sábado, 15 de outubro de 2005

Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!

José Saramago


Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!

Arranjo de Soares Feitosa

Vem aqui, Tomé,

vem comigo até a borda da água,

vem ver-me fazer uns pássaros

com esta lama que colho...

Repara como é tão fácil,

formo e modelo o corpo

e as asas;

afeiçôo a forma da cabeça

e do bico; engasto estas pedrinhas

que são os olhos;

ajeito as penas compridas

da cauda;

equilibro-lhes as pernas e os dedos

e tendo feito

este, faço mais onze;

aqui os tens, um dois, três

quatro, cinco, seis, sete, oito,

nove, dez, onze, doze pássaros

de lama...

Imagina, até, se quiseres,

dar-lhes nomes: este é Simão,

este é Tiago, este é André, este é João, e este,

se não te importas, chamar-se-á

Tomé.

Quanto aos outros vamos esperar

que os nomes apareçam;

os nomes, muitas vezes, atrasam-se

no caminho, chegam

mais tarde...

E agora vê como faço — lanço esta rede

por cima das avezinhas

para que elas não possam fugir, os pássaros..., se

não temos cuidado.

Queres dizer-me que se esta rede

for levantada os pássaros fogem?

Esta é a prova com que querias

convencer-me?

Sim e não!

Como, sim e não?

A melhor prova, mas essa

não é de mim que depende, seria

não levantares tu a rede e acreditares

que os pássaros fugiriam se a levantasses.

São de barro, não podem fugir.

Experimenta! Também Adão,

nosso primeiro pai, foi de barro e tu

descendes dele.

A Adão deu-lhe vida Deus!

Não duvides mais, Tomé! Levanta a rede, eu sou

o Filho de Deus.

Assim o quiseste, assim o terás,

estes pássaros não voarão!

Com um movimento

rápido, Tomé levantou

a rede, e os pássaros,

livres, levantaram vôo, chilreando,

duas voltas

sobre a multidão maravilhada

e desapareceram no espaço.

Disse Jesus:

Olha, Tomé, o teu pássaro

foi-se embora.

E Tomé respondeu:

Não. Senhor, está aqui ajoelhado a teus pés,

sou eu.

"Versificação", a partir do ritmo cardíaco e do batimento respiratório (uma "viagem", como se, entre os olhos e o ouvido Saramamgo, o Nobel da lusonofia médio) de um texto de Saramago, in O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Companhia das Letras, 31ª reimpressão, páginas 398/399, sem nenhuma alteração a mais ou a menos que a mera arrumação em versos e estrofes. Nem preciso mencionar que este texto em Saramago (aliás, o Evangelho inteiro) é um bloco compacto, com mínimas "cesuras" por vírgulas e nada mais.

Prosa e poesia seriam, assim sem mais nem menos, a Soares Feitosa, 2001 mesma coisa? Sim e não, aliás, sim... desde quê. E por favor bote muitos desdes-quês nessa história. De fato, é possível "metrificar" Euclices da Cunha, Guimarães Rosa, José de Alencar, Clarice Lispector e não muito mais que uns cinco gatos pingados. Da mesma forma, excelente "prosa" em... Álvaro de Campos. É só tentar... desde quê.

Soares Feitosa

Fortaleza, CE, noite alta, 5.5.2003


sábado, 8 de outubro de 2005

Não quero que...

Mário Quintana

Não quero alguém que morra de amor por mim... Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando. Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.

Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim... Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível... E que esse momento será inesquecível... Só quero que meu sentimento seja valorizado.

Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre... E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor. Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho... Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento... E não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.

Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe... Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz. Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...

Dormimos a vida

Bernardo Soares

Quando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta. Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita. Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.

Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos. A sensação era exactamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme. Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta. Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda a vida social dormente, por todos, por tudo. (...)

Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes - tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.

Trecho extraído de: PESSOA, Fernando. Livro do desassossego, composto por Bernardo Soares, São Paulo, Cia das Letras, 2003.

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

Aprenda a chamar a polícia

falando em desarmamento...
Luís Fernando Veríssimo

Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa. Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruidos que vinham la de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro. Como minha casa era muito segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não fiquei muito preocupado mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali, espiando tranquilamente.

Liguei baixinho para a polícia informei a situação e o meu endereço. Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa. Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.

Um minuto depois liguei de novo e disse com a voz calma:
- Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara!

Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate , uma equipe de TV e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.

Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado. Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia. No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:
- Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.
Eu respondi:
- Pensei que tivesse dito que não havia ninguém disponível.

sábado, 1 de outubro de 2005

Leis de Murphy

Edição Revista e Atualizada


1.
Se você não perde cabeça quando todos ao redor já perderam, talvez você apenas não esteja entendendo a situação.

2. Lei de Mencken

Para cada problema da humanidade existe uma solução simples e clara, e esta será sempre a solução errada.

3. Lei de Sevareid

A principal causa dos problemas são as soluções.

4. Lei de Thoreau

Se alguém aproximar-se de você com a intenção declarada de lhe fazer o bem, é melhor correr para salvar sua vida.

5. Lei de Peer

A solução do problema muda o problema.

6. Lei do Unicórnio

Nunca brinque de pular cancela com um unicórnio.

7. Conjectura de Lyall

Se um cabo de computador tem um lado, então ele tem outro.

8. Observação Fundamento de Lyall

A perna mais importante de uma mesa de três pernas é aquela que está faltando.

9. Lei de "de la Lastra"

Depois do último dos 16 parafusos ser retirado de uma tampa, será decoberto que estava sendo removida a tampa errada.

10. Corolário de "de la Lastra"

Depois que uma tampa for presa por 16 parafusos, será descoberto que uma ferramenta foi esquecida.

11.

As falhas de projeto andam sempre em grupos.

12. Verdade fundamental de Gerrold

É uma boa coisa que o dinheiro não possa comprar a felicidade. Nós não agüentaríamos os comerciais.

13. Pronunciamento de Gerrold

A diferença entre um político e uma lesma é que a lesma deixa um rastro gosmento.

14. Segunda Lei de Mencken

Quando um homem ri das suas desgraças ele perde muito amigos. Eles nunca perdoam a perda desta oportunidade.

15. Terceira Lei de Mencken

Um idealista é aquele que, ao perceber que as rosas cheiram melhor que as ervilhas, conclui que elas dariam uma sopa melhor.

16. Terceira lei de Clarke

Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguivel da mágica.

17. Primeiro postulado do isomurfismo

As coisas que não são iguais a coisa nenhuma são iguais entre si.

18. A lei inaplicável

Lavar o seu carro para fazer chover não funciona.

19. Lei de Witten

Sempre que você cortar suas unhas, você descobrirá uma necessidade para elas uma hora depois.

20. Postulado de Perkins

Quando maior você é, mais fortes eles batem.

21. Postulado de Harrison

Para cada ação existe uma crítica igual e no sentido contrário.

22. Lei de Conway

Em uma empresa existe sempre uma pessoa que sabe o que está acontecendo. Esta pessoa deve ser despedida.

23. Lei da retroação de Stewart

É mais fácil conseguir o perdão que a permissão.

24. Segunda lei de MacDonald

Consultores são pessoas místicas que perguntam algo à empresa e depois dizem a mesma coisa de volta para ela.

25. Primeira lei do trabalho em laboratório

Um frasco quente é exatamente igual a um frasco frio.

26. Guia prático para a ciência moderna

1.Se é verde, é Biologia.

2.Se fede, é Química.

3.Se não funciona, é Física.

27. Teoria Info-social de Marcos

Errar é humano, mas para fazer coisas realmente idiotas é necessário um computador.

28. O princípio da salsicha

Pessoas que gostam de salsicha e de respeito não devem saber como os dois são feitos.

29. Observação de Horngren (generalizada)

O mundo real é uma exceção.

30. Máxima de Merkin

Na dúvida, preveja que a tendência atual continuará.

31.

Nunca atribua à malicia aquilo que pode ser explicado aceitavelmente pela estupidez.

32. Lei de Gold

Se o sapato couber, ele é feio.

33. Lei das reprises

Se você assistiu uma série de TV apenas uma vez, quando você assistir à reprise será o mesmo episódio.

