quarta-feira, 28 de maio de 2008

Italian Spiderman

A versão italiana do Homem-Aranha, dos anos 60, finalmente viu a luz do dia. Italian Spiderman começou a ser exibido no YouTube na semana passada, e terá cenas disponibilizadas semanalmente no website e na página do filme no MySpace.


O filme foi produzido entre 1964 e 1968 pela Alrugo Entertainment, do italiano Alfonso Alrugo. O diretor Gianfranco Gatti e o astro Franco Franchetti - nomes mais famosos da produtora - acabaram afundando suas carreiras quando as distribuidoras consideraram o filme "inassistível".

A única cópia do filme estava perdida em um navio cargueiro que afundou em viagem para os EUA. Segundo os últimos desejos de Alfonso Alrugo, seus netos Vivaldi e Verdi fizeram uma expedição submarina que reencontrou os rolos. É esta versão, remasterizada, que chega agora à Internet.




Fantástico, né? Pois é tudo uma grande piada da Alrugo Entertainment - na verdade, uma produtora montada por estudantes de cinema australianos que se especializou em filmes deliciosamente trash parodiando as piores produções de ação e ficção científica dos anos 60.

Italian Spiderman foi criado como trabalho para a Flinders University, de Adelaide, Austrália. Mas claro que a história fictícia dos primeiros parágrafos - inventada pelos cineastas para dar mais "autoridade" à produção - é bem mais interessante.

Vale a pena conferir também os hilários trailers do filme - principalmente os que focam o frondoso bigode do protagonista.

Fonte: Omelete

sábado, 24 de maio de 2008

Apocalypto

Mel Gibson é um cara talentoso. Polêmico, mas talentoso mesmo assim. Ele já demonstrou isso em sua longa carreira de ator e não o desmentiu quando assumiu a cadeira de diretor -  foi premiado, logo em seu segundo filme (Coração valente, 1995), com o Oscar de melhor diretor. Tudo bem que, vez ou outra ele pisa na bola com filmes que não valem a pena nem citar o nome  e que seu filme seguinte como diretor tenha sido o polêmico e desnecessariamente violento "A paixão de Cristo". Nada disso, no entanto, consegue desfaz minha impressão de que ele é um bom diretor. Seu último filme como diretor, Apocalypto, confirma isso.

Apocalypto

Apocalypto é um bom filme. Longe de ser um épico, é  carregado de boas idéias e usa o fim da civilização Maia como desculpa  para apresentar uma eficiente e descompromissada aventura. O foco está na ação e nas imagens. A violência, pode deixar os de estômago mais fraco com enjôos.

A trama trata da luta de um jovem que decide fugir do destino que lhe assinalaram: o sacrifico em honra dos deuses.  E poderia se dizer muito a respeito do enredo e de seus significados metafóricos, apontar para a questão da posse territorial, para o fanatismo religioso, para a tortura a prisioneiros de guerra, para a limpeza étnica, entre outros.

É uma narrativa fria, seca e assustadoramente realista, que abre margens para certas interpretações e metáforas. Mas, mais importante é o ritmo contagiante com que a história é narrada. Gibson não faz concessões e o resultado é um dos filmes mais violentos de todos os tempos e mais que isso, um filme bastante divertido.

sexta-feira, 14 de março de 2008

The Hire

Entre 2001 e 2002, a BMW contratou os serviços de David Fincher (o diretor de "Seven" e "Clube da Luta") para produzir uma série de curtas-metragem exclusiva para a Internet, por meio da BMW Films: a série "The Hire".

Fincher, então, recrutou vários diretores de renome para conduzir os episódios e um ator britânico na época, pouco conhecido: Clive Owen (de "Mandando bala"). Entre os diretores estão: John Frankenheimer, Ang Lee, Guy Ritchie, Wong Kar-Wai, Joe Carnahan, Alejandro Gonzáles Iñarritu, Tony Scott e John Woo.

