus nos enviou esta merda!
Mórmons: esta merda vai acontecer de novo.
Wicca: se não fizer mal a ninguém, deixe que a merda aconteça.
Cientologia: se a merda acontecer, leia a página 157 da “Dianética”.
Testemunhas de Jeová: toc, toc, merda acontece.
Testemunhas de Jeová 2: poderíamos tomar um pouquinho do seu tempo para mostrar um pouco na nossa merda?
Testemunhas de Jeová 3: a merda foi profetizada, apenas os justos e escolhidos sobreviverão.
Hare krishna: merda acontece, rama rama.
Rastafaris: vamos fumar essa merda.
Zoroastrismo: a merda acontece a metade do tempo.
Práticos: lide com a merda um dia por vez.
Agnósticos: a merda pode ter acontecido; ou talvez não.
Agnósticos 2: alguém fez merda?
Agnósticos 3: que merda é essa?
Ateísmo: que merda?
Ateísmo 2: não acredito nessa merda.
Satanismo: ECETNOCA ADREM.

domingo, 4 de novembro de 2007

Noam Chomsky vs Michel Foucault

Justiça vs Poder



Chomsky

"Toda forma de coerção ou repressão, toda forma de controle autocrático de alguns domínios da existência, digamos, a propriedade privada de capital de alguns aspectos da vida humana como, por exemplo, restrições autocráticas sobre algumas áreas de atividade humana, podem ser justificadas, de modo algum, apenas em termos da necessidade de subsistência, ou da necessidade de sobrevivência, ou da necessidade de defesa contra algum destino terrível ou algo do tipo. Isso não pode ser justificado intrinsecamente. Pelo contrário deve ser superado e eliminado”.


Foucault

"Sabe-se que a universidade e, de modo geral, todos os sistemas educacionais, que aparentam simplesmente disseminar o conhecimento, são feitos para manter uma certa classe social no poder; e para excluir os instrumentos de poder de outras classes sociais".

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A maravilhosa cozinha existencialista

No último fim-de-semana, a Equipe PROTONS foi passar o domingo descansando numa velha casa abandonada desde o século XIX, que fica em algum lugar esquecido na estrada w3 entre as quadras 710 e 715. Lá, nós tivemos a sorte de descobrir diários perdidos de existencialistas franceses do século XIX. Nesses livros estão curiosas associações entre dor e sabor, que perturbará todas as definições metafísicas e conceitos holísticos dos que achavam que uma macarronada não tem nada de existencialista. Para quem se desespera com a questão de quem veio antes, o ovo ou a galinha, haverá de concordar que, pelo menos, num frango assado com farofa de ovos, os dois vão ao mesmo tempo bucho a dentro...
por Bruno Cavalcanti


Diário de Vitor Sodré, existencialista francês, 1891:

15 de janeiro: "Aqui estou eu, preso em mim mesmo, vendo da janela do meu quarto imundo o amontoado de carros indo e vindo, perdidos em sua própria insignificância... Olho para o relógio e concluo ser a hora do almoço... Qual o significado desse momento, tão definitivo na vida do homem comum?... Minha alma agoniza, eu preciso descobrir... Prepararei uma sopa de batatas e chegarei a algum lugar..."

"Coloquei quantas batatas eu quis numa panela. Coloquei água, mas só a quantidade necessária para que as batatas ficassem quase submersas, apenas com uma pequena parte fora d'água, para que se sintam sufocadas, angustiadas..."

"Levei a panela para o lugar mais frio da casa. Coloquei uma cadeira de frente para ela e fique sentado para sempre... Pensei sobre o quanto estou faminto, mas que a escolha é minha de continuar ou não assim. Quando anoitecer, não acenderei as luzes..."

16 de janeiro: (notas de rodapé) "...Como poderei saber ao certo se a batata escolheu ou não ser comida por mim? Isso me deixa mais e mais frustrado..."

"...Sei que aquela panela não representa por si só todas as angústias do homem desamparado num mundo sem Deus. Mas como posso demonstrar isso apenas com carboidratos?..."

17 de janeiro: "Acordei hoje decidido a tirar interpretações mais radicais sobre a sopa, numa tentativa de, talvez, expressar o vácuo existencial entre a fome e a dor. Estou bastante encorajado com os resultados, mas minha jornada ainda é longa..."