34. Lei de Shirley

A maioria das pessoas se merecem.

35.

Perdoe e lembre.

36. Lei de Woltman

Nunca programe e beba cerveja ao mesmo tempo.

37. Revelação de Gallois

Se você dá lixo a um computador, nada sairá dele além de lixo. Mas se o lixo passou por uma máquina muito cara, ele será de alguma forma enobrecido e ninguém se atreverá a criticá-lo.

38. Lei da adivinhação política de Galbraith

Se alguém diz quatro vezes que não vai renunciar, ele certamente irá.

39. Lei de Allen

É quase sempre mais fácil entrar do que sair de qualquer coisa.

40. Axioma de Aleen

Se tudo o mais falhar, siga as instruções.

41.

Você pode liderar uma horta, mas você não pode fazê-la pensar.

42. Observação de Avery

Não importa que você caia, desde que você apanhe algo no chão quando se levantar.

43. Lei de Berra

Você pode observar muito só olhando.

44. Lei das bicicletas

Todas as bicicletas pesam 20 quilos.
As bicicletas de 14 quilos precisam de um cadeado de 6 quilos.
As bicicletas de 17 quilos precisam de um cadeado de 3 quilos.
As bicicletas do 20 quilos não precisam de cadeados.

45. Lei de Cohen

O que importa é o nome que você dá aos fatos, não os fatos em si.

46. Lei de Comim

As pessoas aceitarão sua idéia muito mais facilmente se você disser a elas que quem a criou foi Albert Einstein.

47. Quarta lei da termodinâmica

Se a probabilidade de sucesso é quase um, então ela é próxima de zero.

48. Lei de Gerrold das dinâmicas infernais

1.Se um objeto está em movimento, ele está indo na direção errada.

2.Se um objeto está parado, ele está no lugar errado.

49. Lei dos contratos de Goldwin

Um contrato verbal é aquele que não vale o papel em que seria escrito.

50. Postulado do governo democrático de Jacquin

A vida, a liberdade e a propriedado do homem nunca estão seguros enquanto o congresso está em sessão.

51. Princípio de Jone

As necessidades são coisas que outras pessoas possuem.

52. Lei de Langin

Se as coisas tivessem sido deixadas ao acaso, elas estariam melhores.

53.

Não importa o quanto o produto custa, mas quanto você ganha de desconto.

54. Lei dos custos e dos prazos de Pournelle

Tudo custa mais e demora mais tempo.

55. Lamento de Klipstein

Todas as garantias acabam no ato do pagamento da fatura.

56. Observação de Klipstein

Qualquer produto cortado no tamanho exato será pequeno demais.

57. Anotação de Sueker

Se você precisa de "n" itens de um produto, você terá "n-1" em estoque.

58. Arrependimento de Rosenfield

O componente mais delicado é aquele que é derrubado.

59. Quarta lei de Menchen

Sempre que um homem fala do seu amor pela sua pátria, ele certamente espera ser pago por isso.

60. Quinta lei de Menchen

Democracia é a teoria de que as pessoas comuns sabem o que desejam e merecem consegui-lo da forma mais difícil.

61. Sexta lei de Menchen

Um juiz é um estudante de direito que corrige suas próprias provas.

62. Arcana Coelestica

Arcebispo. Um eclesiástico cristão com o grau superior ao de Cristo. Puritanismo. O enorme medo de que alguém, em algum lugar, possa ser feliz.

63. Sétima Lei de Menchen

O adultério é a aplicação da democracia ao amor.

64. Leis militares de Murphy

1. Nunca fique na mesma trincheiro com alguém mais valente que você.
2. Nenhum plano de batalha sobrevive a um contato com o inimigo.
3. Fogo amigo não é amigo.
4. A coisa mais perigosa na zona de combate é um oficial com um mapa.
5. O problema em usar a saída mais fácil e que ela já foi minada pelo inimigo
6. O companheirismo é essencial à sobrevivência. Ele dá ao inimigo outra pessoa em quem atirar.
7. Quanto mais você avança em suas posições, menor é a distância da artilharia do inimigo.
8. O fogo do inimigo tem a preferencial.
9. Se você avança facilmente, você está indo para uma emboscada.
10. O quartel tem apenas dois tamanhos: pequeno demais e grande demais.
11. Se você precisa de um oficial urgente, tire uma soneca.
12. O único lugar onde o cessar fogo funciona é em quando ele é usado em posições abandonadas.
13. A única coisa mais certeira que o fogo inimigo é o fogo amigo.
14. Não existe nada mais agradável do que quando alguém atira em você, e erra.
15. Se seu sargento consegue lhe ver, o inimigo também.

65. Afirmação de Hoover

Abençoados são os jovens, pois eles herdarão a dívida externa.

66. Observação de Ralph

É um erro deixar qualquer objeto mecânico perceber que você está com pressa.

67. Máxima de Manly

A lógica é um método para chegar a uma conclusão errada com confiança.

68. Verdade de Moer

O problema com a maioria dos empregos é a semelhança do empregado com um dos cachorros de uma equipe de corrida de trenó. Apenas o líder dos cachorros consegue apreciar a paisagem.

69. Comentário de Cannon

Se você disser ao patrão que se atrasou porque um pneu do carro furou, seu carro furará o pneu na manhã seguinte.

70. Lei de Murphy

Se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará.

71. Corolário de Murphy

Deixadas ao acaso, as coisas tendem a ir de mal a pior.

72. Constante de Murphy

As coisas são danificadas proporcionalmente ao seu valor.

73. Revisão quantizada da lei de Murphy

Tudo dá errado ao mesmo tempo.

74. Comentário de O'Toole

Murphy era otimista.

75. Segunda lei de Scott

Se um erro for detectado e corrigido, descobriremos depois que não havia erro antes e sim depois da correção.

76. Primeira lei de Finagle

Se uma experiência funciona, algo deu errado.

77. Segunda lei de Finagle

Independente do resultado de uma experiência, existirá sempre alguém querendo:
1. Interpretar a experiência incorretamente
2. Falsificar sua experiência ou
3. Acreditar que ela justifica a sua própria teoria.

78. Terceira lei de Finagle

Em um conjunto de dados, a peça que obviamente está correta, acima de qualquer suspeita, é o erro.

79. Quarta lei de Finagle

Uma vez que um trabalho foi estragado, qualquer coisa feita para melhorá-lo vai torná-lo pior.

80. Lei de Gumperson

A probabilidade de uma coisa acontecer é inversamente proporcional ao desejo que ela aconteça.

81. Lei de Rudin

Em uma crise, quando as pessoas são forçadas a escolher entre diversos tipos de ação, a maioria escolherá a pior ação possível.

82. Reestruturação das leis da Termodinâmica por Ginsberg

Você não pode vencer.
Você também não pode quebrar.
Você não pode desistir.

83. Comentário de Ehrman

Diz-se que as coisas pioram antes de melhorar. E quem disse que elas iriam melhorar?

84. Segunda lei da Ecologia de Commoner

Nada jamais vai embora.

85. Lei de Howe

Todos têm um plano de que não funciona.

86. Primeira lei da Evolução Dinâmica de Sistemas de Zymurgy

Se você abre uma lata de minhocas, a única forma de colocá-las de volta em uma lata é usar uma lata maior.

87. Lei das Expectativas Não-Recíprocas

Expectativas negativas dão resultados negativos. Expectativas positivas dão resultados negativos.

88. Lei de Klipstein

A tolerância acumulará unidirecionalmente em direção à máxima dificuldade de montagem.

89.

Você não acha um produto perdido a não ser que compre outro igual.

90. Leis de Murphy para a Programação

1. Todo programa, quando acabado, estará obsoleto.
2. Todo programa custa mais e demora mais tempo.
3. Se um programa é útil, ele deve ser modificado.
4. Se um programa é inútil, ele deve ser documentado.
5. Os programas expandem de forma a encher toda a memória disponível.
6. O valor de um programa é proporcional ao peso de seus relatórios.
7. A complexidade de um programa cresce até exceder a capacidade do programador que deve mantê-lo.
8. Todo programa não trivial possui pelo menos um bug.
9. Erros não-detectáveis são infinitos, ao contrário dos erros detectáveis que são, por definição, limitados.
10. Adicionar mais pessoas a um projeto de software atrasado o tornará ainda mais atrasado.