Em "Ambush", o diretor John Frankenheimer compensa a fotografia medíocre, a falta de imaginação e o humor rasteiro da trama com uma montagem extremamente ágil, ao narrar os apuros de um contrabandista de diamantes que contrata os serviços do Driver (o personagem central de todas as histórias, sempre interpretado por Owen) e que acaba salvo por ele de um ataque surpresa de bandidos encapuzados fortemente armados.




Em "Chosen", o diretor Ang Lee comprova o talento para criar coreografias vistosas e ousadas (o que já foi comprovado no filme "O tigre e o dragão"), só que desta vez com os carrões possantes da BMW! Na trama, o Driver vai até as docas encontrar um garoto vindo do Tibet, o "escolhido" do título, e vira alvo de mais uma perseguição de bandidos. A curiosidade fica por conta do modo divertido que Lee utiliza para revelar aquele que seria seu próximo filme, uma versão para a telona de um musculoso e esverdeado herói dos quadrinhos.




Guy Richtie, o diretor de "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes", dirige sua moglie Madonna no episódio "Star". Encarnando a tirânica personagem do título, que depois de usar e abusar da irrepreensível polidez do Driver, acaba jogada de um lado para o outro no banco de trás de uma BMW, ao som de "Song 2", do Blur - um surpreendente, cômico e merecido castigo por sua arrogância. Sem dúvida, o melhor e mais bem humorado de todos os curtas, com planos mais inventivos, o melhor texto e os vôos e cavalos de pau mais arrojados de toda a série.




"Beat the Devil", dirigido por Tony Scott é o mais psicodélico de todos. Nesse episódio, o Driver ajuda James Brown a renegociar os termos de um contrato firmado entre o cantor e o diabo (Gary Oldman).


domingo, 17 de fevereiro de 2008

O passado é o que empurra você e eu...

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O passado é o que empurra você e eu e todos da mesmíssima maneira. E a noite pertence a você e a mim e a todo mundo. E o que ainda não foi tentado e o que vem depois é pra você e pra mim e pra todo mundo.
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Walt Whitman

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Aniversário

Álvaro de Campos

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

La speranza

Cesare Pavese

Verrà la morte e avrà i tuoi occhi
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne, sorda,
come un vecchio rimorso o un vizio assurdo.

I tuoi occhi saranno una vana parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Cosi li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi nello specchio.

O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla..

..per tutti la morte ha uno sguardo.
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi.

Sarà come smettere un vizio,
come vedere nello specchio,
riemergere un viso morto,
come ascoltare un labbro chiuso.
Scenderemo nel gorgo muti.

A esperança
Cesare Pavese

Virá a morte e ela terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã até a noite, insone, surda,
como um velho remorso ou um vício absurdo.

Os teus olhos serão uma vã palavra,
um grito não dado, um silencio.
Assim os vê cada manhã
quando sobre ti sozinha te inclinas no espelho.

Ó cara esperança,
aquele dia saberemos também nós
que és a vida e és o nada...

...para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e ela terá os teus olhos.

Será como parar um vício,
como ver no espelho,
re-emergir uma figura morta,
como escutar um lábio fechado.
Desceremos no redemoinho mudos.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Cinco discos aleatórios (e fundamentais)

Alice in Chains, Greatest hits

Como o nome e a capa muito bem ilustram, trata-se da reunião das maiores porradas do Alice in Chains num único disco.

The Wicked Pickett, Wilson Pickett

Parágrafo. WILSON PICKETT. Ponto.

The Rolling Stones, Let's spend the night together

Dois dos maiores clássicos dos Stones.


France Gall, disco homônimo

Diva suprema dos anos sessenta, France Gall é fundamental.

Top hits Portugal

Disco com clássicos de Os Chinchilas, Tudella, Florbela Queiróz, Manuel Freire, Agostinho dos Santos, Teresa Silva Carvalho, João Queiroz, Fernando La Rua, Nicolau Breyner, Edmundo Falé e Madalena Iglésias. Fundamental.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Sterne und Träume

Markus Bomhard

Sterne und Träume
Weißt Du noch,
wie ich Dir die Sterne vom Himmel
holen wollte,
um uns einen Traum zu erfüllen?
Aber
Du meintest,
sie hingen viel zu hoch ...!
Gestern
streckte ich mich zufällig
dem Himmel entgegen,
und ein Stern fiel
in meine Hand hinein.
Er war noch warm
und zeigte mir,
daß Träume vielleicht nicht sofort
in Erfüllung gehen;
aber irgendwann ...?!

