terça-feira, 19 de setembro de 2006

O tédio é a raiz de todo o mal

Søren Kierkegaard

Não admira, pois, que o mundo vá de mal a pior e que os males aumentem cada vez mais, à medida que aumenta o tédio, e o tédio é a raiz de todo o mal. A história deste pode acompanhar-se desde os primórdios do mundo. Os deuses estavam entediados, pelo que criaram o homem. Adão estava entediado por estar sozinho, e por isso foi criada Eva. Assim o tédio entrou no mundo e aumentou na proporção do aumento da população. Adão aborrecia-se sozinho, depois Adão e Eva aborreceram-se juntos, depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois a população do mundo aumentou e os povos aborreceram-se en masse. Para se divertirem congeminaram a idéia de construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Esta idéia, por sua vez, é tão aborrecida como a torre era alta, e constitui uma prova terrível de como o tédio se tornou dominante.

KIERKEGAARD, Søren Aabye, in "Aut, aut"

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

O Mundo é a minha representação

Arthur Schopenhauer

O mundo é a minha representação. Esta proposição é uma verdade para todo o ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. A partir do momento em que é capaz de o levar a este estado, pode dizer-se que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra; mas apenas olhos que vêem este sol, mãos que tocam esta terra; numa palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem.

Se existe uma verdade que se possa afirmar à priori é bem esta, pois ela exprime o modo de toda a experiência possível e imaginável, conceito muito mais geral mesmo que os de tempo, espaço e causalidade que o implicam. Com efeito, cada um destes conceitos, nos quais reconhecemos formas diversas do princípio de razão, apenas é aplicável a uma ordem determinada de representações; a distinção entre sujeito e objeto é, pelo contrário, o modo comum a todas, o único sob o qual se pode conceber uma qualquer representação, abstrata ou intuitiva, racional ou empírica. Nenhuma verdade é pois, mais certa, mais absoluta, mais evidente do que esta: tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro apenas é objeto em relação a um sujeito, percepção apenas, em relação a um espírito que percebe, numa palavra, é pura representação.

SCHOPENHAUER, Arthur. In 'O Mundo como Vontade e Representação'.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Futuro

Ricardo Reis

Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

A raposa e o político

Certa vez uma raposa se aproximava de um galinheiro para roubar como de costume, quando foi abordada por um político que a observava sem que ela soubesse. O homem se aproximou da raposa e disse:

– Venho te observando todos os dias e vi que você sempre rouba apenas uma galinha... tenho uma proposta para te fazer baseado em minha experiência e parceria com outras raposas. O esquema é o seguinte: a gente rouba todas as galinhas desse galinheiro e depois fazemos isso nos outros galinheiros das fazendas vizinhas. Aí, a gente divide o fruto do roubo em partes justas, tipo hoje você rouba para mim e amanhã eu roubo para você. Não tem erro, nós dois lucramos e é totalmente seguro.

A raposa ficou impressionada com a proposta do político e a seguiu à risca. Roubou todas as galinhas. Não deixou nenhuma. Passou tudo ao político e combinaram de se encontrar na fazenda vizinha no dia seguinte. No outro dia, o político não estava lá. O galinheiro já estava vazio e o dono havia armado uma tocaia para pegar o ladrão.

A raposa foi abatida com três tiros na cabeça.

Moral da historia: mais vale roubar uma galinha por dia que confiar na palavra de um político.

sábado, 22 de julho de 2006

Voar

Uma das vantagens de estudar uma língua estrangeira é poder entender aquilo que antigamente você só gostava pelo som. Exemplo disso são as músicas estrangeiras. Sempre gostei de músicas italianas, principalmente as dos anos sessenta, mas gostava apenas pelo som e por entender (ou inferir) algumas palavras que tem uma sonoridade parecida com as do português. Mas havia algumas que não tinham nada a ver com o português e isso me agoniava bastante. Uma delas é "Volare", veja só a letra:

Volare
Luciano Pavarotti
Composição: Domenico Mondugno

Penso che un sogno così non ritorni mai più
Mi dipingevo le mani e la faccia di blu
Poi d'improvviso venivo dal vento rapito
E incominciavo a volare nel cielo infinito

Volare, oh, oh!
Cantare, oh, oh, oh, oh!
Nel blu, dipinto di blu
Felice di stare lassù