"Verduras são vitaminas, que representam o prazer do homem, o supérfluo, a negação. Pode ser que a mistura entre alface, coentro e repolho com a batata, resulte no suicídio da sopa... Mas de qualquer forma, o risco é meu..."

31 de janeiro: "Me tranquei no banheiro por quatorze dias por arrependimento, me negando a encarar qualquer um..."

9 de fevereiro: "...Venho colocando mais e mais batatas na sopa, dia após dia, como soldados marchando para o mar revolto e imprevisível. Melancólico, olho para as batatas, mas elas não me olham de volta... Preciso prová-las, mas não consigo! Apago as luzes, mas não adianta!... Preciso de mais força de vontade... Leio algumas passagens de Kierkegaard e estou finalmente pronto! Droga, tentei criar uma sopa que expressasse o sentido da existência, mas em vez disso, tem gosto de batata!... O que Albert Camus faria? Talvez um pouco de cebola..."

"É a hora do julgamento dos valores da sopa. Pus ela para cozinhar... As batatas pulam angustiadas enquanto a água ferve. Chego à conclusão de que a batata, mesmo livre, é vitimada pelo ambiente e sofre por isso. Estou muito feliz... Estou tão feliz que estou quase surtando!!!... Vou voltar pro banheiro..."

13 de fevereiro: "...Faz quatro dias que estou no banheiro, e já caíram 8.596 gotas de água na pia. Tudo é mesmo tão efêmero!... Ao sair do banheiro, percebo que o fogo do fogão (no caso, o fogão é a existência e o fogo é a essência) se extinguiu. A água evaporou da panela, embora, de gota em gota, continue existindo da torneira até a pia. Quão subjetivo é tudo isso! Estou tonto, acho que vou desmaiar..."

"Preciso colocar mais sal para poder chegar à definição perfeita do sentimento do vocábulo 'sopa'. O que ele representa? O quanto ele vale? Como ele se sente? Diabos, o que importa, já sei que a sopa vai viver e morrer sozinha!..."

14 de fevereiro: "As coisas não aconteceram como eu esperava! A sopa está cheirando mal, talvez tenha estragado... Afinal, faz um mês e meio que a venho preparando... Enfim, que seja! Não é este mesmo o fim de todas as coisas?..."

Fonte: http://www.protons.com.br/megazine/Xreceitas-existen.html

sábado, 20 de outubro de 2007

Existencialismo II

O homem é o único animal que se define a si próprio através do ato de viver. Em outras palavras, o homem (ou a mulher) primeiro existe, depois o indivíduo usa o tempo de sua vida para mudar a sua essência. O sentido da vida só é dado com a vivência. A busca do sentido da vida no existencialismo é a busca por si próprio.

Diferente do que muitos pensam, o existencialismo não é um tema sombrio ou deprimente. O existencialismo é sobre a vida. Mas não a vida como esta é tratada por Nietzsche ou Schopenhauer, que apesar de terem focalizado parte de suas reflexões para questões tipicamente existencialistas, o fizeram sem abandonar suas respectivas linhas de pensamento, ou seja, suas reflexões direcionavam-se para a vida e não para existência em si. A questão primordial é: em que lugar de sua filosofia o filósofo trata da existência? Ou ainda, ela tem prioridade?

Os filósofos da existência empenham-se em pensar o individuo real e contraditório a partir de sua existência cotidiana sem qualquer relevo especial. Some-se a isso fato de as filosofias da existência serem anti-naturalistas: existir é a condição/situação na qual nos encontramos desde sempre, não é uma natureza. O humano é, portanto, não-definível.

Nietzsche criticou a moral socrática, mas ao fazer isso, não considerou a singularidade de Sócrates como indivíduo, como Kierkegaard, por exemplo, o fez. Nietzsche considerou Sócrates e Cristo como figuras históricas (seus conceitos, o que representam) e não como singulares singularíssimos. O ponto é que tanto Schopenhauer como Nietzsche tratavam o Ser e seus estados de maneira totalizadora e não singular. As filosofias não existenciais podem dar respostas objetivas para o mundo, o existencialismo, não. Ele coloca o acento na subjetividade, no ponto de vista interior.