91. Lei de Glatum da Aquisição Materialística

A utilidade perceptível de um produto é inversamente proporcional à real utilidade depois que o produto foi comprado e pago.

92. Lei de Lewi

Não importa o quanto você pesquise antes de comprar um produto. Depois que você comprá-lo você sempre descobrirá que ele está à venda em outro lugar por um preço menor.

93.

Se ninguém usa, existe uma razão.

94.

Sempre se consegue o máximo daquilo que não se precisa.

95. Lei do Avião

Quando o avião em que você está se atrasa, o avião com o qual você fará conexão estará no horário.

96. Observação de Etorre

A outra fila sempre anda mais rápido.

97. Primeira Lei da Revisão

A informação sobre a necessidade de mudança de um projeto sempre será enviada ao projetista depois e somente depois do projeto estar totalmente terminado. (Conhecida como "E só agora ele me diz...")

98. Segunda Lei da Revisão

Quanto mais insignificante uma mudança aparenta ser, mais sua influência aumentará de modo a modificar totalmente o projeto.

99. Corolário da Primeira Lei da Revisão

Em casos simples, existindo uma opção obviamente correta e outra obviamente errada, é mais indicado escolher a opção errada, de forma a antecipar a próxima revisão.

100. Lei de Lubersky da Entomologia Cibernética

Sempre existe mais um bug.

101. Princípio de Shaw

Crie um sistema que até um idiota pode usar e apenas um idiota vai querer usá-lo.

102. Lei da Perversidade da Natureza

Você nunca pode identificar qual dos lados da torrada é o lado que se deve passar a manteiga.

103. Lei da Gravidade Seletiva

Um objeto sempre cai de forma a causar o maior prejuízo possível.

104. Corolário de Jennings à Lei da Gravidade Seletiva

A chance de uma torrada cair com o lado da manteiga para baixo é diretamente proporcional ao valor do tapete.

105. Segunda Lei de Wyszkowski

Qualquer coisa pode ser colocada para funcionar se você mexer com ela o tempo suficiente.

106. Lei de Sattinger

Funciona melhor quando você liga na tomada.

107. Lei de Lowery

Se emperrar, force. Se quebrar, já precisava de conserto de qualquer jeito.

108. Lei de Schimidt

Se você mexer com algo o tempo suficiente, conseguirá quebrar.

109. Lei da Força de Anthony

Não force. Use um martelo maior.

110. Axioma da Cahn

Quando tudo o mais falhar, leia as instruções.

111. Primeira Lei de Gordon

Se não vale a pena fazer algo, também não vale a pena fazê-lo bem feito.

112. Lei da Pesquisa

Uma determinada quantidade de pesquisa tende a suportar sua teoria.

113. Lei de Maier

Se os fatos não comprovam sua teoria, despreze-os.

114. Lei de Bokonon

Cuidado com o homem que se esforça muito para aprender alguma coisa, aprende e depois nota que não está mais inteligente do que antes. Ele é cheio de um ressentimento assassino das pessoas que são ignorantes sem terem chegado a esta ignorância pelo caminho mais difícil.

115.

Ajude um homem quando ele está com problemas e ele sempre se lembrará de você quando estiver com problemas de novo.

116.

Você pode fazer um homem rir, mas você não pode fazê-lo pensar.

117.

Nao se irrite, se vingue.

118. Lei de Carson

É melhor ser rico e saudável do que pobre e doente.

119. A Lei do Ouro

Quem tem o ouro faz a lei.

120. Marco de Mark

Amor é uma questão de química. Sexo é uma questão de física.

121. Conclusão de Korman

O problema em resistir às tentações é que elas podem não aparecer nunca mais.

122. Lei de Knight

Vida é o que acontece com você enquanto você faz outros planos.

123. Pensamento de Maugham

Somente uma pessoa medíocre está sempre usando todo o seu potencial.

124. Observação de Krueger

Um contribuinte é alguém que não tem que fazer um concurso para trabalhar para o governo.

125. Lei da Distinção de Benchley

Existem dois tipos de pessoas no mundo: as que acreditam que existem dois tipos de pessoas no mundo e as que não acreditam.

126. Lei de Harver

As palavras de um bêbado são os pensamentos de um sóbrio.

127. Observação de Schimidt

Se tudo o mais for igual, uma pessoa gorda usa mais sabonete que uma pessoa magra.

128. Lei de Gibb

Infinito é um advogado esperando por outro.

129.

Os idiotas vão correndo para onde outros idiotas já estiveram antes.

130. Lei da Precisão

Quando se procura a solução de um problema, sempre ajuda conhecer a resposta.

131.

Dentro de cada problema pequeno existe sempre um grande problema lutando para sair.

132. Lei de Wyszowski

Nenhuma experiência é reproduzível.

133. Lei de Fett

Nunca tente reproduzir uma experiência bem sucedida.

134. Lei de Brooke

Sempre que um sistema está totalmente definido, algum idiota descobre algo que ou abole o sistema ou então expande-o até um ponto em que fica irreconhecível.

135. Primeiro mito da Administração

Acreditar que ela existe.

136.

Perca tempo suficiente confirmando uma necessidade e ela desaparecerá.

137. Lei de Peter

Um grama de imagem vale um quilo de performance.

138. Lei do Trabalho Voluntário de Zymurgy

As pessoas estão sempre disponíveis para trabalho no passado.

139. Lei de Wiker

O governo expande de forma a absorver todo o orçamento e algo mais.

140. Primeira lei de Clarke

Quanto um cientista velho e reconhecido afirma que algo é possível, ele está provavelmente certo. Quando ele diz que algo é impossível, está provavelmente errado.

141. Lei de Segal

Um homem com um relógio sabe que horas são. Um homem com dois relógios nunca tem certeza.

142. Lei de Weiler

Nada é impossível para o homem que não tem que fazer por conta própria.

143. Segunda Lei de Weinberg

Se os engenheiros construíssem prédios como os programadores escrevem programas, um único picapau seria capaz de destruir a civilização.

144. Segunda Lei de Hartley

Nunca vá para a cama com alguém mais louco que você.

145. Lei de Beckhap

Beleza vezes Inteligência é igual a uma constante.

146. Lei de Katz

Um homem e uma mulher agirão racionalmente quando todas as outras possibilidades forem esgotadas.

147. Axioma de Cole

A soma de toda a Inteligência no planeta é uma constante e a população está aumentando.

148. Lei de Vique

Um homem sem religião é como um peixe sem uma bicicleta.

149. Consideração de Jone

Amigos vêm e vão, mas os inimigos se acumulam.

150. Comentário de Churchill sobre o homem

O homem pode ocasionalmente tropeçar na verdade, mas na maioria das vezes ele se levanta e continua indo na mesma direção.

151. A mais importante das leis

Todas as afirmativas genéricas são falsas.

152. A Lei Indizível

Sempre que se menciona algo: se é bom, vai embora; se é ruim, acontece.

153. A Lei do sussurro

As pessoas acreditam em tudo que lhes é sussurrado.

154. Primeira Lei do Vôo

Nunca largue o que você está segurando até que segure outra coisa.

155.

Coma uma lesma viva de manhã e nada pior lhe acontecerá durante o dia.

156. Corolário de Farnsdick

Depois que as coisas forem de mal a pior, o ciclo se repetirá.

157. Lei de Lynch

Quando as coisas pioram, todos vão embora.

158. Lei da Revelação

Nenhuma falha escondida permanece escondida.

159. Lei de Langsam

Tudo depende.

160. Lei de Hellrung

Se você esperar, ele irá embora.

161. Extensão de Shevelson

Se você esperar, ele irá embora, depois de causar seu prejuízo.

162. Adição de Rosemberg

Se você esperar, ele irá embora. Se foi ruim, ele voltará.

163. Menção de Grossman

Problemas complexos tem soluções simples, fáceis de entender e erradas.