E volavo, volavo felice più in alto del sole ed ancora più su
Mentre il mondo piano piano spariva lontano laggiù
Una musica dolce suonava soltanto per me

Volare, oh, oh!
Cantare, oh, oh, oh, oh!
Nel blu, dipinto di blu
Felice di stare lassù
Nel biu, dipinto di blu
Felice di stare lassù


Agora que consigo entender acho que gosto ainda mais dela. Aí vai a tradução:

Voar
Composição: Domenico Mondugno

Penso que um sonho assim não retornará nunca mais
Eu pintava minhas mãos e o rosto de azul
Depois por improviso era seqüestrado pelo vento
E começava a voar no céu infinito

Voar, oh, oh!
Cantar, oh, oh, oh, oh!
No azul, pintado de azul
Feliz de estar lá em cima

E voava, voava mais feliz no alto do sol e ainda mais acima
Enquanto o mundo plano, plano desaparecia distante lá embaixo
Uma música doce tocava apenas para mim

Voar, oh, oh!
Cantar, oh, oh, oh, oh!
No azul, pintado de azul
Feliz de estar lá em cima


Até a próxima!

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Almas

Somos apenas almas.
Vagamos confusos em meio
a tênues feixes
de luzes serenas.
Com passos apressados,
desviamos da vigília permanente
de olhares perseguidores.
Bailamos entre sombras
e clarões difusos
para adormercemos envoltos
pelos lençóis de fumaça da perdição.
Rimos da busca de uma felicidade fugidia
ou mentira oculta.
E quando não recebemos respostas
às perguntas que endereçamos ao céu,
sabemos que é porque somos almas,
espíritos invisíveis
à mesquinharia humana.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Travelling riverside blues

Led Zeppelin



Em homenagem ao Dia do rock, um clipe da maior banda de rock de todos os tempos.
Saudações aos deuses do metal!

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Roadhouse blues

The Doors


Há 41 anos, formava-se, em Los Angeles, Estados Unidos, uma das mais polêmicas e talentosas bandas de rock'n'roll da história, o The Doors. E, há exatos 35 anos, faleceu seu vocalista e líder Jim Morrison.

A morte, ocorrida em um hotel parisiense, sempre foi cercada de suspense. Alguns fãs mais exaltados acham que Morrison, como Elvis Presley, não morreu, que é tudo boato. Os companheiros de banda não acreditam, em declarações dadas na mídia, que o corpo do músico esteja em Paris. Enfim, tudo muito nebuloso.

Mas o que impressiona de fato, é a magia, o encanto que a imagem do rebelde Morrison (morto aos 27 anos) ainda causa em milhares de pessoas. O mito permanece vivo.

Récem formados em cinema, Ray Manzarek (tecladista) e Morrison se conheceram e resolveram formar uma banda. Adotam o nome de The Doors através de uma obra do poeta William Blake. Em pouco tempo John Densmore (baterista) e Robby Krieger (guitarrista) se juntam ao Doors.

Em 1967, sai a primeira e talvez a melhor obra da banda, o álbum homônimo, que contém as épicas canções 'Break on Through' e 'Light My Fire'.

A partir daí, o sucesso do grupo foi aumentando abruptamente e com ele a loucura da banda. Morrison, irritado com o assédio ou sem encontrar um meio mais confortável para lidar com o sucesso, começa a se apresentar de modo enérgico, estranho, no palco. Considerado símbolo sexual na época, o vocalista adotou performances sensuais, obcenas muitas vezes, criando um figura pública controversa.

Drogas e álcool, que juntamente com o sexo compõem a famosa tríade com o rock, estavam presentes no dia a dia do Doors. Morrison, já um tanto transtornado com sua nova vida, começou (ou ao menos tentou) se afastar um pouco dos holofotes da mídia e do resto da banda, com quem vivia em conflitos constantes. Até que no dia 3 de julho de 1971, Jim foi encontrado morto, devido a um ataque cardíaco, na banheira do hotel em que se hospedava em Paris, tendo sua morte anunciada dias depois em meia a muita confusão e especulações.

Permanece até hoje a imagem do vocalista rebelde, que ignorou as proibições do programa The Ed Sullivan Show, do bêbado que exibiu o pênis em um show nos Estados Unidos e que protagonizou tantas outras insanidades.