As filosofias existencialistas consideram o homem como um ser finito, continuamente confrontado com situações problemáticas e absurdas. O que interessa ao existencialismo é o homem em sua singularidade. No centro do pensamento existencialista encontra-se o homem singular e finito que faz escolhas e que lida com a situação de estar jogado no mundo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Nascere è un fatto

Luigi Pirandello

Nascere è un fatto. Nascere in un tempo anziché in un altro ve l'ho già detto; e da questo o da quel padre, e in questa o quella condizione; nascere maschio o femmina; in Lapponia o nel centro dell'Africa; e bello o brutto; con la gobba o senza gobba: fatti. E anche se perdete un occhio, è un fatto e potete anche perderli tutti e due, e se siete pittore è il peggior fatto che vi possa capitare.
Tempo, spazio, necessità. Sorte, fortuna, casi: trappole tutte della vita. Volete essere? C'è questo. In astratto non si è. Bisogna che s’intrappoli l'essere in una forma, e per alcun tempo si finisca in essa, qua o là, cosí o cosí. E ogni cosa, finché dura, porta con sé la pena della sua forma, la pena d'esser cosí e di non poter piú essere altrimenti. Quello sbiobbo là, pare una burla, uno scherzo compatibile sí e no per un minuto solo e poi basta; poi dritto, su, svelto, agile, alto.... ma che! sempre cosí, per tutta la vita che è una sola; e bisogna che si rassegni a passarla tutta tutta cosí.
E come le forme, gli atti.
Quando un atto è compiuto, è quello; non si cangia piú. Quando uno, comunque, abbia agito, anche senza che poi si senta e si ritrovi negli atti compiuti, ciò che ha fatto, resta: come una prigione per lui. Se avete preso moglie, o anche materialmente, se avete rubato e siete stato scoperto; se avete ucciso, come spire e tentacoli vi avviluppano le conseguenze delle vostre azioni; e vi grava sopra, attorno, come un'aria densa, irrespirabile, la responsabilità che per quelle azioni e le conseguenze di esse, non volute o non previste, vi siete assunta. E come potete piú liberarvi?
Già. Ma che intendete dire con questo? Che gli atti come le forme determinano la realtà mia o la vostra? E come? perché? Che siano una prigione, nessuno può negare. Ma se volete affermar questo soltanto, state in guardia che non affermate nulla contro di me, perché io dico appunto e sostengo anzi questo che sono una prigione e la piú ingiusta che si possa immaginare.

In: Uno, nessuno e centomila

sábado, 16 de dezembro de 2006

O Tempo Reduz Tudo a Nada

Arthur Schopenhauer

O tempo é a forma graças à qual a vanidade das coisas aparece como a sua instabilidade, que reduz a nada todas as nossas satisfações e todas as nossas alegrias, enquanto nos perguntamos com surpresa para onde foram. Esse próprio nada é portanto o único elemento objectivo do tempo, ou seja, o que lhe responde na essência íntima das coisas, e assim a substância da qual ele é a expressão.

Arthur Schopenhauer, in 'O Mundo como Vontade e Representação'.

sábado, 25 de novembro de 2006

Somos morte.

Bernardo Soares

Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos. Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, mas num sentido verdadeiro.

Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias. Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga. A verdade nunca, a paragem nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz, mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!

Bernardo Soares (Fernando Pessoa) In: Livro do desassossego, fragmento nº 178.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

A soma e substância de toda a filosofia

Casa-te, tu vais te arrepender; não te cases, tu também vai te arrepender; cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre. Ri-te das loucuras do mundo e irás arrepender-te; chora sobre elas, e arrependes-te também; ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas, e de ambas as coisas te arrependes; quer te rias das loucuras do mundo, quer chores sobre elas irás sempre arrepender-te. Acredita numa mulher, e irás arrepender-te, não acredites nela e arrependes-te também; acredites ou não numa mulher, arrependes-te de ambas as coisas. Enforca-te, e arrependes-te; não te enforques, e na mesma te arrependes. É esta, meus senhores, a soma e substância de toda a filosofia.

