quinta-feira, 12 de abril de 2007

Tempo

Não há forma de viajar se não for com tempo.
De que outra maneira posso sentir o pulsar de alguém,
de alguma coisa que seja?

É preciso tempo para conseguir viver o tempo dos outros.

Existe o tempo de estar só e o de estar acompanhado.
Mas, não é possível viajar se não for com tempo.
Viajar acompanhado traz o desafio de equilibrar o meu tempo
ao de quem me acompanha
e ainda o de tentar viver o tempo de quem visito,
do que visito.

Sem tempo posso correr atrás do prejuízo?
Sem tempo posso fazer muita coisa,
mas não viajo,
não sinto.

Com que compasso?
Preciso do meu tempo.
Sozinho, sozinhos.

Sozinho deixo-me perder.
Sozinhos deixamos de ter tempo próprio
e passamos a ter tempo para tudo.
O tempo deixa de ser meu;
passa a ser nosso.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Como um tom

Como um tom, que o espelho mostra,
soa em novembro um canto de
melro
ou como um arrepio nos pêlos,
como a comida preferida.

Mas numa manhã em fevereiro
Já se pode ousar, como um
papa-capim,
a lembrar-se de algo que durante
o ano não se pôde dizer abertamente.


Muzot, meados de fevereiro de 1924

(Por: Rainer Maria Rilke: primavera.)

terça-feira, 13 de março de 2007

Wie ein Ton

Wie ein Ton, der in Spiegel schaut,
klang im November ein Amsellaut
oder als rührte ans eigene Haar
einer, weil's einmal geliebkost war.

Aber am Morgen im Februar
darf es ein Fink schon wagen
etwas was kein Erinnern war
offen ins Jahr zu sagen.


Muzot, Mitte Februar 1924

(Aus: Rainer Maria Rilke: Frühling.)

sábado, 10 de março de 2007

Ruby tuesday

Rolling Stones



She would never say where she came from
Yesterday don't matter if it's gone
While the sun is bright
Or in the darkest night
No one knows
She comes and goes

Goodbye, Ruby Tuesday
Who could hang a name on you?
When you change with every new day
Still I'm gonna miss you...

Don't question why she needs to be so free
She'll tell you it's the only way to be
She just can't be chained
To a life where nothing's gained
And nothing's lost
At such a cost

There's no time to lose, I heard her say
Catch your dreams before they slip away
Dying all the time
Lose your dreams
And you will lose your mind.
Ain't life unkind?

Goodbye, Ruby Tuesday
Who could hang a name on you?
When you change with every new day
Still I'm gonna miss you...

quinta-feira, 8 de março de 2007

A uma mulher

Vinícius de Moraes

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.


Rio de Janeiro, 1933

in O caminho para a distância
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "O sentimento do sublime"

segunda-feira, 5 de março de 2007

Confidências

Querida amiga,

Conforme prometi, estou enviando um e-mail para contar as novidades da minha primeira semana após ser transferida pela firma para o Rio de Janeiro. Terminei hoje de arrumar as coisas no meu novo apartamento. Ficou uma gracinha, mas estou exausta. São dez da noite e já estou pregada. Amanhã te passo outro e-mail para dizer como foi o dia.

Segunda-Feira:
Cheguei na firma e já adorei. Entrei no elevador quase no mesmo instante que o homem mais lindo desse planeta. Ele é loiro, tem olhos verdes e o corpo musculoso parece querer arrebentar o terno. Lindooooo! Estou apaixonada. Olhei disfarçadamente a hora no meu relógio de pulso e fiz uma promessa de estar parada defronte ao elevador todos os dias a essa mesma hora. Ele desceu no andar da engenharia. Conheci o pessoal do setor, todos foram atenciosos comigo. Até o meu chefe foi super delicado. Estou maravilhada com essa cidade. Cheguei em casa e comi comida enlatada. Amanhã vou a um mercado comprar alguma coisa.