164. Preceito de Ducharme

A oportunidade sempre bate no momento menos oportuno.

sábado, 10 de setembro de 2005

SEJA UM IDIOTA

Arnaldo Jabor

A idiotice é vital para a felicidade. Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins.

No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele.

Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto. Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça?
Ha ha ha ha ha ha ha ha!

Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema?

É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar?

Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Você quer?
Espero que não.

Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas... a realidade já é dura; piora se for densa. Dura, densa, e bem ruim. Brincar é legal. Entendeu?

Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço, não tomar chuva. Pule corda! Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte. Ser adulto não é perder os prazeres da vida - e esse é o único "não" realmente aceitável. Teste a teoria. Uma semaninha, para começar. Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são: passageiras. Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir...

Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração! Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho gostoso agora?

"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios". "Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche".

sábado, 3 de setembro de 2005

O Rouxinol e a Rosa

Oscar Wilde

– Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas não vejo nenhuma rosa vermelha no jardim.

Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...

– Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – repetiu o Estudante, com os lindos olhos cheios de lágrimas.

– Ah! Como depende a felicidade de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.

E eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Gorjeei-o noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

– Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Se levar-lhe uma rosa vermelha, hei de tê-la nos braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará.

– Eis, na verdade, um apaixonado... – pensou o Rouxinol. – Do que eu canto, ele sofre. Aflige-o o que me alegra. Grande maravilha, na verdade, o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.

– Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... – e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.

– Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.

– É mesmo! Por que será? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.

– Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.

– Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol.

– Por causa de uma rosa vermelha? – exclamaram – Que coisa ridícula! E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.

Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.

Subitamente, abriu as asas pardas e voou.

Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.

Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!

– Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.

Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

– Minhas rosas são amarelas como a cabeleira dourada das sereias que repousam em tronos de âmbar, e mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez te possa ajudar.

O Rouxinol então, dirigiu o vôo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu - e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

– Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.

– Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?

– Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.

– Dize. Não tenho medo.

– Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.

– A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola...O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?

Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.

O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.

– Rejubila-te – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá.

Em conseqüência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia, embora sábia; mais poderoso que o poder, embora poderosa. Tens as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em teus braços e seu hálito lembra o incenso.

O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.

Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.

– Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.

Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.

Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.

– Tem classe, não se pode negar – disse consigo – atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual a maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa e cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!

Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.

Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais enterrou-se-lhe no peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...

Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.

Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. – Mais ainda, Rouxinol, - exigiu a Roseira, - senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.

O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.

E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.

Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa.

– Mais ainda, Rouxinol, - clamou a Roseira – raiar o dia antes que eu finalize a rosa.

E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.

Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.

E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.

Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.

Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.

Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.

A rosa vermelha o ouviu, e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.

– Olha! Olha! Exclamou a Roseira. – A rosa está pronta, agora.

Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.

– Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.

Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.

– Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou-se o Estudante. – Aqui tens a rosa mais vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá quanto te amo.

Mas a moça franziu a testa.

– Talvez não combine bem com o meu vestido, disse. Ademais, o sobrinho do Camareiro mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...

– És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.

– Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o sobrinho do camareiro... – e a moça levantou-se e entrou em casa.

– Que coisa imbecil, o Amor! – Resmungou o estudante, afastando-se. – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.

Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...

Aos que virão depois de nós

Bertolt Brecht

I

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.
Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.

sábado, 27 de agosto de 2005

A mulher e a sombra

Vinícius de Moraes

Tentei, um dia, descrever o mistério da aurora marítima.

Às cinco da manhã a angústia se veste de branco
E fica como louca, sentada espiando o mar...

Eu a vira, essa aurora. Não havia cor nem som no
mundo. Essa aurora, era a pura ausência. A ânsia de
prendê-la, de compreendê-la, desde então me perseguiu.
Era o que mais me faltava à Poesia:

E um grande túmulo veio
Se desvendando no mar...

Mas sempre em vão. Quem era ela de tão perfeita, de
tão natural e de tão íntima que se me dava inteira e
não me via; que me amava, ignorando-me a existência?

És tu, aurora?
Vejo-te nua
Teus olhos cegos
Se abrem, que frio!
Brilham na treva
Teus seios tímidos...

O desespero inútil das soluções... Nunca a verdade
extrema da falta absoluta de tudo, daquele vácuo de
Poesia:

Desfazendo-se em lágrimas azuis
Em mistério nascia a madrugada...

Lembrava uma mulher me olhando do fundo da treva:

Alguém que me espia do fundo da noite
Com olhos imóveis brilhando na noite
Me quer.

E fora essa a única verdade conseguida. A aurora é uma
mulher que surge da noite, de qualquer noite – essa
treva que adormece os homens e os faz tristes. Só a
sua claridade é amiga e reveladora. Ao poeta mais
pobre não seria dado desvendá-la em sua humildade
extrema. O poeta Carlos, maior, mais simples, a
revelaria em sua pulcritude, a aurora que unifica a
expressão dos seres, dá a tudo o mesmo silêncio e faz
bela a miséria da vida:

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
Adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo facista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda não se modelaram
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.

A aurora dos que sofrem, a única aurora. Aquela mesma
que eu vira um dia, mas cujo segredo não soubera
revelar. Uma mulher que surge da sombra...
Bem haja aquele que envolveu sua poesia da luz piedosa
e tímida da aurora!

01.1945

Fonte: Para uma menina com uma flor (crônicas). In Poesia completa e prosa.

Os Ombros Suportam o Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas dos teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

domingo, 21 de agosto de 2005

Complexidade Feminina

Luis Fernando Veríssimo


M = Mulher
H = Homem

H - (Entra em casa)
M - Oi!
H - Oi!
M - Trabalhou muito?
H - Sim.
M - Tá cansado?
H - Um pouco.
M - Toma um banho!
H - Vou sim... preciso....... (Banho.)
M - Ué... vai sair?
H - Vou dar uma volta.
M - Sozinho?
H - É... sozinho.
M - Vai aonde?
H - Por aí.
M - Sozinho?
H - É.
M - Certeza?
H - Sim.
M - Quer que eu vá com você?
H - Não... pode deixar... prefiro ir sozinho.
M - Vai sozinho andar pela cidade?
H - É.
M - De carro?
H - Sim.
M - Tem gasolina?
H - Sim... coloquei.
M - Vai demorar?
H - Não... coisa de uma hora.
M - Vai a algum lugar específico?
H - Não... só rodar por aí.
M - Não prefere ir a pé?
H - Não... vou de carro.
M - Traz um sorvete pra mim!
H - Trago... que sabor?
M - Manga.
H - Ok... na volta eu passo e compro.
M - Na volta?
H - Sim... senão derrete.
M - Passa lá, compra e deixa aqui.
H - Não... melhor não! Na volta... é rápido!
M - Ahhhhh!
H - Quando eu voltar eu tomo com você!
M - Mas você não gosta de manga!
H - Eu compro outro... de outro sabor.
M - Aí fica caro... traz de cupuaçu!
H - Eu não gosto também.
M - Traz de chocolate... nós dois gostamos.
H - Ok! Beijo... volto logo...
M - Ei!
H - O que?
M - Chocolate não... Flocos...
H - Não gosto de flocos!
M - Então traz de manga prá mim e o que quiser prá você.
H - Foi o que sugeri desde o começo!
M - Você está sendo irônico?
H - Não... tô não! Vou indo.
M - Vem aqui me dar um beijo de despedida!
H - Querida! Eu volto logo... depois.
M - Depois não... quero agora!
H - Tá bom! (Beijo.)
M - Vai com o seu ou com o meu carro?
H - Com o meu.
M - Vai com o meu... tem cd player... o seu não!
H - Não vou ouvir música... vou espairecer...
M - Tá precisando?
H - Não sei... vou ver quando sair!
M - Demora não!
H - É rápido... (Abre a porta de casa.)
M - Ei!
H - Que foi agora?
M - Nossa!!! Que grosso! Vai embora!
H - Calma... estou tentando sair e não consigo!
M - Porque quer ir sozinho? Vai encontrar alguém?
H - O que quer dizer?
M - Nada... nada não!
H - Vem cá... acha que estou te traindo?
M - Não... claro que não... mas sabe como é?
H - Como é o quê?
M - Homens!
H - Generalizando ou falando de mim?
M - Generalizando.
H - Então não é meu caso... sabe que eu não faria isso!
M - Tá bom... então vai.
H - Vou.
M - Ei!
H - Que foi, cacete?
M - Leva o celular, estúpido!
H - Prá quê? Prá você ficar me ligando?
M - Não... caso aconteça algo, estará com celular.
H - Não... pode deixar...
M - Olha... desculpa pela desconfiança... estou com saudade... só isso!
H - Ok meu amor... Desculpe-me se fui grosso.
Tá... eu te amo!
M - Eu também!
M - Posso futricar no seu celular?
H - Prá quê?
M - Sei lá! Joguinho!
H - Você quer meu celular prá jogar?
M - É.
H - Tem certeza?
M - Sim.
H - Liga o computador... lá tem um monte de joguinhos!
M - Não sei mexer naquela lata velha!
H - Lata velha? Comprei pra a gente mês passado!
M - Tá.. ok... então leva o celular senão eu vou futricar...
H - Pode mexer então... não tem nada lá mesmo...
M - É?
H - É.
M - Então onde está?
H - O quê?
M - O que deveria estar no celular mas não está...
H - Como!?
M - Nada! Esquece!
H - Tá nervosa?
M - Não... tô não...
H - Então vou!
M - Ei!
H - Que ééééééé?
M - Não quero mais sorvete não!
H - Ah é?
M - É!
H - Então eu também não vou sair mais não!
M - Ah é?
H - É.
M - Oba! Vai ficar comigo?
H - Não vou não... cansei... vou dormir!
M - Prefere dormir do que ficar comigo?
H - Não... vou dormir, só isso!
M - Está nervoso?
H - Claro, porra!!!
M - Por que você não vai dar uma volta para espairecer?