Søren Kierkegaard (Victor Eremita), in 'Aut/Aut' (Diapsalmata).

terça-feira, 19 de setembro de 2006

O tédio é a raiz de todo o mal

Søren Kierkegaard

Não admira, pois, que o mundo vá de mal a pior e que os males aumentem cada vez mais, à medida que aumenta o tédio, e o tédio é a raiz de todo o mal. A história deste pode acompanhar-se desde os primórdios do mundo. Os deuses estavam entediados, pelo que criaram o homem. Adão estava entediado por estar sozinho, e por isso foi criada Eva. Assim o tédio entrou no mundo e aumentou na proporção do aumento da população. Adão aborrecia-se sozinho, depois Adão e Eva aborreceram-se juntos, depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois a população do mundo aumentou e os povos aborreceram-se en masse. Para se divertirem congeminaram a idéia de construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Esta idéia, por sua vez, é tão aborrecida como a torre era alta, e constitui uma prova terrível de como o tédio se tornou dominante.

KIERKEGAARD, Søren Aabye, in "Aut, aut"

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

O Mundo é a minha representação

Arthur Schopenhauer

O mundo é a minha representação. Esta proposição é uma verdade para todo o ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. A partir do momento em que é capaz de o levar a este estado, pode dizer-se que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra; mas apenas olhos que vêem este sol, mãos que tocam esta terra; numa palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem.

Se existe uma verdade que se possa afirmar à priori é bem esta, pois ela exprime o modo de toda a experiência possível e imaginável, conceito muito mais geral mesmo que os de tempo, espaço e causalidade que o implicam. Com efeito, cada um destes conceitos, nos quais reconhecemos formas diversas do princípio de razão, apenas é aplicável a uma ordem determinada de representações; a distinção entre sujeito e objeto é, pelo contrário, o modo comum a todas, o único sob o qual se pode conceber uma qualquer representação, abstrata ou intuitiva, racional ou empírica. Nenhuma verdade é pois, mais certa, mais absoluta, mais evidente do que esta: tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro apenas é objeto em relação a um sujeito, percepção apenas, em relação a um espírito que percebe, numa palavra, é pura representação.

SCHOPENHAUER, Arthur. In 'O Mundo como Vontade e Representação'.

domingo, 28 de maio de 2006

Conhecer-se é errar

Fernando Pessoa

O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por Sanches, quando disse «nem sei se nada sei». O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e todo o homem superior o dá e atinge. O segundo passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.

Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse «Conhece-te» propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscienciosamente é o emprego activo da ironia. Nem conheço coisa maior, nem mais própria do homem que é deveras grande, que a análise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registo consciente da inconsciência das nossas consciências, a metafísica das sombras autónomas, a poesia do crepúsculo da desilusão.

Mas sempre qualquer coisa nos ilude, sempre qualquer análise se nos embota, sempre a verdade, ainda que falsa, está além da outra esquina. E é isto que cansa mais que a vida, quando ela cansa, e que o conhecimento e meditação dela, que nunca deixam de cansar.

Bernardo Guimarães, in 'O Livro do Desassossego'.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Existencialismo I

ou O estrago causado ao pensamento em decorrência da falta de Fanta Laranja

A abstinência de Fanta Laranja no meu sistema nervoso tem feito um estrago grande em minha sanidade*. Por isso, e talvez como forma de catarse, resolvi registrar mais uma vez meus devaneios aqui. Tenho pensado muito a respeito do existencialismo, principalmente sobre a questão da responsabilidade pelas escolhas e a sua relação com o que definimos por 'destino'.

Acho que estamos perdendo as virtudes de vivermos apaixonadamente; de assumirmos a responsabilidade por quem somos, de tentarmos realizar algo e nos sentirmos bem em relação à vida. O existencialismo é, às vezes, visto como uma filosofia do desespero, mas eu penso que é o contrário. O que ele nos ensina não é que deve existir um sentimento de angústia pela vida, mas sim que devemos encará-la como se ela fosse uma obra aberta, pronta para ser criada e, se preciso, redefinida.