Terça-Feira:
Amiga! Precisava contar. Sabe aquele homem de quem falei? Ele olhou para mim e sorriu quando entramos no elevador. Fiquei sem ação e baixei a cabeça. Como sou burra! Passei o dia no trabalho pensando que preciso fazer um regime. Me olhei no espelho hoje de manhã e estou com uma barriguinha indiscreta. Fui no mercado e só comprei coisinhas leves: biscoitos, legumes e chás. Resolvido! Estou de dieta.

Quarta-Feira:
Acordei com dor-de-cabeça. Acho que foi a folha de alface ou o biscoito do jantar... Preciso manter-me firme na dieta. Quero emagrecer dois quilos até o fim-de-semana. Ah! O nome dele é Marcelo. Ouvi um amigo dele falando com ele no elevador. E ainda tem mais: ele desmanchou o noivado há dois meses e está sozinho. Consegui sorrir para ele quando entrou no elevador e me cumprimentou. Estou progredindo, né? Como faço para me insinuar sem parecer vulgar? Comprei um vestido dois números menor que o meu. Será a minha meta.

Quinta-Feira:
O Marcelo me cumprimentou ao entrar no elevador. Seu sorriso iluminou tudo! Ele me perguntou se eu era a arquiteta que viera transferida de Brasília e eu só fiz: "U-hum"... Ele me perguntou se eu estava gostando do Rio e eu disse: "U-hum". Aí ele perguntou se eu já havia estado antes aqui e eu disse: "U-hum". Então ele perguntou se eu só sabia falar "U-hum" e eu respondi: "Ã-hã". Será que fui muito evasiva? Será que eu deveria ter falado um pouco mais? Ai, amiga! Estou tão apaixonada! Estou resolvida! Amanhã vou perguntar se ele não gostaria de me mostrar o Rio de Janeiro no final de semana. Quanto ao resto, bem... ando com muita enxaqueca. Acho que vou quebrar meu regime hoje. Estou fazendo uma sopa de legumes. Espero que não me engorde demais.