Estrelas e sonhos
Markus Bomhard

Estrelas e sonhos
Ainda se lembra,
de quando eu quis buscar as estrelas do céu
para você,
para nos realizar um sonho?

Mas,
você achava,
que elas estavam muito altas ...!
Ontem
espreguicei-me, sem intenção,
em direção ao céu
e uma estrela caiu
na palma da minha mão.
Ainda estava quente
e me mostrou
que talvez os sonhos não
se realizem de imediato;
mas algum dia ...?!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Viagem a Darjeeling

Há algo que distancia os filmes do diretor Wes Anderson dos de outros cineastas; uma espécie de meditação romântica sobre as desagradáveis, mas inevitáveis e necessárias, experiências de amadurecimento (que, no fundo, são o que proporciona um senso de perspectiva e conforto mais tarde na vida). É a mesma sensação que tive, por exemplo, quando li “O apanhador no campo de centeio”, do Salinger.

Enquanto a maioria dos cineastas realiza filmes com uma ou duas cenas memoráveis, alguns diretores, como Anderson, parecem querer que cada cena seja um grande momento – uma combinação perfeita de música, imagem e atuação que encapsula uma certa emoção ou estado de ser.

Em "Viagem a Darjeeling" (The Darjeeling Limited), três irmãos embarcam numa viagem de trem pela Índia. Eles não se falavam desde o funeral do pai e cada um deles traz consigo um problema: Francis é suicida; Peter está com problemas no casamento; e Jack está se recuperando de uma desilusão amorosa. Ao longo da jornada, eles brigam, são expulsos do trem, procuram pela mãe, que os abandonou, e tentam encontrar purificação espiritual. Ao final do filme fica a sensação de que a verdadeira viagem era para aprender a apreciar os prazeres simples que vêm quando se deixa a vida acontecer, assim como no livro do Salinger.

O filme é sobre estar consciente dos perigos de ceder aos mais íntimos impulsos, de que mesmo num ambiente cuidadosamente construído as coisas podem desmoronar e, mais que isso, de que no fundo todas as certezas que se tem não passam de ilusão. O filme consegue transmitir um sentimento de família, não sei se no sentido estrito, mas na forma como seus membros possam interagir, o modo distinto de como as pessoas demonstram amor e preocupação e o desejo de manter essas conexões.

Em determinado ponto da narrativa, o trem em que as personagens estão se perde. A idéia de um trem que se perde dos trilhos é uma boa metáfora para a situação da família Whitman. Francis, o irmão mais velho, cujo rosto foi destruido numa tentativa de suicídio, se pergunta em que ponto da vida seu caminho e o de seus irmãos se distanciaram (uma vez que partiram dos mesmos trilhos...) e se algum dia eles seguirão na mesma direção.

O modo como Anderson filma as seqüências, permite que algumas cenas corram sem edição e que os três irmãos sejam enquadrados num mesmo quadro. A imagem reflete o espaço claustrofóbico do trem, mas também força os irmãos a ficaram próximos uns dos outros.

O filme tem uma bela fotografia e muito do humor vem do modo como as personagens interagem com o local exótico. Assim como nos outros filmes do diretor, a trilha sonora é composta por uma seleção bastante eclética, com músicas do The Kinks, Rolling Stones, Joe Dassin, Peter Sarstedt e várias faixas retiradas de filmes indianos. Fechando para balanço, na minha opinião, é o melhor filme de 2007.


sábado, 8 de dezembro de 2007

Clatu, verata, nictu?