De acordo com Sartre, cada escolha carrega consigo uma responsabilidade. Se escolho ficar em casa dormindo ao invés de ir trabalhar, falar alguma coisa ou escrever nesse blog, tenho que ter consciência de que qualquer conseqüência desses atos terá sido resultado de minha própria escolha. E ao colocar cada escolha em ação provoco mudanças no mundo que não podem ser desfeitas. Não posso, segundo o existencialismo, atribuir a responsabilidade por estes atos a nenhuma força externa, ao destino ou a Deus. A essência da responsabilidade segundo os existencialistas é que eu, por minha vontade e escolha ajo no mundo e afeto o mundo todo. É uma responsabilidade da qual não posso fugir.

Sempre tenho uma incômoda sensação de que algo essencial está sendo deixado de fora do modo como vivemos (ou pelo menos do modo como vivo). Quanto mais se fala sobre o ser humano como um ser social ou como fragmentado ou marginalizado abre-se todo um novo universo de desculpas. E esse talvez seja o ponto: por que sempre complicamos e criamos desculpas? Por que as decisões que tomamos têm que ser influenciadas pelo Outro?

Quando Sartre fala de responsabilidade, não é abstrato. Não se trata do tipo de 'eu' ou de 'alma' de que falam as religiões. É algo concreto. Somos nós, falando, tomando decisões e assumindo as conseqüências. Acho que a mensagem é que não devemos jamais nos eximir da responsabilidade com nós mesmos, e nos vermos como vítimas de várias forças.

Quem nós somos é sempre uma decisão nossa.



*Teria a Coca-cola tido a audácia de cancelar a produção desse doce e alaranjado líquido sem consultar a opinião de seu maior consumidor [ou seja, eu]?

sexta-feira, 21 de abril de 2006

O behaviorismo é um niilismo?

Certas coisas não entram em minha cabeça. Um dia desses parei para pensar a respeito do behaviorismo. Segundo essa teoria, o comportamento dos indivíduos é não apenas observável, como também pode ser medido e controlado, mais ou menos como os fatos e eventos das ciências exatas. O homem é passivo ao ambiente, é bombardeado por estímulos e seu papel se resume a reagir a eles.

O que não entra em minha cabeça é: o homem está morto? Quero dizer, se todas as minhas ações são reações ao ambiente, então minhas ações não partem de mim? Dizer que eu me comporto de acordo com um estimulo é retirar de mim aquilo que me qualifica como pessoa, como individuo. O que dizer então a respeito do inconsciente? Ele não existe?

Sei não, mas acho que não é correto pensar que o homem é passivo diante do ambiente. Fazer isso é atribuir-lhe um status de reagente e anulá-lo enquanto criador em potencial; é acreditar que a existência humana é desprovida de qualquer sentido. O ambiente que vai selecionar a ação humana não foi produzido pela própria ação humana? (ou ao menos por meio da intervenção humana?) Não seria então o caso de uma troca? Um movimento da natureza, do qual o homem não está acima dela, mas é parte dela?

Questões...

sábado, 31 de dezembro de 2005

A vocação para escritor

Jean-Paul Sartre

O Espírito Santo me contemplava. Acabara justamente de adotar a decisão de remontar ao Céu e abandonar os homens; eu dispunha apenas do tempo necessário para me oferecer; mostrava-lhes as chagas de minha alma, as lágrimas que embebiam meu papel, ele lia por cima de meu ombro, e sua cólera passava. Fora aplacado pela profundidade dos sofrimentos ou pela magnificência da obra? Eu me dizia: pela obra; às escondidas, pensava: pelos sofrimentos. É claro que o Espírito Santo só apreciava os escritos verdadeiramente artísticos, mas eu lera Musset, sabia que “os cânticos mais desesperados são os mais belos” e resolvera captar a Beleza com um desespero ardiloso. A palavra gênio sempre se me afigurava suspeita: estive a ponto de sentir por ela total aversão. Onde estaria a angústia, onde a provação, onde a tentação abortada, onde o mérito, enfim, se eu possuía o dom? Eu mal suportava o fato de ter um corpo e todos os dias a mesma cabeça, não ia deixar que me encerrassem num equipamento. Eu aceitava minha designação, desde que ela não se apoiasse me nada, que brilhasse, gratuita no vazio absoluto. Eu mantinha cociliábulos com o Espírito Santo: “Hás de escrever”, dizia-me. Eu torcia as mãos: “Que tenho eu, Senhor, para que me escolhêsseis?” “Nada de particular.” “Então, porque eu?” “Não há razão.” “Tenho pelo menos algumas facilidades de pena?” “Nenhuma. Crês que as grandes obras nascem das penas fáceis?” “Senhor, uma vez que sou tão nulo, como poderia produzir um livro” “Aplicando-te.” “Então, todo mundo pode escrever?” “Todo mundo pode, mas foi a ti que escolhi.” Esse truque era bastante cômodo: permitia-me proclamar minha insignificância e simultaneamente venerar em mim o autor de futuras obras primas. Eu era eleito, marcado, mas sem talento: tudo viria da minha longa paciência e de minhas desventuras; eu me negava a toda e qualquer singularidade: os traços de caráter afogam: eu não era fiel a nada, exceto ao compromisso real que me conduzia à glória por meio dos suplícios.