Sexta-Feira:
Amiga! Estou arruinada! Ontem à noite não resisti e me empanturrei. Coloquei bastante batata-doce na sopa, além de couve, repolho e beterraba. Menina, saí de casa que parecia um caminhão de lixo. Como eu peidava! (nossa! Você não imagina a minha vergonha de contar isto, mas se eu não desabafar, vou me jogar pela janela!). No metrô, durante o trajeto para o trabalho, bastava um solavanco para eu soltar um futum que nem eu mesma suportava. Teve um momento em que alguém dentro do trem gritou: "Aí! Peidar até pode, mas jogar merda em pó dentro do vagão é muita sacanagem!". Uma senhora gorda foi responsabilizada. Todo mundo olhava para ela, tadinha. Ela ficou vermelha, ficou amarela, e eu aproveitava cada mudança de cor para soltar outro. O meu maior medo era prender e sair um barulhento. Eu estava morta de vergonha. Desci na estação e parei atrás de uma moça com um bebê no colo, enquanto aguardava minha vez de sair pela roleta. Aproveitei e soltei mais um. O senhor que estava na frente da mulher com o bebê virou-se para ela e disse: "Dona! É melhor a senhora jogar esse bebê fora porque ele está estragado!". Na entrada do prédio onde trabalho tem uma senhora que vende bolinhos, café, queijo, essas coisas de camelô. Pois eu ia passando e um freguês começou a cheirar um pastel, justo na hora em que o futum se espalhou. O sujeito jogou o pastel no lixo e reclamou: "Pó, dona Maria! Esse pastel tá bichado!". Entrei no prédio resolvida a subir os dezesseis degraus pela escada. Meu azar foi que o Marcelo ficou segurando a porta, esperando que eu entrasse. Como não me decidia, ele me puxou pelo braço e apertou o botão do meu andar. Já no terceiro andar ficamos sozinhos. Cheguei a me sentir aliviada, pois assim a viagem terminaria mais rápido. Pensei rápido demais. O elevador deu um solavanco e as luzes se apagaram. Quase instantaneamente a iluminação de emergência acendeu. Marcelo sorriu (ai, aquele sorriso...) e disse que era a bruxa da sexta-feira. Era assim mesmo, logo a luz voltaria, não precisava se preocupar. Mal sabia ele que eu estava mesmo preocupada. Amiga, juro que tentei prender. Mas antes que saísse com estrondo, deixei escapar. Abaixei e fiquei respirando rápido, tentando aspirar o máximo possível, como se estivesse me sentindo mal, com falta de ar. Já se imaginou numa situação dessas? Peidar e ficar tentando aspirar o peido para que o homem mais lindo do mundo não perceba que você peidou? Ele ficou muito preocupado comigo e, se percebeu o mau cheiro, não o demonstrou. Quando achei que a catinga havia passado, voltei a respirar normal. Disse para ele que eu era claustrófoba. Mal ele me ajudou a levantar, eu não consegui prender o segundo, que saiu ainda pior que o anterior. O coitado dessa vez ficou meio azulado, mas ainda não disse nada. Abaixei novamente e fiquei respirando rápido de novo, como uma mulher em estado de parto. Dessa vez Marcelo ficou afastado, no canto mais distante de mim no elevador. Na ânsia de disfarçar, fiquei olhando para a sola dos meus sapatos, como se estivesse buscando a origem daquele fedor horroroso. Ele ficou lá, no canto, impávido. Nem bem o cheiro se esvaiu e veio outro. Ele se desesperou e começou a apertar a campainha de emergência. Coitado! Ele esmurrou a porta, gritou, esperneou, e eu lá, na respiração cachorrinho. Quando a catinga dissipou, ele se acalmou. As lágrimas começaram a escorrer pelos meus olhos. Ele me viu chorando, enxugou meus olhos e disse: "Meus olhos também estão ardendo..." Eu juro que pensei que ele fosse dizer algo bonito. Aquilo me magoou profundamente. Pensei: "Ah, é, filho da puta? Então acabou a respiração cachorrinho...". Depois disso, no primeiro ele cobriu o rosto com o paletó. No segundo, enrolou a cabeça. No terceiro, prendeu a respiração, no quarto, ele ficou roxo. No quinto, me sacudiu pelos braços e berrou: "Mulher! Pára de se cagar!". Depois disso ele só chorava. Chorou como um bebê até sermos resgatados, quatro horas depois. Entrei no escritório e pedi minha transferência para outro lugar, de preferência outro País.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Falena (Mariposa)

Iago



Semplice, inspiegabile, inscindibile.
Tra alba e tramonto, tra inizio e fine.

L'amore è un bruco che ritmicamente
si fa largo fra le consuetudini
e le rende istinti.

La metamorfosi è la via per
ingannare le divinità.

Trasformazione di una volontà ad esistere.
E come l'acqua, diventa molte cose.

Ma la sua essenza più intima è l'empatia.
La crisalide è vuota, la notte sostiene
il suo volo. Sulle sue ali è scritta
la storia di un'emozione destinata a perire.

La fine ed il tempo cercano un punto
d'incontro per obbedire al destino.

Eppure lei sa come volare lontano dal
comprensibile. Battiti frenetici, percezioni.
E' per questo che lei è...Falena.


Mariposa

Simples, inexplicável, Inseparável,
Entre o amanhecer e o alvorecer,
Começo e fim.

O amor é uma lagarta que ritmicamente
se faz ao largo dos costumes
e rende instintos.

A metamorfose é o caminho
para ganhar a divindade.

Transformação de uma vontade de existir.
E como a água, tornar-se muitas coisas.

Mas a sua essência ultima é a empatia.
A crisálida está vazia, a noite sustenta
seu vôo. Sobre suas asas é escrita
a história de uma emoção destinada a perecer.