As vezes me perguntam de onde tirei o nome desse blog. Como a explicação foi dada apenas no início dos tempos, no longíquo ano de 2004, e tendo em vista que com o advento do Youtube os argumentos agora podem ser ratificados com som e imagem, acho que está na hora de desvendar o segredo.



"Clatu, verata, nictu" (ou ainda, "Klatu, ferata, nictu", ou, como é mais próximo do original, "Klaatu, barada, nikto") é uma expressão que surgiu no filme de ficção cientítica da Guerra fria, "O dia em que a Terra parou" (The day the Earth stood still, 1951). A frase era usada para impedir que um robô, chamado Gort, destruísse a Terra: "Gort! Clatu, verata, nictu!".

Embora algumas pessoas acreditem que é uma expressão em latim, na verdade trata-se apenas de uma idiossincrasia. Tanto é assim, que não há uma tradução coerente, ao menos não que eu conheça.

"Clatu" é o nome do alienígena humanóide do filme. Em russo, a palavra "barada" (escrita "borodá"/"борода", mas pronunciada "baradá") significa barba e "nikto" (никто) significa "ninguém". Em resumo, fora do contexto do filme não quer dizer nada. Apesar disso, ao longo do tempo a expressão foi usada repetidamente na cultura popular.

Os membros da banda Creedence Clearwater Revival eram fãs do filme e durante sua turnê de 1969 inscreveram as palavras "Klaatu barada nikkto" em todos os seus equipamentos e intrumentos. O robô Gort faz uma minúscula aparição na capa do último álbum em estúdio deles (Mardi Gras).


No filme "Encontros imediatos do terceiro grau" (Close Encounters of the Third Kind, 1977) há uma tomada aérea de uma área subdividida em escritórios com várias pessoas tentando contactar alienígenas. Numa das paredes a frase aparece escrita num grande banner numa das paredes.

No filme "O retorno de Jedi", dois dos guardas de Jabba são chamados Klaatu (um membro da raça nikto) e Barada (um alienigena da espécie Klatooniana).


Por último, mas mais importante, no filme Noite alucinante 3 - O exército das trevas (Evil dead 3 - Army of darkness), o protagonista, Ash, precisa recitar a frase "Clatu, verata, nictu" para afastar o mal e recuperar o Necronomicon, o livro dos mortos. O herói, em sua infinita ignorância, se esquece das palavras e balburcia algo como "Clatu, verata... necktie?" e assim desperta uma horda de zumbis malígnos.





Aí, você me pergunta novamente, "e o que é que isso tem a ver isso com o porquê do título desse blog?" e mais uma vez e eu lhe repondo: nada! Na falta de um título melhor resolvi puxar pela memória e recitar as palavras esquecidas num dos meus filmes preferidos, talvez como uma forma de evitar que um exército de zumbis começase seu domínio da internet por este humilde diário eletrônico.

domingo, 25 de novembro de 2007

Nunca ninguém sabe

Mário Quintana

Nunca ninguém sabe se estou
louco para rir ou para chorar...
Por isso o meu verso tem
esse quase imperceptível tremor...
A vida é triste, o mundo é louco!
Nem vale a pena matar-se por isso
Ninguém por ninguém!
Por nenhum amor...
A vida continua, indiferente!

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Ai se sêsse

Zé da Luz


Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém se acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse

domingo, 18 de novembro de 2007

Einmal nahm ich

Rainer Maria Rilke

Einmal nahm ich zwischen meine Hände
dein Gesicht. Der Mond fiel darauf ein.
Unbegreiflichster der Gegenstände
unter überfließendem Gewein.

Wie ein williges, das still besteht,
beinah war es wie ein Ding zu halten.
Und doch war kein Wesen in der kalten
Nacht, das mir unendlicher entgeht.

O da strömen wir zu diesen Stellen,
drängen in die kleine Oberfläche
alle Wellen unsres Herzens,
Lust und Schwäche,
und wem halten wir sie schließlich hin?