Trecho extraído de: SARTRE, Jean-Paul. As palavras, pp. 124-125, Rio de Janeiro, Nova fronteira, 2005.

domingo, 11 de dezembro de 2005

Loucos e Santos

Oscar Wilde

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

História explicativa

Daniel Quinn

"Podes passar o resto do dia tentando descobrir qual a história que as pessoas da tua cultura têm vindo a encenar no mundo nos últimos dez mil anos. Lembras-te do que versa ela?"

"Do que versa a história?"

"Ela versa o sentido do mundo, as intenções divinas no mundo e o destino humano".

"Bem, posso contar-te histórias sobre essas coisas, mas não conheço uma história única".

"É a única história que todos na tua cultura conhecem e aceitam".

"Não creio que isso ajude muito".

"Talvez ajude se eu te disser que se trata de uma história explicativa, do gênero 'Como o elefante obteve a sua tromba' ou 'Como o leopardo obteve as suas manchas'".

"Está bem".

"E, imaginas tu, esta vossa história explica o quê?"

"Santo Deus, não faço a menor idéia".

"Isso já deveria ser claro a partir do que eu te disse. Ela explica como o mundo veio a ser o que é. Desde o início até hoje".

"Entendo," disse eu, e olhei pela janela durante alguns instantes. "O fato é que não tenho consciência de conhecer uma história que tal. Como eu disse, conheço histórias, mas nada que se pareça com uma história única".

Ismael refletiu um pouco. "Uma aluna minha, dentre os discípulos que mencionei ontem, sentiu-se na obrigação de me explicar o que procurava ela. Perguntou-me: 'Ninguém fica alarmado por quê? Ouço as pessoas falarem sobre o fim do mundo na lavanderia, e não parecem mais alarmadas do que se estivessem a comparar detergentes. Falam da destruição da camada de ozônio e da destruição total da vida. Falam da devastação das florestas tropicais, da poluição mortal que permanecerá conosco durante milhares e milhões de anos, da extinção diária de dezenas de espécies; do fim do próprio processo de desenvolvimento das espécies. E parecem de uma calma olímpica'.

"Eu disse-lhe: 'É isso então que desejas saber — por que razão as pessoas não ficam alarmadas com a destruição do mundo?' Ela pensou um pouco e respondeu: 'Não, eu sei por que razão não se alarmam elas. Não se alarmam por acreditarem no que lhes contaram'".

"Como assim?" perguntei.

"O que é que contaram às pessoas que as impede de se alarmarem, que as mantêm relativamente calmas enquanto assistem aos danos catastróficos que estão a infligir ao planeta?"

"Não sei".

"Contaram-lhes uma história explicativa. Deram-lhes uma explicação de como o mundo veio a ser o que é, e isto silencia o seu alarme. Esta explicação é totalmente abrangente, incluindo a deterioração da camada de ozônio, a poluição dos oceanos, a destruição das florestas tropicais e até a extinção humana — e isso as satisfaz. Ou talvez seja mais correto dizer que as pacifica. Participam da engrenagem durante o dia, narcotizam-se com drogas ou com televisão à noite e tentam não pensar muito seriamente sobre o mundo que estão a deixar para os seus filhos enfrentarem".