domingo, 7 de agosto de 2005

OS POEMAS

Mário Quintana

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

domingo, 31 de julho de 2005

Momentos...

Clarice Lispector

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém
que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos
sonhos e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida
e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.

Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas
que passam por suas vidas.

O futuro mais brilhante é baseado num passado
intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e
as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram
uma eternidade.
A vida não é de se brincar, porque em um belo dia se morre.

sexta-feira, 22 de julho de 2005

Código dos Homens Honestos

ou
A arte de não se deixar enganar por larápios
Honoré de Balzac

Roubos em lojas, apartamentos, cafés, restaurantes, roubos domésticos etc.

São roubos horríveis porque se apóiam na confiança. É difícil precaver-se contra eles, como se percebe pela raridade de nossos aforismos. Só podemos aludir aos exemplos mais famosos.

Art. 1º: As pessoas honradas, forçadas pelo destino a contratar cozinheiras, devem, para sua segurança, tentar contratar pessoas de bons costumes.

A maior parte dos roubos domésticos é fruto do amor.
O amante da cozinheira pode levá-la a fazer muitas coisas.
Você conhece a cozinheira; você não conhece o amante.
Você não tem o direito de proibir que sua cozinheira tenha um amante, pois:
1º: Os amantes são independentes das cozinheiras;
2º: Ao querer se casar, sua cozinheira está fazendo uso do pleno direito natural;
3º: Se ela tem um amante, é por uma boa razão.
Assim, amantes e cozinheiras são males necessários e inseparáveis.

Art. 2º: Examine com atenção as casas lotéricas de seu bairro, e procure saber se seus empregados jogam, se jogam apenas o que ganham etc.

Art. 3º: Nem sempre seus cavalos comerão muita aveia, mas sempre beberão muita água.
É difícil inspecionar as cocheiras.

Art. 4º: Quando seu apartamento estiver para alugar, muita gente virá vê-lo; não deixe nada fora das gavetas.

Art. 5º: Pretender impedir que um mordomo, uma cozinheira etc. roubem da despensa é uma rematada loucura.
Você será mais ou menos roubado, nada mais do que isto.

Art. 6º: A camareira usará os vestidos da patroa, o lacaio experimentará os ternos do patrão, usará suas camisas.
Se aquela viagem é um pretexto para se livrar dos importunos, por outro lado lhe trará vários problemas.
Assim que você partir, seu criado usará sua roupa, o copeiro irá à adega, o lacaio passeará no seu tílburi com a camareira, que ostensivamente cobrirá os ombros com um xale de caxemira. Enfim, será uma pequena orgia.

Art. 7º: Meio termo, jamais: tenha total confiança em seus criados, ou nenhuma.

Art. 8º: Uma cozinheira que tenha apenas um amante tem bons costumes; mas é necessário saber que amante é esse, seus meios de sobrevivência, seus gostos, suas paixões etc.
Essa pequena polícia doméstica pode evitar um assassinato.

---
Fonte: BALZAC, Honoré de. Código dos homens honestos. São Paulo, Ed.Abril, 2004.

quarta-feira, 20 de julho de 2005

Procura-se um Amigo

Vinícius de Moraes


Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

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Feliz Dia do Amigo!

sábado, 16 de julho de 2005

Fidel e a decadência do socialismo

Putin foi a Cuba e ficou impressionado com o número de pessoas usando sapatos furados, rasgados em cima e etc. Então, perguntou a Fidel, o porquê disso. Pois 40 anos de "melhoras" já haviam passado... como é possível que as pessoas ainda estavam com sapatos rasgados e maltratados nos pés? Fidel, indignado, respondeu com uma pergunta:

“E na Rússia, não é a mesma coisa? Vai me dizer que lá todo mundo tem sapato novo?”

Putin disse a Fidel que fosse a Rússia e conferisse por si mesmo. Que se ele encontrasse um cidadão qualquer com sapatos furados, tinha a permissão para matar essa pessoa. Fidel tomou um avião e viajou para Moscou. Quando desembarcou, a primeira pessoa que viu estava com sapatos rasgados, furados, tão velhos que pareciam ter pertencido ao seu avô. Fidel mão titubeou; sacou sua pistola e matou o sujeito – afinal, tinha permissão de seu colega Putin para fazer isso.

No dia seguinte os jornais anunciaram:

BARBUDO MALUCO MATA O EMBAIXADOR DE CUBA NO AEROPORTO!

A POESIA

Ferreira Gullar

Onde está
a poesia? Indaga-se
por toda parte. E a poesia
vai à esquina comprar jornal.

Cientistas esquartejam Puchkin e Baudelaire.
Exegetas desmontam a máquina da linguagem.
A poesia ri.

Baixa-se uma portaria: é proibido
misturar o poema com Ipanema.
O poeta depõe no inquérito:
Meu poema é puro, flor
Sem haste, juro!

Não tem passado nem futuro.
Não sabe a fel nem sabe a mel:
É de papel.

Não é como a açucena
Que efêmera
Passa.
E não está sujeito a traça
Pois tem a proteção do inseticida.
Creia,
O meu poema está infenso à vida.

Claro, a vida é suja, a vida é dura.
E sobretudo insegura:
“Suspeito de atividades subversivas foi detido ontem
o poeta Casimiro de Abreu.”
“A Fábrica de Fiação Camboa abriu falência e deixou
sem emprego uma centena de operários.”
“A adúltera Rosa Gonçalves, depondo na 3ª Vara de Família,
afirmou descaradamente: ‘Traí ele, sim. O amor acaba, seu juiz.’”

O anel que tu me deste
era vidro e se quebrou
o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou

Era pouco? era muito?
Era uma fome azul e navalha
uma vertigem de cabelos dentes
cheiros que traspassam o metal
e me impedem de viver ainda
Era pouco? Era louco,
um mergulho
no fundo de tua seda aberta em flor embaixo
onde eu morria

Branca e verde
branca e verde
branca branca branca branca
E agora
recostada no divã da sala
depois de tudo
a poesia ri de mim

Ih, é preciso arrumar a casa
que André vai chegar
É preciso preparar o jantar
É preciso ir buscar o menino no colégio
lavar a roupa limpar a vidraça
O amor
(era muito? era pouco?
era calmo? era louco?)
passa
A infância
passa
a ambulância
passa
Só não passa, Ingrácia,
A tua grácia!