Ach dem Fremden, der uns missverstanden,
ach dem andern, den wir niemals fanden,
denen Knechten, die uns banden,
Frühlingswinden, die damit entschwanden,
und der Stille, der Verliererin


Uma vez tomei
Rainer Maria Rilke

Uma vez tomei entre minhas mãos
teu rosto. Sobre ele caia a lua.
O mais fantástico dos objetos
submerso em pranto.

Como algo dócil, que existe em silêncio,
contê-lo era quase como que um ardil.
E, ainda assim, não havia o que na
fria noite mais infinitamente me escapava.

Oh, porque desembocamos nestes lugares,
represando na pequena superfície
todas as ondas de nossos corações,
prazer e fraqueza,
e a quem ofereceremos tudo ao final?

Ah, aos estranhos, que nos mal entenderam,
ah, aos outros, que jamais encontramos,
aos servos, que nos ataram,
aos ventos de primavera, que se desvaneceram,
e ao sossego, o perdedor.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Odeio as manhãs

Odeio as manhãs. Por mim não dormiria jamais. À noite, a mente elabora um fluxo descontínuo e fragmentado de idéias, sentimentos e frustrações e transforma tudo em pesadelo ou sonho. Aí chega a manhã, e tudo ressurge como uma mancha de óleo, como uma nuvem sufocante de gás. E a realidade, é apenas tristemente, cruelmente, malditamente a realidade.

sábado, 10 de novembro de 2007

A dream

Edgar Allan Poe

In visions of the dark night
I have dreamed of joy departed--
But a waking dream of life and light
Hath left me broken-hearted.

Ah! what is not a dream by day
To him whose eyes are cast
On things around him with a ray
Turned back upon the past?

That holy dream--that holy dream,
While all the world were chiding,
Hath cheered me as a lovely beam
A lonely spirit guiding.

What though that light, thro' storm and night,
So trembled from afar--
What could there be more purely bright
In Truth's day-star?

Um sonho
Edgar Allan Poe

Em visões da noite sombria
Sonhei uma alegria partida –
Mas um sonho acordado de vida e alegria
Deixou em meu coração uma ferida.

Ah! O que não é um sonho diurno
Para aquele cujo olhar arremessa
Em coisas ao seu redor como um raio
Que ao passado regressa?

Que sonho sagrado – que sonho sagrado,
Enquanto o mundo só reprovação via,
Encorajava-me como um raio amado
Um solitário espírito guia.

O que através daquela luz, através da noite e da tempestade,
Tão trêmula lá distante –
O que poderia ser mais puramente brilhante
Na diurna estrela da verdade?

domingo, 4 de novembro de 2007

Noam Chomsky vs Michel Foucault

Justiça vs Poder



Chomsky

"Toda forma de coerção ou repressão, toda forma de controle autocrático de alguns domínios da existência, digamos, a propriedade privada de capital de alguns aspectos da vida humana como, por exemplo, restrições autocráticas sobre algumas áreas de atividade humana, podem ser justificadas, de modo algum, apenas em termos da necessidade de subsistência, ou da necessidade de sobrevivência, ou da necessidade de defesa contra algum destino terrível ou algo do tipo. Isso não pode ser justificado intrinsecamente. Pelo contrário deve ser superado e eliminado”.


Foucault

"Sabe-se que a universidade e, de modo geral, todos os sistemas educacionais, que aparentam simplesmente disseminar o conhecimento, são feitos para manter uma certa classe social no poder; e para excluir os instrumentos de poder de outras classes sociais".

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A maravilhosa cozinha existencialista

No último fim-de-semana, a Equipe PROTONS foi passar o domingo descansando numa velha casa abandonada desde o século XIX, que fica em algum lugar esquecido na estrada w3 entre as quadras 710 e 715. Lá, nós tivemos a sorte de descobrir diários perdidos de existencialistas franceses do século XIX. Nesses livros estão curiosas associações entre dor e sabor, que perturbará todas as definições metafísicas e conceitos holísticos dos que achavam que uma macarronada não tem nada de existencialista. Para quem se desespera com a questão de quem veio antes, o ovo ou a galinha, haverá de concordar que, pelo menos, num frango assado com farofa de ovos, os dois vão ao mesmo tempo bucho a dentro...
por Bruno Cavalcanti