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Texto extraído do livro Ishmael, de Daniel Quinn.

sábado, 19 de novembro de 2005

O Imenso Possível do Abismo de Tudo

A personagem individual e imponente, que os românticos figuravam em si mesmos, várias vezes, em sonho, a tentei viver, e, tantas vezes, quantas a tentei viver, me encontrei a rir alto, da minha ideia de vivê-la. O homem fatal, afinal, existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares, e o romantismo não é senão o virar do avesso do domínio quotidiano de nós mesmos. Quase todos os homens sonham, nos secretos do seu ser, um grande imperialismo próprio, a sujeição de todos os homens, a entrega de todas as mulheres, a adoração dos povos, e, nos mais nobres, de todas as eras... Poucos como eu habituados ao sonho, são por isso lúcidos bastante para rir da possibilidade estética de se sonhar assim.

A maior acusação ao romantismo não se fez ainda: é a de que ele representa a verdade interior da natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os seus poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a figuração exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto, visualizado, até possível, se o ser possível dependesse de outra coisa que não o Destino.

Quantas vezes eu mesmo, que rio de tais seduções da distracção, me encontro supondo que seria bom ser célebre, que seria agradável ser ameigado, que seria colorido ser triunfal! Mas não consigo visionar-me nesses papéis de píncaro senão com uma gargalhada do outro eu que tenho sempre próximo como uma rua da Baixa. Vejo-me célebre? Mas vejo-me célebre como guarda-livros. Sinto-me alçado aos tronos do ser conhecido? Mas o caso passa-se no escritório da Rua dos Douradores e os rapazes são um obstáculo. Ouço-me aplaudido por multidões variegadas? O aplauso chega ao quarto andar onde moro e colide com a mobília tosca do meu quarto barato, com o reles que me rodeia, e me amesquinha desde a cozinha ao sonho. Não tive sequer castelos em Espanha, como os grandes espanhóis de todas as ilusões. Os meus foram de cartas de jogar, velhas, sujas, de um baralho incompleto com que se não poderia jogar nunca; nem caíram, foi preciso destruí-los, com um gesto de mão, sob o impulso impaciente da criada velha, que queria recompor, sobre a mesa inteira, a toalha atirada sobre a metade de lá, porque a hora do chá soara como uma maldição do Destino. Mas até isto é uma visão improfícua, pois não tenho a casa de província, ou as tias velhas, a cuja mesa eu tome, no fim de uma noite de família, um chá que me saiba a repouso. O meu sonho falhou até nas metáforas e nas figurações. O meu império nem chegou às cartas velhas de jogar. A minha vitória falhou sem um bule sequer nem um gato antiquíssimo. Morrerei como tenho vivido, entre o bric-à-brac dos arredores, apreçado pelo peso entre os pós-escritos do perdido.

Leve eu ao menos, para o imenso possível do abismo de tudo, a glória da minha desilusão como se fosse a de um grande sonho, o esplendor de não crer como um pendão de derrota - pendão contudo nas mãos débeis, mas pendão arrastado entre a lama e o sangue dos fracos, mas erguido ao alto, ao sumirmo-nos nas areias movediças, ninguém sabe se como protesto, se como desafio, se como gesto de desespero. Ninguém sabe, porque ninguém sabe nada, e as areias engolfam os que têm pendões como os que não têm. E as areias cobrem tudo, a minha vida, a minha prosa, a minha eternidade.

Levo comigo a consciência da derrota como um pendão de vitória.

Trecho extraído de: PESSOA, Fernando. Livro do desassossego, composto por Bernardo Soares, São Paulo, Cia das Letras, 2003.

sábado, 8 de outubro de 2005

Dormimos a vida

Bernardo Soares

Quando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta. Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita. Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.

Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos. A sensação era exactamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme. Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta. Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda a vida social dormente, por todos, por tudo. (...)

Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes - tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.

Trecho extraído de: PESSOA, Fernando. Livro do desassossego, composto por Bernardo Soares, São Paulo, Cia das Letras, 2003.

À espera dos bárbaros

Constantino Kaváfis (1863-1933)  O que esperamos na ágora reunidos?  É que os bárbaros chegam hoje.  Por que tanta apatia no senado?  Os s...