E pensar que nunca mais a terei
real e efêmera (na penumbra da tarde)
como a primavera.
E pensar
que ela também vai se juntar
ao esqueleto das noites estreladas
e dos perfumes
que dentro de mim gravitam
feito pó
(e um dia, claro,
ao acender um cigarro
talvez se deflagre com o fogo do fósforo
seu sorriso
entre meus dedos. E só).


2
Poesia – deter a vida com palavras?
Não – libertá-la,
fazê-la voz e fogo em nossa voz. Po-
esia – falar
o dia
acendê-lo do pó
abri-lo
como carne em cada sílaba, de-
flagrá-lo
como bala em cada não
como arma em cada mão

E súbito da calçada sobe
e explode
junto ao meu rosto o pás-
saro? O pás
?


Como chamá-lo? Pombo? Bomba? Prombo? Como?
Ele
bicava o chão há pouco
era um pombo mas
súbito explode
em ajas brulhos zules bulha zalas
e foge!
como chamá-lo? Pombo? Não:
poesia
paixão
revolução


GULLAR, Ferreira. Toda Poesia. 5ª ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1991, pp.209-212.

segunda-feira, 11 de julho de 2005

A canção da vida

Mário Quintana

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flore está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluiro azul do ar!
Não vás ficarnão vás ficaraí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

Portugal e a Nasa

A Nasa enviou ao espaço três macacos e um português:

- Nasa para nave, macaco n. 1 configurar painel de controle da espaçonave.

- Configuração efetuada!

- Macaco n. 2 verificar pressurização da espaçonave.

- Pressurização verificada!

- Macaco n. 3, alinhar a rota da espaçonave.

- Rota alinhada!

- Astronauta português.

- Já sei, já sei, “põe comida prós macacos e não mexe em nada”.

quinta-feira, 7 de julho de 2005

Um sonho num sonho

Edgar Allan Poe

Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confesar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fingidia?
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.

Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grão de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! Meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! Meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho?

domingo, 3 de julho de 2005

Discussão

Um casal foi entrevistado num programa de televisão porque estavam casados há 50 anos e nunca tinham discutido. O repórter, curioso, perguntou à mulher:

- Mas vocês nunca discutiram mesmo?

- Não – respondeu a mulher.

- Como é possível isso acontecer?

- Bem, quando nos casamos, o meu marido tinha uma égua de estimação. Era a criatura que ele mais amava na vida. No dia do nosso casamento, partimos para a lua-de-mel em nossa carroça puxada pela égua. Andamos alguns metros e a égua, coitada, tropeçou. O meu marido, desceu, olhou bem nos olhos dela e disse: “Um”. Mais alguns metros e a égua tropeçou novamente. Meu marido, desceu, olhou bem nos olhos dela e disse: “Dois”. Na terceira vez que ela tropeçou, ele sacou uma espingarda e disparou quinze tiros na bichinha. Eu fiquei apavorada e perguntei: “Seu ignorante desalmado... Por que você fez isso, homem?”. Ele se virou para mim, me olhou bem nos olhos e disse: “Um”. Depois disso, nós nunca mais discutimos.

Das Alegorias

Franz Kafka

Muitos se queixam de que as palavras dos sábios sejam sempre alegorias, porém inaplicáveis na vida diária, e isto é o único que possuímos. Quando o sábio diz: "Anda para ali", não quer dizer que alguém deva passar para o outro lado, o que sempre seria possível se a meta do caminho assim o justificasse, porém que se refere a um local legendário, algo que nos é desconhecido, que

tampouco pode ser precisado por ele com maior exatidão e que, portanto, de nada pode servir-nos aqui.

Em realidade, todas essas alegorias apenas querem significar que o inexeqüível é inexeqüível, o que já sabíamos. Mas aquilo em que cotidianamente gastamos as nossas energias, são outras coisas. A este propósito disse alguém: "Por que vos defendeis? Se obedecêsseis às alegorias, vós mesmos vos teríeis convertido em tais, com o que vos teríeis libertado da fadiga diária." Outro disse: "Aposto que isso é também uma alegoria." Disse o primeiro: "Ganhaste".

Disse o segundo: "Mas por infelicidade, apenas naquilo sobre alegoria". O primeiro disse: "Em verdade, não; no que disseste da alegoria perdeste".

domingo, 19 de junho de 2005

Soneto de fidelidade

Soneto de fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure



Estoril - Portugal, 10.1939

Consertam-se Jegues

Consertam-se jegues



O cabra da peste vinha montado no jegue, quando, de repente, o animal empaca. E, como todo jegue que se preza, não sai mais do lugar de jeito nenhum. O sujeito faz de tudo e nada. Lá na curva ele vê uma faixa: "Consertam-se Jegues".


Entre aliviado e curioso ele caminha até lá e conta o problema. O dono da oficina manda seu ajudante em um caminhão para rebocar jegue. Chegando no local, o guindaste levanta o asno, coloca no caminhão e toca todo mundo para a oficina. Quando chegam, o dono da oficina fala para o ajudante:

- Severino, bota ele na rampa.

O guindaste desce o jegue numa rampa. Aí, o dono da oficina pega uma raquete de madeira (tipo frescobol), chega por trás e dá uma raquetada no saco do jegue. Santo remédio: o animal sai numa disparada! O dono do jegue fica abobado com a eficiência do serviço, mas tem uma dúvida e pergunta:

- Mas e agora, cumé que vou pegar o jegue?

Aí o dono da oficina fala para o ajudante:

- Ô Severino, bota o homi na rampa...

sábado, 4 de junho de 2005

Carta

Carlos Drummond de Andrade

Bem quisera escrevê-la
Com palavras sabidas,
As mesmas, triviais,
Embora estremecessem
A um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
Canais de argila e sombra,
Ela iria contando
Que vou bem, e amo sempre
E amo cada vez mais
A essa minha maneira
Torcida e reticente,
E espero uma resposta,
Mas que não tarde; e peço
Um objeto minúsculo
Só para das prazer
A quem pode ofertá-lo;
Diria ela do tempo
Que faz do nosso lado;
As chuvas já secaram,
As crianças estudam,
Uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-nos tornando o tempo
Estranhamento longo
Á medida que encurta.
O que ontem disparava,
Desbordado alazão,
Hoje se paralisa
Em esfinge de mármore,
E até o sono, o sono
Que era grato e era absurdo
É um dormir acordado
Numa planície grave.
Rápido é o sonho, apenas,
Que se vai, de mandar
Notícias amorosas
Quando não há amor
A dar ou receber;
Quando só há esperança,
Ainda menos, pó,
Menos ainda, nada,
Nada de nada em tudo,
Em mim mais do que em tudo,
E não vale acordar
Quem acaso repouse
Na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.

domingo, 22 de maio de 2005

Livro das Perguntas

Pablo Neruda

Tem coisa mais boba na vida
que chamar-se Pablo Neruda?

Que vim fazer neste planeta?
A quem dirijo esta pergunta?

E que importância tenho eu
no tribunal do esquecimento?

Não era verdade que Deus
vivia no mundo da lua?

Minha poesia desgarrada
abr'olhos com estes olhos meus?

Por que me picam as pulgas e os
sargentos da literatura?

Que dirão da minha poesia
os que não tocaram meu sangue?

Posso perguntar ao meu livro
se eu mesmo o escrevi? Desde quando?

Por que nas épocas obscuras
se escreve com uma tinta extinta?

E por que detesto as cidades
com cheiro de mulher e urina?

Quem devorou rente aos meus olhos
um tubarão cheio de pústulas?

Por que andam as ondas me indagando
sobre as mesmíssimas perguntas?

Por que não nasci misterioso?
Por que cresci sem companhia?

Das tais virtudes que esqueci
dá pra fazer um terno novo?

Onde está o menino que fui:
anda comigo ou evaporou-se?

Sabe que nunca fui com ele
nem ele comigo tampouco?

Por que estivemos tanto tempo
crescendo para essa ruptura?

Quando minha infância se foi
por que nós dois não fomos junto?