Seu túmulo, em Paris, é um dos locais mais visitados da Europa. Diariamente passam cerca de 300 pessoas pelo local. Fotos, velas, cartas e os mais diversos objetos são deixados juntos a lápide do músico. Algumas pessoas fazem pequenos ritos as escondidas no cemitério e até mantém relações sexuais perto do túmulo.

Se vivo, Jim Morrison completaria em dezembro 68 anos. Não se pode afirmar o que aconteceria com o Doors se o seu vocalista não tivesse morrido em 1971. A única certeza é que sua morte foi criado um mito que perdurará por muito tempo.

sábado, 1 de julho de 2006

Weapon of Choice

Fatboy Slim


O vídeoclip "Weapon of choice", baseado na música de mesmo nome do Fatboy Slim, foi dirigido por Spike Jonze, o mesmo diretor dos filmes "Quero ser John Malkovich" e "Adaptação". A música faz parte do disco "Halfway between the gutter and the stars" ("Metade do caminho entre a sarjeta e as estrelas"), de 2000. No vídeo, o ator Christoper Walken interpreta um homem que aproveita a ausência de pessoas no local para dançar pelos salões de um luxuoso hotel. Walken também ajudou a coreografar a dança, que inclui uma cena em que ele mergulha do alto de uma sacada para voar ao redor do salão.

domingo, 25 de junho de 2006

Sonhos

Sempre fui meio grilado com meus sonhos – provavelmente por não ter tido muitos. Lembro-me perfeitamente de alguns pesadelos que tive e que me perturbaram bastante. Mas, mais estranho do que acordar assustado com algum pesadelo, é a impressão estranha de acordar "apaixonado" por um devaneio do inconsciente, por uma pessoa que jamais existiu, senão em minha mente, e ficar completamente confuso com essa sensação.

Tudo funciona assim: você acorda atônico pela manhã e não consegue aceitar que sua mente tenha sido capaz de criar tudo aquilo. Você precisa comprovar que tudo não passa realmente de um sonho; quer tentar encontrar ao menos uma evidência que prove que seu inconsciente não teria capacidade de te pregar tamanha peça. Mais ou menos como aquele personagem do filme “Em algum lugar do passado”, você começa a ficar obcecado com a idéia de reencontrar aquela pessoa do seu sonho, ainda meio aturdido pela dúvida de estar sonhando ou desperto.

É parecido com a sensação que se tem quando se tem sonhos desta espécie com alguém que se viu uma única vez... Certa ocasião, na escola, quando eu era ainda mais estranho do que sou hoje e tinha por volta de 13 anos, lembro-me de ter passado todo o recreio procurando uma garota mais velha do que eu, ainda sonhando acordado o sonho que tinha tido na noite passada com alguém que havia visto apenas de relance. Sempre fui tímido e com certeza não haveria nada a ser feito além de encontrá-la, mas eu queria revê-la e sentir uma pontinha de nostalgia do que ela nem sonhava... Não sonhara... E nem sonharia... Ou será que na mesma noite teria ela sonhado com aquele menino e talvez estivesse procurando-o também com o desejo secreto de apenas revê-lo?

Não estava.

Eu a vi entre várias amigas. Estava exatamente como no sonho: o mesmo cabelo curto, o rosto cheio de espinhas, as sobrancelhas fortes que realçavam o brilho dos olhos... É estranho quando você se depara com alguém com quem teve um relacionamento que foi tão intenso, e que no entanto só existiu em sua mente. Talvez seja a mesma sensação de um fã que passa anos sonhando com a oportunidade de ficar cara a cara com seu ídolo e de repente consegue realizar essa façanha. Não sei. Não consigo explicar com palavras, mas lembro-me de ter ficado parado ali por algum tempo, olhando e lembrando. Eu a amei baixinho, num segredo velado, típico desses sonhos que se sonha sozinho... Sonho tão real que venceu até o desafio do tempo e da memória, e que me faz curiosamente lembrar dela, quando eu mesmo já esqueci de tantas pessoas que amei ao longo tempo.

Acho que estou ficando velho.

quinta-feira, 15 de junho de 2006

Morte, o sono dos justos

Hoje é um daqueles dias em que sinto nojo de ser humano. Hoje é um daqueles dias em que tenho vontade de apagar toda e qualquer marca, qualquer evidência, qualquer sinal, de que faço parte dessa espécie mesquinha que domina todos os outros animais que vivem nesse planeta. Hoje é um daqueles dias em que eu gostaria de brincar de Deus, só para poder punir a humanidade (e eu mesmo me incluo nesse grupo miserável) por tudo de ruim que fazemos a nós mesmos.