O fim e o tempo procuram um ponto
de encontro para obedecer o destino.

Apesar disso, ela sabe como voar
para longe do compreensível.
Batidos frenéticos, percepção.
E é por isso que ela é uma mariposa.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Mini conto kafkiano

Quase nunca Deus, ou quem quer que tenha forjado esse mundo, escuta nossas preces. Ou, se o faz, faz no momento errado, quando o desejo não é mais tão forte ou quando não é mais possível se alegrar com ele. Naquela noite, aproximei-me da igreja com suspeita e, como sempre, apresentei meus pedidos a Deus. Há tanto tempo que pedia, que eu não sabia mais o que oferecer em troca. Voltei para casa e rezei até o amanhecer, e fiz isso com fervor. Eu queria uma coisa, apenas uma coisa e Ele sabia o que era... Quando ela chegou, fiquei mais assustado do que contente. Há tanto tempo a havia pedido ao meu Deus, e há tanto tempo ela me havia sido negado... No entanto, agora pude ver seu rosto. Talvez seja aquilo que dizem no ditado sobre Deus escrever certo por linhas tortas ou sobre Ele saber o que faz... Por uma vida inteira acreditei merecer o Paraíso, mas o monstro que recebi em atendimento às minhas súplicas não pode ter vindo de outro lugar senão do Inferno.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Paura

São quase duas da manhã e não tenho sono. Um pensamento recorrente explode em meu cérebro; preciso colocá-lo para fora, mas não sei como. Quero externá-lo, mas acho que já o esqueci. Não sei explicar... é como se a cabeça fosse mais pesada do que o que o pescoço pode agüentar. Como uma novidade que esqueci de contar e que talvez, por isso, tenha perdido seu efeito. Minha mente me confunde e não consigo encontrar o pensamento que me aflige. Mas é só parar de pensar e ele aparece.

Essa não é a primeira vez que isso acontece e isso me deixa bastante nervoso. Quando tento me concentrar, as palavras me abandonam. Será que é apenas um sonho ou algo que aconteceu há muito tempo? Será que é aquilo que Freud chama de lembranças encobridoras? Mas, nesse caso, eu deveria ter, ao menos, algum pensamento que me fizesse esquecer aquilo que tento lembrar.

Talvez não consiga colocá-lo para fora porque tenho medo. Tenho medo dos meus pensamentos, de minhas idéias. Medo daquilo que penso e que talvez não seja justo. Medo do que creio ter razão, pois talvez o que eu creia não seja tão racional assim. Medo do que escuto e do que digo por que não tenho certeza se o que digo é o que realmente penso. Tenho medo dos meus pensamentos por que eles não escondem quem eu esqueci que sou.

sábado, 16 de dezembro de 2006

O Tempo Reduz Tudo a Nada

Arthur Schopenhauer

O tempo é a forma graças à qual a vanidade das coisas aparece como a sua instabilidade, que reduz a nada todas as nossas satisfações e todas as nossas alegrias, enquanto nos perguntamos com surpresa para onde foram. Esse próprio nada é portanto o único elemento objectivo do tempo, ou seja, o que lhe responde na essência íntima das coisas, e assim a substância da qual ele é a expressão.

Arthur Schopenhauer, in 'O Mundo como Vontade e Representação'.

sábado, 25 de novembro de 2006

Somos morte.

Bernardo Soares

Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos. Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, mas num sentido verdadeiro.

Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias. Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga. A verdade nunca, a paragem nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz, mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!

Bernardo Soares (Fernando Pessoa) In: Livro do desassossego, fragmento nº 178.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

A soma e substância de toda a filosofia

Casa-te, tu vais te arrepender; não te cases, tu também vai te arrepender; cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre. Ri-te das loucuras do mundo e irás arrepender-te; chora sobre elas, e arrependes-te também; ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas, e de ambas as coisas te arrependes; quer te rias das loucuras do mundo, quer chores sobre elas irás sempre arrepender-te. Acredita numa mulher, e irás arrepender-te, não acredites nela e arrependes-te também; acredites ou não numa mulher, arrependes-te de ambas as coisas. Enforca-te, e arrependes-te; não te enforques, e na mesma te arrependes. É esta, meus senhores, a soma e substância de toda a filosofia.