Ainda ontem disse aos meus olhos:
quando de novo nos veremos?

Não é melhor nunca que tarde
dentro de listões amarelos?

Em que janela me quedei
em busca do tempo, se pulcro?

Ou o que diviso destes ermos
ainda não passa de futuro?

Que me esperava em Ilha Negra:
verdades verdes? compostura?

Se morri e não me dei conta
morto, a'hora, a quem me pergunto?

Quem me mandou desvencilhar-me
das portas do meu amor-próprio?

É verdade que um condor negro
sobrevoa minha pátria noite?

Que há de pesar mais na cintura:
padecimentos? memórias?

Que deu em mim de transmigrar
se vivem no Chile meus ossos?

Por que me movo sem querer?
Por que estou sempre desinquieto?

E se minh'alma desabou
por que meu esqueleto prossegue?

Por que vou girando sem rodas
e voando sem asas nem penas?

Por que minha roupa desbotada
se agita como uma bandeira?

E que bandeira tremulou
no espaço em que não me esqueceram?

Pois não foi onde me perderam
que eu me dei, enfim, por achado?

Esse onde onde termina o espaço
se chama de morte ou infinito?

Por que voltei à indiferença
do maroceano desmedido?

Achas que o luto te antecipa
à bandeira do teu destino?

Se caí no laço do mar
por que fechei os meus caminhos?

Que significa persistir
no beco da morte-sem-saída?

E no mar do não-passa-nada
mortalha faz algum sentido?

Por que trabalham sal e açúcar
construindo-se uma torre branca?

Onde fica o umbigo do mar?
Por que até ali não chegam as ondas?

Foi das costas do mar que eu vim:
para onde vou quando me atalha?

Não sentes também o perigo
na gargalhada do maralto?

Onde terminará o arco-íris:
dentro da alma ou no horizonte?

Vejo de novo o mar ab ovo:
o mar me viu ou botou banca?

Não choras rodeado de risos
- só - com as garrafas do vazio?

Quanto media o polvo negro
que obscureceu a paz do dia?

Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?

Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?

E não achas que a morte vinga
dentro do sol de uma cereja?

Ou que em perigosas substâncias
do não ser, a morte lateja?

Devo escolher esta manhã
entre o céu e o mar, tudo ou nada?

Quem sabe lá de onde é que vem
a morte: de cima ou de baixo?

A morte não seria enfim
uma cozinha interminável?

Ou não seria a vida um peixe
preparado para ser pássaro?

O retrato preto denunciador

EAP & MLO

Dedicado à memória de Edgar Allan Poe*

Não espero nem peço que se dê crédito à história meramente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas, considerando o modo como dirijo, amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários cínicos, uma série de simples acontecimentos domésticos, que devido a suas conseqüências, me aterrorizaram, torturaram e instruíram.

Tudo começou quando, após sair totalmente desorientado de mais uma aula de Renascimento Português, fui abordado pela senhorita Rebeca. Ela retirou um canudo de sua bolsa, me entregou e disse que era um presente. Tratava-se de uma foto de um dos meus ídolos, o escritor estadunidense Edgar Allan Poe. No entanto, não tentarei esclarecê-los, mas no momento em que olhei para o retrato, em mim, quase não se produziu outra coisa senão horror. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza esse sentimento a algo comum – uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

Mas o fato é que desde que recebi aquela foto, a ternura de meu coração que era tão evidente, e que me tornava alvo dos gracejos de meus camaradas, começou a desvanecer. Enrubesço ao confessá-lo, mas não só o meu caráter como o meu temperamento, sofreram, devido à presença daquela foto, uma modificação radical para pior.

Tornava-me, a cada hora, mais taciturno, mais irritadiço, mais cínico e mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me aos meus amigos e familiares. No fim, cheguei mesmo a tratá-los com indiferença. Meus amigos, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto à foto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de destruí-la, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os colegas de trabalho, o cobrador do ônibus e mesmo o porteiro do prédio, quando, por acaso cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim – que outro mal pode se comparar ao consumo prolongado e contínuo de Fanta Laranja? – e, no fim, até a foto, que começava agora a amarelar na parede, e que por conseguinte, se tomara algo difícil de se encarar, começou a refletir os efeitos de meu mau humor.

Numa noite, ao voltar para casa, muito embriagado após mergulhar minhas magoas em três doses de Fanta Laranja, numa de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que a foto evitava a minha presença. Apanhei-a, e ao encará-la, notei que ela parecia assustada ante a minha violência. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pelo suco industrializado de laranja produzido pela Coca-cola, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Apanhei na escrivaninha uma tesoura, arranquei a foto da moldura e, friamente, recortei um dos olhos de Edgar Allan Poe! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.

Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão – dissipados já os vapores de minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no consumo de Fanta Laranja a lembrança do que acontecera.

Entrementes, recoloquei a foto na parede, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas, ao menos, a mim, não parecia mais que Poe sofria qualquer dor. Eu andava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à aproximação do local em que se encontrava o retrato. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos secundários - pois o cinismo e o sarcasmo ainda são os primários –, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final.

O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira à imagem do pobre poeta. Pela manhã, a sangue frio, retirei o retrato da parede, e por mais infantil que possa parecer, pintei-lhe os lábios e desenhei-lhe "chifrinhos". Observei por alguns minutos e, logo, após saquei de meu bolso um isqueiro e ateei fogo à imagem de Poe. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Queimei-o porque sabia que o respeitara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Queimei-o porque sabia que estava cometendo um pecado – um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mãe, minha sobrinha e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela. As palavras "Putz grila!", "Caráca! Véi!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura do autor de "O Corvo" como que num outdoor gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma fogueira embaixo da imagem de Poe.

Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O retrato de Poe, lembrei-me, fora queimado numa churrasqueira que fica no quintal nos fundos da casa. A queda das outras paredes e a cal do muro, juntamente com as chamas e o amoníaco desprendido das cinzas da foto, produziram a imagem tal qual eu agora a via. Ou talvez alguém tenha retirado as cinzas do retrato da churrasqueira e lançando-as, através de uma janela aberta, o que fez com que a imagem do retrato fosse transferida para a parede do meu quarto...

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante dias, não pude livrar-me do fantasma de Poe e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do retrato e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava - Feira da Ceilândia, Cebinho, Café da Rua 08 ou na Banca Brasiliana da RodoStation do Plano Piloto - outra foto do poeta que pudesse substituí-lo.

Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes engradados de Fanta, Coca-cola, Guaraná Antártica ou sei lá o quê – não concebo bem que refrigerante pudesse ser – que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto dos engradados, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo.

Levantei-me e o encarei como horror. Era um retrato emoldurado de Poe – tão grande quanto o que eu havia queimado – e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele: pelo semblante do autor, tive a nítida impressão que este parecia me encarar e me julgar com os olhos! Penso que era o olhar dele! Sim, era isso! Seus olhos pareciam com os de um abutre... olhos pálidos, como os de quem sofre de catarata. Meu sangue se enregelava ao sentir que seu olhar caía sobre mim; e assim, pouco a pouco, bem lentamente, fui-me decidindo a tirar o quadro daquele lugar, destruí-lo e assim libertar-me daqueles olhos para sempre.

Ora, aí é que estava o problema. A esta altura, deveis imaginar que sou louco. Mas os loucos nada sabem. Deveríeis, porém, ter-me visto. Deveríeis ter visto como procedi cautelosamente, com que prudência, com que previsão, com que dissimulação lancei mão à obra!

Fui mais cauteloso do que de hábito. O ponteiro dos minutos de um relógio mover-se-ia mais rapidamente do que meus dedos. Jamais, antes daquela noite, sentira eu tanto a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Mal conseguia conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que ali estava eu, pouco a pouco, na iminência de me livrar daquele olhar... Ri com gosto, entre dentes... O quadro estava num local escuro como piche, espesso de sombra. E eu continuei a avançar, cada vez mais, cada vez mais. Fiquei completamente silencioso e nada disse.