O fato é que me recuso a aceitar a idéia de que nos dias de hoje pessoas – sim, pessoas assim como eu e como você que lê este texto – morram de fome. Não consigo aceitar a idéia de que uma mãe, que tira o sustento da coleta informal do lixo e, que recebe por isso, mais ou menos, R$ 300,00 mensais, viva com seus seis filhos num barraco de 2 metros quadrados, e tenha que pagar R$ 100,00, por mês, pelo aluguel dessa moradia. Não consigo aceitar a idéia de que seis crianças tenham que comer fubá misturado com água e restos de lixo para poder sobreviver. Não aceito e jamais aceitarei a notícia de que uma menina de um ano e seis meses tenha morrido de fome por não agüentar uma dieta de vários meses à base de fubá com água.

Ela nasceu perfeita e pobre.
Sem nenhum problema físico ou congênito.
Nenhuma doença, só era pobre.
Passou fome por um ano e três meses, sua vida inteira.
Toda a sua existência se resumiu à subalimentação e à agonia da sensação que traduz o desejo de comer.
Quando a levaram ao hospital, descobriram que seu estômago estava atrofiado.
Morreu de fome.

Puta que pariu.
Como é que pode? Como é que alguém ainda pode morrer de fome? Fome não é aquele troço besta que a gente sente de vez em quando, aí vai até a cozinha, pega qualquer coisa, come e passa?

Que raio mundo é esse em que uma criança de um ano e três meses morre de fome e ninguém faz nada? Que mundo é esse em que ninguém questiona o fato de haver pessoas que desfilem por aí em carros que custam U$ 300.000,00, enquanto uma criança de um ano e seis meses morre de fome porque os R$ 300,00 que sua mãe recebe por mês têm que ser divididos entre sete pessoas e o aluguel? Que mundo é esse em que a reificação das relações pessoais atingiu um estágio tão desenvolvido que a morte de alguém, por não ter o que comer, não é suficiente para nos sensibilizar a questionar o porquê das desigualdades sociais?

Tomara que caia um meteoro e destrua essa merda de planeta.

domingo, 4 de junho de 2006

Dancem macacos, dancem



Macacos que se acham mais espertos que os macacos, fazem vídeos criticando outros macacos, esquecendo-se que, na verdade, não passam de "macacos".

O que é uma grande ofensa aos símios...

domingo, 28 de maio de 2006

Conhecer-se é errar

Fernando Pessoa

O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por Sanches, quando disse «nem sei se nada sei». O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e todo o homem superior o dá e atinge. O segundo passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.

Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse «Conhece-te» propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscienciosamente é o emprego activo da ironia. Nem conheço coisa maior, nem mais própria do homem que é deveras grande, que a análise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registo consciente da inconsciência das nossas consciências, a metafísica das sombras autónomas, a poesia do crepúsculo da desilusão.

Mas sempre qualquer coisa nos ilude, sempre qualquer análise se nos embota, sempre a verdade, ainda que falsa, está além da outra esquina. E é isto que cansa mais que a vida, quando ela cansa, e que o conhecimento e meditação dela, que nunca deixam de cansar.

Bernardo Guimarães, in 'O Livro do Desassossego'.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Existencialismo I

ou O estrago causado ao pensamento em decorrência da falta de Fanta Laranja

A abstinência de Fanta Laranja no meu sistema nervoso tem feito um estrago grande em minha sanidade*. Por isso, e talvez como forma de catarse, resolvi registrar mais uma vez meus devaneios aqui. Tenho pensado muito a respeito do existencialismo, principalmente sobre a questão da responsabilidade pelas escolhas e a sua relação com o que definimos por 'destino'.

Acho que estamos perdendo as virtudes de vivermos apaixonadamente; de assumirmos a responsabilidade por quem somos, de tentarmos realizar algo e nos sentirmos bem em relação à vida. O existencialismo é, às vezes, visto como uma filosofia do desespero, mas eu penso que é o contrário. O que ele nos ensina não é que deve existir um sentimento de angústia pela vida, mas sim que devemos encará-la como se ela fosse uma obra aberta, pronta para ser criada e, se preciso, redefinida.