Søren Kierkegaard (Victor Eremita), in 'Aut/Aut' (Diapsalmata).

domingo, 1 de outubro de 2006

A alienação política e a direita brasileira

Um sentimento de nojo e indignação tem se apossado de mim ultimamente. Peço desculpas pelo desabafo, mas diante dos acontecimentos dos últimos dias, sinto a necessidade de colocar por escrito uma reflexão sobre as eleições, sobre a alienação política e o caminho que, acredito, seja o que queremos seguir.

Tenho ouvido muita gente dizer que vai votar nulo ou em branco porque se desiludiu com os rumos que o governo do PT tomou. Para essas pessoas, que se sentiram enganadas, abster-se do voto é uma atitude de revolta que simboliza a desforra pela “traição” cometida pelo PT. Dessa forma, o ato de tornar-se alienado constitui uma atitude de se desvencilhar, de se manter afastado, da sujeira e da corrupção tão alardeadas pela mídia.

No entanto, ser alienado político é observar a sociedade apenas superficialmente. É não ter o devido cuidado de estudá-la, de saber de onde se partiu ou do que foi feito para se chegar aonde ela chegou e, com esse conhecimento adquirido pela experiência, questionar e apontar caminhos que possam levar a um melhor progresso social, para que, dessa forma, se tenha uma sociedade mais igualitária. Para não ser alienado político é preciso descobrir a cada momento histórico o grupo político que tenha melhores condições de levar adiante o progresso social da humanidade.

Após a década de 60, quando nossas possibilidades foram interrompidas, o governo Lula foi o primeiro passo que demos em direção a um Brasil novo. É verdade que ainda estamos mergulhados no mundo neoliberal e na ideologia de mercado, mas é igualmente verdade que o governo que Lula está fazendo é superior ao do que o sociólogo fez, embora as variáveis que realmente interessem (desenvolvimento social, redução da pobreza etc.) sejam irrelevantes para a mídia e, principalmente, para a direita.

O que interessa para a direita, ao contrário do que ocorre com a esquerda, é tudo aquilo que sua classe possa aproveitar, ainda que seja prejudicial ao povo... O diabo é que, em sua propaganda maniqueísta, mente e manipula discaradamente a esse povo, seja tentando criar um um clima de desligitimação do governo por meio de "denúncias" da corrupção ou seja por meio da promoção de debates pseudo-democráticos.

O final infeliz da história é em dois atos: no primeiro, o povo tem seus votos tomados e, no segundo, lhe é dado as costas.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

O tédio é a raiz de todo o mal

Søren Kierkegaard

Não admira, pois, que o mundo vá de mal a pior e que os males aumentem cada vez mais, à medida que aumenta o tédio, e o tédio é a raiz de todo o mal. A história deste pode acompanhar-se desde os primórdios do mundo. Os deuses estavam entediados, pelo que criaram o homem. Adão estava entediado por estar sozinho, e por isso foi criada Eva. Assim o tédio entrou no mundo e aumentou na proporção do aumento da população. Adão aborrecia-se sozinho, depois Adão e Eva aborreceram-se juntos, depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois a população do mundo aumentou e os povos aborreceram-se en masse. Para se divertirem congeminaram a idéia de construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Esta idéia, por sua vez, é tão aborrecida como a torre era alta, e constitui uma prova terrível de como o tédio se tornou dominante.

KIERKEGAARD, Søren Aabye, in "Aut, aut"

À espera dos bárbaros

Constantino Kaváfis (1863-1933)  O que esperamos na ágora reunidos?  É que os bárbaros chegam hoje.  Por que tanta apatia no senado?  Os s...