Ao aproximar-me, um feixe de luz iluminou uma parte do quadro e, novamente, pude ver os olhos do poeta. Eles estavam abertos, plenamente abertos. E, ao contemplá-los, minha fúria cresceu. Vi-o, com perfeita clareza; Poe me fitava com olhar de reprovação! Seus olhos tinham um aspecto desbotado, com uma horrível película a cobri-los, o que me enregelava até a medula dos ossos. Mas não podia ver nada mais da face, pois a fresta dirigira a luz como por instinto, sobre o maldito lugar.

De súbito, chegou a meus ouvidos um som baixo, duas palavras que não conseguia entender, algo como o tique-taque de um relógio, quando abafado com algodão, ou o sistema de som do Cine Márcia, quando exibindo um filme de ação.. Eu não sabia bem que som era e, acreditara tratar-se do bater do meu coração. Ele me aumentava a fúria, como o bater um tambor estimula a coragem do soldado.

Ainda aí, porém, refreei-me e fiquei quieto. Tentei manter-me tão focalizado em meu objetivo quanto a réstia de luz sobre os olhos do poeta. Entretanto, o infernal som aumentava. A cada instante ficava mais alto, mais rápido! Cada vez mais alto, repito, a cada momento! Prestai-me bem atenção? Disse-vos que houvera me tornado mais irritadiço do que eu um dia fora. E então, àquela hora morta da noite, tão estranho ruído excitou em mim um terror incontrolável. Contudo, por alguns minutos mais, dominei-me e fiquei quieto. Mas o barulho era cada vez mais alto.

E, depois, nova angústia me aferrou: o ruído poderia ser ouvido pelo dono do bar! A hora de me livrar daquele retrato maldito tinha chegado! Com reflexos semelhantes aos de um ninja, rapidamente retirei a foto da moldura e a embolei, colocando-a em meu bolso. Então, voltei rapidamente para minha casa – que agora estava em adiantada fase de reconstrução. Arranquei três cerâmicas do soalho do quarto e coloquei a foto entre os vãos. Novamente, ateei-lhe fogo e depois recoloquei as cerâmicas, com tamanha habilidade e perfeição, que nenhum olhar humano, nem mesmo o dele, poderia distinguir qualquer coisa suspeita.

Nada havia a lavar, nem mancha de espécie alguma. Fora demasiado prudente no evitá-las. Uma demão de cera tinha recolhido tudo... Ah! Ah! Ah! Terminadas todas essas tarefas, eram quatro horas. Mas ainda estava escuro, como se fosse meia-noite. Como tenho insônia, para mim era normal dormir tão tarde. Quando o sino do relógio soou a hora, bateram a porta da rua. Desci para abri-la, de coração ligeiro,... pois que tinha eu agora a temer?

Entraram três homens que se apresentaram, com perfeita mansidão, como estudantes de literatura. Fora ouvido de um vizinho, que eu tinha em meu poder um retrato de Edgar Allan Poe. Despertara-se a suspeita de eu houvera cometido um crime contra a sua memória. Tinha-se formulado uma denúncia e eles, estudantes de Letras, tinham sido mandados para investigar.

Sorri... pois, que tinha eu a temer? Dei as boas vindas aos cavalheiros. O retrato, disse eu, não existia, só em sonhos. Poe, relatei, nunca gostara de tirar fotos, portanto, como poderia eu ter alguma foto sua? Levei meus visitantes a percorrer toda a casa. Pedi que dessem busca... completa. Conduzi-os, afinal, ao quarto. No entusiasmo de minha confiança, trouxe cadeiras para o quarto e mostrei desejos de que eles ficassem ali, para descansar de suas fadigas, enquanto eu mesmo, na desenfreada audácia do meu perfeito triunfo, colocava minha própria cadeira, precisamente sobre o lugar onde repousavam as cinzas da vítima.

Os alunos ficaram satisfeitos. Minhas maneiras os haviam convencido. Sentia-me singularmente à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia cordialmente, conversavam coisas familiares. Mas, dentro em pouco, senti que ia empalidecendo e desejei que eles se retirassem. Minha cabeça me doía e parecia-me ouvir zumbidos nos ouvidos; eles, porém, continuavam sentados e continuavam a conversar. O zumbido tornou-se mais distinto. Continuou e tornou-se ainda mais distinto: eu falava com mais desenfreio, para dominar a sensação: ela, porém, continuava a aumentava sua perceptibilidade, até que, afinal, descobri que o barulho não era dentro dos meus ouvidos.

É claro que então minha palidez aumentou excessivamente. Mas eu falava ainda mais fluentemente e num tom de voz muito elevada. Não obstante, o som se avolumava... E que podia fazer? Era um som grave, monótono, rápido... muito semelhante ao do sistema de som do Cine Márcia, quando exibindo um filme de ação. Eu respirava com dificuldade... E no entanto, os estudantes não o ouviram. Falei mais depressa ainda, com mais veemência. Mas o som aumentava constantemente. Levantei-me e fiz perguntas a respeito de ninharias, num tom bastante elevado, e com violenta gesticulação, mas o som constantemente aumentava.

Por que não se iam embora? Andava pelo quarto acima e abaixo, com largas e pesadas passadas, como se excitado até a fúria pela permanência dos estudantes... mas o som aumentava constante. Oh! Deus! Que poderia eu fazer? Espumei... enraiveci-me... praguejei! Fiz girar a cadeira, sobre a qual estivera sentado, e arrastei-a sobre as cerâmicas, mas o barulho se elevava acima de tudo e continuamente aumentava. Tornou-se então mais alto... mais alto... mais alto!

E os homens continuavam ainda a passear, satisfeitos e sorriam. Seria possível que eles não ouvissem? Deus Todo Poderoso!... não, não! Eles suspeitavam!.. Eles sabiam!... Estavam zombando do meu horror!... Isto pensava eu e ainda penso. Outra coisa qualquer, porém, era melhor que essa agonia! Qualquer coisa era mais tolerável que essa irrisão! Não podia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Sentia que devia gritar ou morrer!... E agora... de novo! Escutai!

Mais alto!
Mais alto!
Mais alto!
Mais alto!
Mais alto...

Tudo bem! - trovejei – Vocês não precisam mais fingir que não escutam! Confesso o crime!... Arranquem as cerâmicas!.. aqui, aqui! ... ouçam o desgraçado dizer: “Nunca mais, nunca mais...”

FIM

Marcos Lima


*Que, depois dessa, deve estar se contorcendo no túmulo...

sábado, 14 de maio de 2005

Salim e sua empregada

Salim era milionário e não tinha se casado para não gastar dinheiro. Seu único luxo era sua empregada, Jacira, uma morena lindíssima. Todo dia, durante anos, quando Salim chegava em casa, Jacira servia o jantar e ia tomar banho.

Até que um dia, Salim estava jantando e ficou ouvindo o barulho da água, pensando na Jacira tomando banho.

Mastigava a comida e pensava na Jacira tomando banho...
Mastigava a comida e pensava na Jacira tomando banho...
Mastigava a comida e pensava na Jacira tomando banho...

Até que se levantou da mesa e foi até o banheiro. Bateu na porta:

- Jacira, você está tomando banho?
- Estou, Seu Salim.
- Jacira, abre a porta pra Salim.
- Mas, Seu Salim... estou nua...
- Jacira, abre a porta pra Salim.

A Jacira não resistiu muito e acabou por abrir a porta. Nesse momento, Salim entra no banheiro, vê Jacira nua e pergunta:

- Jacira, quer foder com Salim?
- Mas seu Salim, eu não sei...
- Jacira, quer foder com Salim?
- Sim, quero sim, seu Salim.

Então Salim pulou em cima dela.... botou a mão no registro do chuveiro e...

- Jacira não vai foder Salim não !!! -
fechando o registro
- Chega de gastar o água... vai foder outro!!!

domingo, 1 de maio de 2005

A incapacidade de ser verdadeiro

Carlos Drummond de Andrade

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.

Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

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Texto extraído de: ANDRADE, Carlos Drummond de. A cor de cada um. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1998.

À espera dos bárbaros

Constantino Kaváfis (1863-1933)  O que esperamos na ágora reunidos?  É que os bárbaros chegam hoje.  Por que tanta apatia no senado?  Os s...