Diário de Vitor Sodré, existencialista francês, 1891:

15 de janeiro: "Aqui estou eu, preso em mim mesmo, vendo da janela do meu quarto imundo o amontoado de carros indo e vindo, perdidos em sua própria insignificância... Olho para o relógio e concluo ser a hora do almoço... Qual o significado desse momento, tão definitivo na vida do homem comum?... Minha alma agoniza, eu preciso descobrir... Prepararei uma sopa de batatas e chegarei a algum lugar..."

"Coloquei quantas batatas eu quis numa panela. Coloquei água, mas só a quantidade necessária para que as batatas ficassem quase submersas, apenas com uma pequena parte fora d'água, para que se sintam sufocadas, angustiadas..."

"Levei a panela para o lugar mais frio da casa. Coloquei uma cadeira de frente para ela e fique sentado para sempre... Pensei sobre o quanto estou faminto, mas que a escolha é minha de continuar ou não assim. Quando anoitecer, não acenderei as luzes..."

16 de janeiro: (notas de rodapé) "...Como poderei saber ao certo se a batata escolheu ou não ser comida por mim? Isso me deixa mais e mais frustrado..."

"...Sei que aquela panela não representa por si só todas as angústias do homem desamparado num mundo sem Deus. Mas como posso demonstrar isso apenas com carboidratos?..."

17 de janeiro: "Acordei hoje decidido a tirar interpretações mais radicais sobre a sopa, numa tentativa de, talvez, expressar o vácuo existencial entre a fome e a dor. Estou bastante encorajado com os resultados, mas minha jornada ainda é longa..."

"Verduras são vitaminas, que representam o prazer do homem, o supérfluo, a negação. Pode ser que a mistura entre alface, coentro e repolho com a batata, resulte no suicídio da sopa... Mas de qualquer forma, o risco é meu..."

31 de janeiro: "Me tranquei no banheiro por quatorze dias por arrependimento, me negando a encarar qualquer um..."

9 de fevereiro: "...Venho colocando mais e mais batatas na sopa, dia após dia, como soldados marchando para o mar revolto e imprevisível. Melancólico, olho para as batatas, mas elas não me olham de volta... Preciso prová-las, mas não consigo! Apago as luzes, mas não adianta!... Preciso de mais força de vontade... Leio algumas passagens de Kierkegaard e estou finalmente pronto! Droga, tentei criar uma sopa que expressasse o sentido da existência, mas em vez disso, tem gosto de batata!... O que Albert Camus faria? Talvez um pouco de cebola..."

"É a hora do julgamento dos valores da sopa. Pus ela para cozinhar... As batatas pulam angustiadas enquanto a água ferve. Chego à conclusão de que a batata, mesmo livre, é vitimada pelo ambiente e sofre por isso. Estou muito feliz... Estou tão feliz que estou quase surtando!!!... Vou voltar pro banheiro..."

13 de fevereiro: "...Faz quatro dias que estou no banheiro, e já caíram 8.596 gotas de água na pia. Tudo é mesmo tão efêmero!... Ao sair do banheiro, percebo que o fogo do fogão (no caso, o fogão é a existência e o fogo é a essência) se extinguiu. A água evaporou da panela, embora, de gota em gota, continue existindo da torneira até a pia. Quão subjetivo é tudo isso! Estou tonto, acho que vou desmaiar..."

"Preciso colocar mais sal para poder chegar à definição perfeita do sentimento do vocábulo 'sopa'. O que ele representa? O quanto ele vale? Como ele se sente? Diabos, o que importa, já sei que a sopa vai viver e morrer sozinha!..."

14 de fevereiro: "As coisas não aconteceram como eu esperava! A sopa está cheirando mal, talvez tenha estragado... Afinal, faz um mês e meio que a venho preparando... Enfim, que seja! Não é este mesmo o fim de todas as coisas?..."