De acordo com Sartre, cada escolha carrega consigo uma responsabilidade. Se escolho ficar em casa dormindo ao invés de ir trabalhar, falar alguma coisa ou escrever nesse blog, tenho que ter consciência de que qualquer conseqüência desses atos terá sido resultado de minha própria escolha. E ao colocar cada escolha em ação provoco mudanças no mundo que não podem ser desfeitas. Não posso, segundo o existencialismo, atribuir a responsabilidade por estes atos a nenhuma força externa, ao destino ou a Deus. A essência da responsabilidade segundo os existencialistas é que eu, por minha vontade e escolha ajo no mundo e afeto o mundo todo. É uma responsabilidade da qual não posso fugir.

Sempre tenho uma incômoda sensação de que algo essencial está sendo deixado de fora do modo como vivemos (ou pelo menos do modo como vivo). Quanto mais se fala sobre o ser humano como um ser social ou como fragmentado ou marginalizado abre-se todo um novo universo de desculpas. E esse talvez seja o ponto: por que sempre complicamos e criamos desculpas? Por que as decisões que tomamos têm que ser influenciadas pelo Outro?

Quando Sartre fala de responsabilidade, não é abstrato. Não se trata do tipo de 'eu' ou de 'alma' de que falam as religiões. É algo concreto. Somos nós, falando, tomando decisões e assumindo as conseqüências. Acho que a mensagem é que não devemos jamais nos eximir da responsabilidade com nós mesmos, e nos vermos como vítimas de várias forças.

Quem nós somos é sempre uma decisão nossa.



*Teria a Coca-cola tido a audácia de cancelar a produção desse doce e alaranjado líquido sem consultar a opinião de seu maior consumidor [ou seja, eu]?

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Apenas um soneto

Mudam-se os tempos, muda-se a verdade,
Muda-se o caráter, muda-se a confiança;
Tudo no mundo tende à mudança,
Mas algo não muda desde a antigüidade,

Aqueles que empregam suas habilidades,
para semear a desconfiança;
Para aos corruptos oferecer aliança,
e tornar a justiça, se já houve, em saudades.

'Artistas' que empregam seu canto,
se é se pode dizer assim de tal zurraria,
para vestir um ladrão de santo.

E é besteira acreditar que tudo mudará um dia.
E é daí que vem o motivo par'o pranto:
'Arte' alienada + mídia é igual a acefalia.

domingo, 7 de maio de 2006

Waking life

Cenas do filme Waking life
Você alguma vez já se questionou se a realidade tal qual a conhecemos é real mesmo? Se aquilo que concebemos como real é o que percebemos com nossos sentidos (visão, olfato, sons, etc) e não com nossa razão, então como podemos ter certeza de que o que percebemos é verdadeiro? Como saber se nossos sentidos não nos enganam? E mais ainda, há pessoas que dizem sonhar muito e outras que reclamam por não sonhar nada. Quer lembrem-se ou não dos sonhos que tiveram, já foi provado que todos os seres humanos sonham, e é aqui que está o ponto a que quero chegar: para o cérebro não faz diferença se é sonho ou realidade (o que explica por que nossas recordações das experiências que registramos dormindo são tão vivas). Mas se o que entendemos como realidade por sua vez for apenas uma convenção de nosso cérebro, então como diferenciar daquilo que é apreendido por nossos sentidos?

Assisti um filme hoje (o título é o mesmo desse texto) que me fez mais uma vez questionar a veracidade daquilo que considero realidade. Na trama, após não conseguir acordar de um sonho, um rapaz passa a encontrar pessoas da vida real em seu mundo imaginário. Uma das questões levantadas pelo filme é: estamos feito sonâmbulos quando estamos acordados ou será que estamos conscientes enquanto sonhamos? Quando paro para pensar a respeito, desconfio, por exemplo, que talvez os loucos sejam os únicos que, por terem perdido essa noção da linha tênue que separa a realidade da ilusão (ou não-realidade), descobriram a falha na matrix e enxergam as coisas como elas realmente são. Na falta de explicação melhor, fico com as palavras do mestre Poe: “O que vejo, o que sou e suponho será apenas um sonho num sonho?”.

À espera dos bárbaros

Constantino Kaváfis (1863-1933)  O que esperamos na ágora reunidos?  É que os bárbaros chegam hoje.  Por que tanta apatia no senado?  Os s...