Fonte: http://www.protons.com.br/megazine/Xreceitas-existen.html

sábado, 20 de outubro de 2007

Existencialismo II

O homem é o único animal que se define a si próprio através do ato de viver. Em outras palavras, o homem (ou a mulher) primeiro existe, depois o indivíduo usa o tempo de sua vida para mudar a sua essência. O sentido da vida só é dado com a vivência. A busca do sentido da vida no existencialismo é a busca por si próprio.

Diferente do que muitos pensam, o existencialismo não é um tema sombrio ou deprimente. O existencialismo é sobre a vida. Mas não a vida como esta é tratada por Nietzsche ou Schopenhauer, que apesar de terem focalizado parte de suas reflexões para questões tipicamente existencialistas, o fizeram sem abandonar suas respectivas linhas de pensamento, ou seja, suas reflexões direcionavam-se para a vida e não para existência em si. A questão primordial é: em que lugar de sua filosofia o filósofo trata da existência? Ou ainda, ela tem prioridade?

Os filósofos da existência empenham-se em pensar o individuo real e contraditório a partir de sua existência cotidiana sem qualquer relevo especial. Some-se a isso fato de as filosofias da existência serem anti-naturalistas: existir é a condição/situação na qual nos encontramos desde sempre, não é uma natureza. O humano é, portanto, não-definível.

Nietzsche criticou a moral socrática, mas ao fazer isso, não considerou a singularidade de Sócrates como indivíduo, como Kierkegaard, por exemplo, o fez. Nietzsche considerou Sócrates e Cristo como figuras históricas (seus conceitos, o que representam) e não como singulares singularíssimos. O ponto é que tanto Schopenhauer como Nietzsche tratavam o Ser e seus estados de maneira totalizadora e não singular. As filosofias não existenciais podem dar respostas objetivas para o mundo, o existencialismo, não. Ele coloca o acento na subjetividade, no ponto de vista interior.

As filosofias existencialistas consideram o homem como um ser finito, continuamente confrontado com situações problemáticas e absurdas. O que interessa ao existencialismo é o homem em sua singularidade. No centro do pensamento existencialista encontra-se o homem singular e finito que faz escolhas e que lida com a situação de estar jogado no mundo.

domingo, 7 de outubro de 2007

Lösch mir die Augen aus

Rainer Maria Rilke

Lösch mir die Augen aus: ich kann dich sehen.
Wirf mir die Ohren zu: ich kann dich hören.
Und ohne Füße kann ich zu dir gehen.
Und ohne Mund noch kann ich dich beschwören.
Brich mir die Arme ab, ich fasse dich mit meinem Herzen,
Wie mit einer Hand.
Halt mir das Herz zu, und mein Hirn wir schlagen.
Und wirst du in mein Hirn den Brand,
so werd' ich dich auf meinem Blute tragen.

Apaga-me os olhos

Apaga-me os olhos: eu poderei te ver.
Tapa-me os ouvidos: eu poderei te ouvir.
E sem pés poderei até a ti chegar.
E sem boca ainda poderei te invocar.
Rompa-me os braços, eu te abraçarei com meu coração,
assim como com uma mão.
Pára meu coração, e meu cérebro pulsará.
E se tu incendeias meu cérebro,
levar-te-ei em meu sangue.

sábado, 6 de outubro de 2007

Apesar de tudo

É preciso tentar,
apesar das pessoas,
apesar das escolhas,

apesar dos erros,
apesar do cansaço,
apesar da sorte,
apesar da falta de sorte.

É preciso viver,

apesar das pessoas,
apesar da seca,
apesar do semestre,
apesar dos impostos,
apesar da morte,
apesar da vida.

É preciso amar,
apesar do egoísmo,
apesar da distância,
apesar do medo,
apesar do ódio,
apesar das pessoas,
principalmente das pessoas,
principalmente as pessoas.

À espera dos bárbaros

Constantino Kaváfis (1863-1933)  O que esperamos na ágora reunidos?  É que os bárbaros chegam hoje.  Por que tanta apatia no senado?  Os s...